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Talvez
a poesia seja pioneira no setor de “auto-ajuda”,
antes de haver editorialmente este termo.
Desde adolescentes colecionamos versinhos
de diversos autores em agendas e, muitas
vezes, dizemos deles: “esse verso
sou eu! Parece que ele me conhece!”.
Outras vezes um verso salva uma pessoa,
noutras, muda uma vida ou várias.
Tenho dedicado minha vida a popularizar
o gênero. Como sabemos, até
hierarquicamente o gênero poesia
é desprezado. As premiações
para romance e contos, por exemplo, nos
mais prestigiados concursos do mundo são
sempre mais avultosas do que os valores
para a poesia. Como se pudesse haver hierarquia
entre os gêneros. Acabo de publicar
o meu primeiro livro de contos e pude
me ver diante da insististe pergunta afirmativa
de variados jornalistas: “bem agora
que você já está escrevendo
contos, pretende também chegar
até o romance? “Ora falam
como se houvesse uma evolução.
Estamos falando da arte da escrita e cada
uma de suas modalidades possui um tecido
diferente. Acaso nas artes plásticas
um escultor é melhor do que um
pintor? Muitas vezes o cara é um
grande romancista e não foi capaz
de um verso; eu não conheço
nenhum poema de Virgínia Woolf,
e tão pouco posso dizer que Fernando
Pessoa é menor do que Gabriel Garcia
Marques.
Estou
dizendo que a poesia sofre de discriminação,
preconceito e de desprestígio por
parte de livreiros, editores e consequentemente
do público a quem não é
oferecida está pérola de
forma atraente. Ora, se a poesia está
na fala das crianças (A lágrima
é magoa da água), nos provérbios
populares (Quem não vive para servir
não serve para viver / O que a
gente leva da vida é a vida que
a gente leva), nas cartas dos apaixonados
(Que não seja imortal, posto que
é chama, mas que seja infinito
enquanto dure), nas folhinhas dos calendários
(Fica sempre um pouco de perfume nas mãos
que oferecem rosas), nas letras de música
(Se eu quiser falar com Deus tenho folgar
os nós das gravatas, dos sapatos,
dos anseios, tenho que esquecer a data,
tenho que perder a conta, tenho que ter
mãos vazias, ter a alma e o corpo
nus.), nos sermões religiosos (Não
diga a Deus o tamanho dos seus problemas,
diga aos seus problemas o tamanho do seu
Deus).
Pois
bem se ela está em toda parte,
por que não vende? Por que é
considerada menor? Arrisco em dizer que
a gênese dessa dificuldade de circulação
da poesia esteja no ensino básico
onde a criança é apresentada
ao poema e o professor (salvo raras exceções)
não sabe lê-lo. Para se ler
um poema há uma tendência
universal de impostar a voz e se distanciar
do tema para priorizar a sua forma. Carrega-se
a mão na tinta ao se eleger as
rimas no exagero sonoro de exaltá-las,
criando assim uma “música”
previsível e aprisionante que faz
parecerem iguais todos os poemas. Esse
jeito formal de tratar o verso quando
é dito nos saraus de declamação
ou na sala de aula prejudica a comunicação
e a transmissão da mensagem que
aquele verso traz, além de entediar
e muitas vezes fazer adormecer seu público
alvo. Na maioria das vezes a forma gráfica
desta escrita ilude o leitor e o orador,
levando-o a respirar a cada fim de verso
atropelando o seu sentido, cortando o
fluxo de uma oração, separando
o verbo do seu complemento, o adjetivo
de seu substantivo, criando uma distância
violenta e uma montanha de “non
sense” entre a poesia e seu espectador.
Vou dar um exemplo no fragmento do poema
de Manuel Bandeira:
“Teu corpo
de maravilhas
quero possuí-lo no leito
estreito da redondilha.”
Infelizmente,
algumas vezes pude assistir esses versos
sendo lidos dando uma pausa no “leito”,
separando bruscamente o adjetivo “estreito”
que dá qualidade ao “leito”,
se falado junto. Porém, quando
os separamos criamos um discurso doido
que suspende qualquer entendimento lógico.
