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sexta-feira, 10 de julho de 2009
Prova de Amor
Me vejo pensando na abismal distância entre a ciência e o viver, em como é bem-vindo o tempo em que a criança, o adolescente e o jovem associem a palavra escola com aprender a viver. Nasceu então essa carta poema como modelo singelo da utilidade desse saber:

Queria não saber nada de Aritmética, para não contar os dias em que não te vejo. Queria errar na conta do que falta para você chegar. Enquanto você não vem, a aflição me quer inquieta e o medo me quer estática. Cresci achando que as horas esperada da vida não tinham nada que ver com a matemática! Ando de bicicleta, passeio pensando em você, almejando te ver na lua minguante. Eu, pousado no seu corpo firme e nele me equilibrar, cair, dançar, me perder, me espalhar; fêmea e onírica. E isso tudo pra mim não tinha nada a ver com física.

Oh, meu amor cujo trabalho é registrar o olhar, criar rastros de figuras com ele, enquanto fotografo de longe, em palavras, quieta, serena, gótica. Mas como é que eu iria saber que tudo isso tem a ver com a ótica? Procuro palavras lindas, vasculho meu repertório, o dicionário emocional que guarda os meus vernáculos, enquanto a lua sobre tudo brilha e míngua, mas isso pra mim não tinha nada a ver com línguas. É certo que guardo o toque do seu rosto no meu, no meio do salão trago o cheiro, a dança, o tesão, e tudo isso faz ferver um caldeirão em mim. Pois tudo isso aciona em nós dois uma desenfreada alegria alquímica. Mas quem deixou de me dizer que essa era a mais pura aula de química?

Oh, meu amor, quem me dera que você viesse logo para que eu pudesse te mostrar em detalhes a atualização dos meus jardins, para que eu pudesse exibir-me prendada na terra, moça de boas mãos, cujos botões de rosas plantadas na manhã de ontem me oferecem suas vermelhas, rosas e amarelas pétalas abertas um só dia depois. Queria mostrar-te, pois, estas belezas, ensinar-lhe, amorosa, sua dinâmica; tudo isso sem saber que o assunto era botânica! Sem falar no mar, esta maravilha, da qual, litorânea garota que sou, conheço suas ondas, sua Yemanjá, seu poder e sua poesia. Meu Deus, quem diria que o mar faz parte da aula de geografia? E tem mais, fui lá pra fora, na varanda de minha alma, e no céu uma nuvem calma encobria a lua amarela, mas não apagava a minha caligrafia. Céu, estrelas, planetas, o sol dos dias; quem romântico entenderia que isto é função da aula de astrologia?

É manhã nova. O primeiro pensamento me alivia. Está mais perto da hora e do dia de eu provar de novo do seu beijo, sua doce presença que tanto me acalma. Como podes, com um simples enlace da minha cintura, tumultuar meu sangue, dar-lhe pressão máxima, mudar-me do corpo a temperatura? Provocar-me uma renovação de células, uma doce citologia, uma revolução de culturas? Coração dispara, enlouquece, aquece. Tudo se move em mim: mitos, mitocôndrias, seios, sulcos, rios, uma verdadeira hidrografia de energia. Como é que eu ia adivinhar que o seu corpo no meu já era prova real de biologia? O que mais me atrai em ti, pra além deste olhar de Copacabana e desta boca que enche de constelação o céu da minha, é o seu caráter, meu homem, a sua conduta certa, sua dignidade, o jeito simples de olhar o mundo pelas lentes da bondade, de semear no escuro as suas certezas, sua claridade lírica. Mas, meu Deus, quando eu era pequena, não sabia que o nome da ética era moral e cívica.

Se quiser me ver, vai me encontrar, eu penso. O dia segue ainda sem você no bojo, mas a possibilidade de lhe ver, veja você, não é nada mística; hoje sei que quem me garante essa espera é a lógica da estatística. Pera aí! Mas foi só um beijo e eu sonhei isso tudo, esses sujeitos, estes subjuntivos, estes futuros, estas falácias? Você, sujeito do meu melhor período, conjuga meus verbos, envolvendo certo meus predicados. Confio na oração principal, que vai me levar ao colo de sua concreta delicadeza, sua beleza prática; só que ninguém me falou, meu amor, que isso era prova final de gramática!

Quero viver este amor por todos os lados da alegria: seus cubos, seus quadrados, seus triângulos superpostos, sobrepostos nos ângulos da magia. Então, quando passas a régua em mim, isso é legítima geometria! Chega, meu amor, vou dormir. Tenho o coração cansado. Inscrevo palavras de amor em todas as faces do mesmo dado. O amor é o tempero, o sal da vida, diz o ditado. É esta a matéria da vida: veja bem, uma dança, um beijo, um amasso na escada, tudo é coisa letiva da vida escalada. As palavras doces ditas entre os degraus do jardim, as velas acesas, como acesas brilham na toalha luminosa da mesa de uma recentíssima memória. E, para nossa glória, hoje entendo tudo: Nosso amor, meu amor, vai entrar para a história!

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quarta-feira, 17 de junho de 2009
Poema da manhã seguinte
Como se eu fosse uma flor,
você me rodeou
pousando sobre mim como se deve.
Delicada presença em minha vida
no meio do salão,
bailando leve.

Sei o que você veio buscar na flor.
Sem que eu percebesse,
para que assim eu não te detivesse,
bateu a asa vampira
tornando quase eternidade
a vida curta de uma borboleta breve.

Manhã de 16 de maio.

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sexta-feira, 5 de junho de 2009
Uma poesia inédita para vocês.
Lição de Outono

Uma chuva não oblíqua, mas incidente,
cai sobre a noite de outono
no Rio de Janeiro.

Meu desamparo não se atreve
a botar o focinho na porta de casa.
Sabe que essa água ampara, aquieta,
aquece o invisível ninho.

Porque mesmo em apartamento, hotéis e estalagens,
sempre houve um som de chuva
estalando serelepe no meu telhado.

Quando chove, ajeito-me na cama
e para qualquer lado.

Tudo é aconchego,
dança, sono, acalanto, bailado.

O derrame da água em forma de pingos
me ensina a reunir minhas partes,
minhas frações,
me sugere conjunto
onde houver baque, choque, cisão.

A renda líquida da chuva de outono enfeita minha varanda,
sua música me protege, é meu cortinado.
A chuva emenda trincados
e quem duvidará
da unidade de um temporal?

Estala, chuva amiga,
aprende alma: se parte, é cristal.

Madrugada, 29 de outono, maio de 2009.

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David Lima

A Laranja de
David Lima


Daniel Rolim
Cavaleiro Andante


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