Cinqüenta e duas flexões para manter o pensamentinho em forma nesse verão. Foi vindo das águas baianas que esse pensamento como um título se aboletou na minha cabeça. A história começa com a decisão de passar o meu aniversário na Casa de Yemanjá na praia do Rio Vermelho, no bairro dela.Salvador recebe um furor de gente e emoção vinda de toda parte para obedecer Caymi e salvar Yemanjá. Fui na alvorada, ao que minha amiga preta baiana, a Silvia Rita, iluminou: tirei o dia pra você, viu bruxinha? mas olhe vá, no cortejo às quatro da manhã. Lá fui eu, toda de branco naquele azul de madrugada que só se vê em filme. Duas mil pessoas, senhoras, homens, moças, devotos com seus balaios entremeados com fita de cetim e florezinhas de pano em volta; dentro desses cestos de delicadeza, renda e vime, toda sorte de presente pra ela se enfeitar: pente, champagne, perfume, milhares de flores, imagens, bonequinhas vestidinhas de azul, brincos, colares,pulseiras, cartas bilhetes;um homem derrama um vidro de alfazema na minha cabeça, alguém diz “cuidado com o olho!” Ainda bem que meu plano espiritual tem cobertura ótica e a santa protegeu. Ialorixás, babalorixás, truqueiros se revezavam em suas indumentárias e folhas de aroeiras dando passe à cinco reais. Em cima da pedra, olhando pras pétalas brancas e amarelas das rosas desmanchadas no mar, subitamente meu coração percebeu que aqueles milhares de balaios do cortejo eram uma reserva enorme de esperança. As oferendas que seguiriam nos barcos para a rainha do mar eram de agradecimento para a mais democrática dos orixás.
Yemanjá ,pra quem não sabe, seu mito reza que é a dona das cabeças, a mãe da diversidade, a responsável pelo único exemplar que somos de nós mesmos. Então, no coração, pulsou uma gratidão, um sentimento de filha que agradece à vida seus dons. Fiquei constrangida de pedir, visto que é festa de agradecer, pensei que sou cheia de graça, sei fazer tanta coisa, até cozinhar! Aí uma vontade de chorar assumiu de baixo pra cima diafragma, laringe, faringe, a garganta, toda a estrada inversa até a boca era um nó do rio de choro se formando em mim que ali empacou. Nisso, uma moça me dá dois tapinhas no ombro: Posso te dar um abraço? Não titubeei,aproveitei que não a conhecia, desembarquei em seus braços e ali derramei meu pranto. Por essa ela não esperava, e aquilo ,mais aumentava o sentimento de solidariedade,o poderoso e antibélico amor entre irmãos. Me debulhei. Sem economizar ,meu peito dava solavancos pra sair ,sabe Deus lá o quê, havia nele. Era alegria, emoção, mas havia também resíduos de guerras cotidianas, sobras das revoluções. Ela agüentou firme, acolheu meu jorro. Cinco minutos eternos depois desse estridente silêncio, só consegui falar ,como se tivesse cinco anos: é meu aniversário. Ela enxugou minhas lágrimas,disse que era cantora, que era minha fã, e me amava. Perguntei seu nome, era Amanda Dantas, um nome lindo que rimava . A festa é profana e sacra o show de hibridismo pode encontrar uma banca onde tem camisa de Yemanjá e de Michael Jackson, a gente fica sem saber quem é orixá ,quem é popstar. Quer dizer é tudo junto e misturado, é gente de biquíni, é gente incorporada. Talvez seja esta a mais inocente das macumbas, pois o mais descrente dos fiéis, ao menos uma florzinha no mar já jogou. Voltei na limpa manhã do dia seguinte com mais mimos nos braços e um homem se aproxima de mim: Aceita um barquinho, mainha? Era tudo que eu queria, pensei, um barquinho pequenininho de madeira, um brinquedo azul e branco aonde eu pudesse acomodar minha prendas. Deixa eu ver?O barqueiro então estendeu a mão para o mar, “É só escolher”.O homem falava era de barco de verdade, meus olhos letrados varreram a paisagem; Lorena, Deus guia, Me enganei, eram nomes dos barcos ancorados no azul.