Tenho
dedicado minha vida à difusão
da poesia em todos os meios de comunicação
para todos os públicos e idades.
Quando tinha apenas onze anos, minha mãe,
percebendo o meu gosto por esta arte já
na escola, me levou para estudar declamação.
Por sorte a professora era uma mulher
especial e foi me dizendo logo que o seu
curso era, não de declamação,
mas de Interpretação Teatral
da Poesia. Eu não entendi logo
o que isso significava, mas gostei e essa
senhora querida, Maria Filina Sales Sá
de Miranda me ensinou a ler o poema contando
a sua história, só dando
pausas ditadas pelo sentido e não
pela forma. Essa escola onde permaneci
por seis anos consecutivos e dela só
saí para ingressar no teatro, deu
um vetor diferencial no tratamento poético
para mim. A experiência nos palcos
do Brasil e de alguns outros países,
me levou a criar a Escola Lucinda de Poesia
Viva, cujo lema é “falando
poesia sem ser chato”. Este lema
nasceu porque quando iniciei meus espetáculos
monólogos poéticos no Rio
de Janeiro, descobrimos que se colocássemos
a palavra poesia nos cartazes de divulgação
afastávamos o publico que certamente
pensava o que inúmeras vezes verbalizou:
“Ah não, monólogo
e poesia ainda por cima..., não
vou suportar!” Foi preciso então
que muita gente testemunhasse que era
possível outra forma de experênciar
a poesia e ver que meus recitais, ao contrario
dos outros, não deixava ninguém
dormir na poltrona, para que eu pudesse
como hoje estampar a palavra poesia nas
peças publicitárias desses
espetáculos, sem medo de espantar
ninguém. A experiência diversificada
durante estes anos falando para auditórios
de duas mil pessoas, cinco mil e até
quarenta mil me fez concluir que o segredo
dessa comunicação está
em trazer para a poesia a musicalidade
das conversas, digo das conversações
cotidianas. Se o poema nasce do cotidiano
ele deve ter o seu acento, sua “imperfeição”
humaníssima, seus muxoxos, seus
naturais gestos que jamais devem ser ensaiados
antes. Pois da mesma maneira que quando
falamos o texto da nossa vida real, utilizamos
nossas mãos e todo nosso corpo
como agente de expressão espontânea,
assim devemos fazê-lo com os versos,
gesticulando sem pensar nisso. Se devolvemos
à poesia seu sotaque original,
seu desejo de ser compreendida, sua musicalidade
informal de conversa, de “charla”,
seu dom de comunicação se
cumpre e encontra seu alvo. Muita gente
me diz que era virgem de poesia antes
de conhecer esse modo de dizer, que antes
se sentia menor, excluído e incapaz
de compreender um poema. A experiência
me diz que a culpa raramente é
do poema e sim de seus declamadores. Na
Escola Lucinda de Poesia Viva costumo
dizer aos meus alunos que eles passarão
por uma “clínica de desintoxicação”
para que se libertem do “vício”
de aprisionar o poema numa “música”
formal e limitada como se fosse um chato
discurso político, que nos acompanha
desde criança.
Caí
dentro desse assunto tratando este “produto”
com iniciativas de multimídia.
Explico: ao publicar um livro, também
o lanço em forma de espetáculo,
de CD e agora de DVD, além de utilizar
a televisão e o rádio para
dizer poemas a cada entrevista. Essa atitude
traz maior circulação e
consumo do gênero. Coleciono uma
série de exemplos que comprovam,
não só a utilidade mas a
necessidade da poesia no mundo; me lembro
do ano passado durante o Fórum
de Cultura em Barcelona quando uma senhora
me disse que tinha trocado suas pílulas
anti-depressivas por uma dose diária
do meu espetáculo poético
“Parem de falar mal da rotina ”.
De outra vez uma senhora aluna minha de
oitenta anos, Dona Elza, me disse que
havia perdido um neto e nem tinha tido
espaço pra sofrer por se sentir
na obrigação de consolar
a filha no seu desespero atroz; certo
dia Elza ao entrar na livraria abriu,
por curiosidade, um livro de Carlos Drumonnd
Andrade e se deparou com um poema que
ressignificava o conceito da palavra ausência
dizendo que ausência é, não
uma falta, mas um excesso de presença
do objeto amado. De alguma maneira esse
pensamento aliviou o coração
da avó e curou a depressão
da mãe. D’outra vez um jornalista
de uma grande revista brasileira me ouviu
dizer um poema meu que se chama “Libação”,
cujos versos finais mudaram sua vida:
“A vida
não tem ensaio
mas tem novas chances
Viva a burilação eterna,
a possibilidade
o esmeril dos dissabores!
Abaixo o estéril arrependimento
a duração inútil
dos rancores
Um brinde ao que está sempre nas
nossas mãos:
a vida inédita pela frente
e a virgindade dos dias que virão!”
Pois
ao ouvir essas palavras, Leôncio
refletiu sobre sua carreira e admitiu
que se considerava um embuste como jornalista
e que poderia viver sendo mais honesto
com os seus sonhos. A partir daí
e na mesma semana, mesmo indo contra seus
familiares, pedira demissão dos
seus vinte anos de revista “Veja”
e com o dinheiro recebido abriu uma livraria
chamada “Esquina da Palavra”
que era o seu sonho desde menino e da
qual sou madrinha a seu convite; o batizado,
eu nem preciso dizer, foi um recital.
Há um poema (Choro à capela)
de Adélia Prado que também
produz milagres:
“O poder
que eu quisera é dominar meu medo.
Por esse grande dom troco meu verso, meu
dedo,
meus anéis e colar.
Só meu colo não ponho no
machado,
porque a vida não é minha.
Com um braço só, uma só
perna,
ou sem os dois de cada um, vivo e canto.
Mas com todos e medo, choro tanto
que temo dar escândalo a meus irmãos.
...................................................................................
Tristeza é o nome do castigo de
Deus
e virar santo é reter a alegria.
Isso eu quero.”
O primeiro milagre (que eu saiba) que esse
poema operou foi com uma aluna que o estudou
durante um workshop para professores em
Recife. Depois que Marina, essa professora
simples da escola pública da zona
rural pernanbucana, disse esse poema de
cór, nervosa e emocionada, mas
muito bem dito, para um platéia
de mil pessoas que a aplaudiu de pé,
recebi uma carta sua que dizia mais ou
menos assim:
“Elisa, foi uma experiência
maravilhosa esse curso para mim, depois
daqueles três dias mágicos
estudando um poema mágico e conhecendo
outros, passei a ver poesia em tudo: no
pão quentinho nas mãozinhas
dos meus filhos pela manhã, na
alegria dos meus alunos, no vento da tarde
e tirei da minha vida tudo que não
é poesia. O primeiro a sair foi
meu marido. Obrigada por tudo.”
Depois
em outro workshop no interior do Rio de
Janeiro veio falar comigo uma aluna, Ivone,
que nos seus trinta e cinco anos exibia
dedos das mãos e dos pés
entortados por um processo de artrose
cavalar. Pois na hora da escolha de poemas
ela se aproximou de mim particularmente
e disse que havia me visto dizer um poema
na tv e que deu vontade de saber um poema
de cor para experimentar da mesma sensação
que ela experimentara ao me ver, só
que no papel de dizedora. Ivone, no entanto,
revelou não saber que poema escolher,
uma vez que seu dilema era a triste doença
que aleijava sua juventude a passos largos.
Ela então me perguntou o que eu
faria se estivesse em seu lugar. Respondi
que a achava muito corajosa e que se eu
tivesse os dedos tortos, a princípio
tentaria escondê-los por vergonha.