No Lorena,Eduardo, o pescador, me levou então ao meio do mar pra saudar odoyá, visto que esse assunto e´mais cultural que religioso.Fixei que vale transitar no acaso, flexionar o pensamento para promover o inesperado ,que vai do chorar nos braços do desconhecido até ir parar sem planejar no meio do oceano com um homem que me ofereceu um barco que não pedi. Como hipérbole, falei cinqüenta e duas flexões porque é a minha idade de agora, mas para nos manter maleáveis, com o pensamento em dia , aconselho mesmo esses exercícios que aumentem a nossa extensão. O óbvio é bom mas há diversão fora dele. E tem mais, de tanto repetir as flexões elas se transformam em re -flexões.
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No quesito palavras, não poderei deixar de fora o mestre, o sinistro, o doce, o denso, e às vezes ensurdecedor, silêncio. Ô bichinho para falar, sô! Quem nunca sentiu o perigo que se anuncia no meio de uma conversa, como tapete vermelho de um segredo, ante-sala de uma revelação? E mais, quem conhece o silêncio? Existe, na categoria de absoluto? Uma vez fiquei, por sete dias, numa altura que nem tenho aritmética para contar, entre montanhas, na parte mais alta de um mosteiro em Ibiraçú, no meu lindo Espírito Santo, escrevendo uma série para crianças, chamada Amigo Oculto. O silêncio que me envolvia era muito animado. Fora a voz forte e muda das rochas, que, embora subjetiva, não deixa de ser voz por isso, se juntava a ela as MPB's dos passarinhos tropicais, os ventos em modalidades de quem viaja com passaporte vermelho de diplomata e, venham de onde vier, ninguém os detém; chuvas percussionistas com seus tambores de trovões e seus batuques nas folhas, somadas à toada de aplausos que os pingos costumam produzir. À noite, grilos, sapos, cobras - e até sacis - dentro da escuridão, garantiam a presença da hóspede dentro dos aposentos, habitando o planeta denso dos sons que moram nas cordilheiras. Um grupo que meditava na parte baixa do mosteiro me encontrou no sexto dia e uma moça me perguntou: "Você está aqui sozinha? Eu não aguentaria esse silêncio não, ele ia me matar!". Talvez ela tenha querido dizer que, num lugar desses, os nossos interiores, vendo a casa sem vigia, vêm para fora e se pode até ficar sem falar com os outros, mas a conversa não para. O assunto emerge derramado pra fora aproveitando a solidão, usando o som do mato sem a voz e o olhar do outro por perto. Tomemos especial reparo ao que chamam silêncio de praias desertas. Qual? O das intermitentes águas e vagas, com seus abdomens de altíssimo paredão que espocam na arrebentação pra virar branca espuma, o dos ventos assobiando nos lençóis arenosos. E o que é o silêncio das fazendas, tecidos de mugidos de boi e grunhidos de porcos, arrematados pela lâmina afinada das manhãs dos galos? Bem, está porto que a densidade sonora dele existe e atua. Mas, quando se ajeita no meio da comunicação entre os seres, aí este senhor se esbalda. Tanto é que há quem tenha medo de nele cair. Ou, às vezes, a gente sabe que, se deixar o silêncio ali entre os dois amantes, dois amigos ou dois inimigos, este danado a quem ninguém nada explicitamente perguntou, falará. E, mesmo não consultado, gritará. Está a serviço da verdade e dela se vale para, sem voz, entregar, testemunhar, confirmar o que nenhum dos dois ousara dizer. Quando se pergunta qualquer coisa, "você vai ou não vai viajar comigo?", "você abriu minha correspondência?". Ora, sabemos que se, antes de abrirmos a boca, fizermos uma pausa (pequeno intervalo fabricado com tecido silente), ela pode já significar a resposta, pode antecipá-la antes do som. Um "tu me amas" perguntado, que recebe de