Mas que ela, ao contrário, trazia
as unhas muito bem feitas, pintadas de
vermelho e os tortos dedos cheios de anéis,
e que além disso, maior defeito
físico era o medo, que paralisava
pessoas não portadoras de nenhum
defeito físico e que, no entanto,
não estavam ali, bravamente como
ela. Sugeri o “Choro à Capela”
e Ivone o abraçou com unhas e dentes
e no segundo dia do curso, voluntariamente,
foi a primeira a apresentá-lo,
memorizado, emocionando a todos, toda
linda de dentro dum vestido colante de
oncinha. Ivone casou logo depois com um
dos que a viram dizer esse poema nesse
dia.
Há dois anos fui convidada a jantar
com meu grande amigo ator, autor de telenovelas
e diretor de teatro, Miguel Falabella.
Na ocasião ele me falava que havia
perdido o pai que tanto amava e por isso,
obviamente estava muito triste. Lembrei-me
então de um outro poema de Adélia
chamado “Leitura”:
“Era um
quintal ensombrado, murado alto de pedras.
As macieiras tinham maçãs
temporãs, a casca vermelha
de escuríssimo vinho, o gosto caprichado
das coisas
fora do seu tempo desejadas.
Ao longo do muro eram talhas de barro.
Eu comia maçãs, bebia a
melhor água, sabendo
que lá fora o mundo havia parado
de calor.
Depois encontrei meu pai, que me fez festa
e não estava doente e nem tinha
morrido, por isso ria,
os lábios de novo e a cara circulados
de sangue,
caçava o que fazer pra gastar sua
alegria:
onde está meu formão, minha
vara de pescar,
cadê minha binga, meu vidro de café?
Eu sempre sonho que uma coisa gera,
nunca nada está morto.
O que não parece vivo, aduba.
O que parece estático, espera.”
E assim seguiu o nosso jantar “poético”,
porque ao final de cada tema de nossas
vidas e de nossos assuntos, eu tirava
da manga um poema oportuno. Foi quando
ele me disse que aquilo exercia nele uma
maravilha curativa sem medida e que eu
deveria criar postos de “Emergência
Poética” pela cidade do Rio
de Janeiro, onde moramos, para que as
pessoas pudessem apresentar seus problemas
e ter a solução prescrita
em versos.
Meus
amigos, a poesia é uma jóia
como gênero e não está
abaixo e nem acima de nenhum outro. Tem
o poder de ser ambulante, de poder andar
no bolso, no coração, na
sala de aula, entre amantes, no meio de
uma sedução, no meio de
uma tese, no meio de uma palestra, num
julgamento, num programa de tv, num passeio,
num churrasco, numa canção,
num teatro, numa festa, e merece atenção
e tapetes vermelhos por parte dos profissionais
de literatura. Me despeço com um
fragmento do “Credo”, o meu
poema mais caçula.
“Porque
sou humano e creio no divino da palavra, pra mim é um oráculo a poesia!
É meu tarô, meu baralho,
meu tricô, minha reflexão,
minha bruxa, meu caldeirão,
meu I ching, meu dicionário, meu
cristal clarividente, meu búzio,
meu copo com água, meu conselho,
meu colo de avô,
a explicação ambulante de
tudo o que pulsa e arde..
A poesia é síntese filosófica,
fonte de sabedoria e bíblia dos
que, como eu, crêem na eternidade
do verbo, na ressurreição
da tarde e na vida bela, amém!”
“Se eu fosse um padre
Se eu fosse um
padre, eu, nos meus sermões,
não falaria em Deus nem no Pecado
– muito menos no Anjo Rebelado
e os encantos das suas seduções,não citaria
santos e profetas:
nada das suas celestiais promessas
ou das suas terríveis maldições...
Se eu fosse um padre eu citaria os poetas,
Rezaria seus versos,
os mais belos,
desses que desde a infância me embalaram
e quem me dera que alguns fossem meus!
Porque a poesia purifica a alma
...e um belo poema – ainda que de
Deus se aparte –
um belo poema sempre leva a Deus!”
Mario Quintana
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