volta uns olhos cabisbaixos e lábios mudos pode querer acabar de vez e tristemente com a dúvida do perguntador. Como o silêncio, sem nada falar, tudo diz, vibra como enviado do que é e que ainda não foi dito. Reina nos lugares aonde palavras ludibriadoras tentam de todo meio e sorte encobri-lo, catá-lo. Logo a ele que tem o mesmo poder de ação de um verbo proferido. Particularmente, acho que silêncio cada um tem o seu. Uns são longos, chatos, vazios que dispersam o interlocutor. Outros, espertos, curiosos, inteligentes, dramáticos, surpreendentes e cômicos, resultam generosos na elucidação da narrativa. De minha parte, que dentro de tantos inquietos sossegos, escrevo, e deles tanto me valho no palco e na vida, dou meu troféu para aquela qualidade de silêncio que se faz presente no fim de uma conversa depois de uma palavra que, além de ofender, é injusta. Quando alguém, na maldade impensada das crueldades cotidianas, diz: "Você foi VIL", e você, ao invés de revidar logo, de se defender, de se estabanar para provar sua inocência, deixar apenas que o silêncio mova lentamente sua longa cauda, e, sob seu contraste, acentue e dê moldura à palavra VIL, esta ficará ecoando, cortante, dilacerante, protagonista como a última e infeliz palavra da mesa, a última carta do jogo da oralidade. O silêncio vira fundo para que a palavra e seus sentidos reverberem tanto, gemam tanto os seus intentos, de modo que, caso o dono dela a garanta, caso tenha sido realmente leviano, Dr. Silêncio, neste caso, é professor na artimanha de devolvê-la em efeito bumerangue ao seu dizedor, que fica perdido no lago do silêncio que o outro fez. A palavra volta para a boca de quem a proferiu, mas volta , às bofetadas, caramelada de caco de vidro e com o rabo entre as pernas de quem ficou sem ambiente. Há casos de o dono da palavra não ter outra saída, a não ser arrepender-se amargamente do que disse. Quando estamos corajosos, recolhemo-na a tempo e abrimos imediatamente nosso processo de pedido de perdão por termos errado, escolhido a má palavra. Quando estamos covardes, negamos tudo, até a autoria, no desespero encoberto pela cara de pau: "quem disse isso? Você está distorcendo. Eu não disse que você era vil, eu disse 'você viu'. Entendeu agora?". Inúteis os artifícios. Natural dublê da verdade, o silêncio é o discurso dos inocentes e sempre falará como o personagem mudo de texto mais contundente; aquele que, sem máscara ou forma, rouba a cena e talvez seja o mais eloquente que há. Acho que quero dizer que o silêncio, no tempo e no espaço, é o mais concreto dos abstratos.Marcadores: Crônicas
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Tenho meditado muito sobre o poder da palavra. A coisa é tão grandiosa e potente que até me sinto menor do que ela agora no momento em que dela me valho para descrevê-la com seus ornamentos e merecimentos no meu peito. Respeito-a como a parte mais concreta de uma subjetividade. Ao nomear e representar sentimentos presentes e coisas ausentes, desejos e intenções, a palavra adquiriu status de ação, por isso dizemos e pedimos: "Você me perdoa? Quero ouvir você dizer". Por isso uma oração pode ferir, matar, ofender, condenar, perjurar. O meu tesão por ela vem de muito tempo, quando na infância que meus pais trataram de fazer habitada por música popular, livros e quintais, eu lia "Emília no país da gramática", de Monteiro Lobato, não havia quem me tirasse da cabeça (intimamente, porque isso eu não confessava), que Emília era eu; nem precisava começar com E também, mas começava. Enquanto isso, meu pai nos educava com seu refinado bom humor cotidiano, como se brincasse. Se eu entrasse em casa esbaforida dizendo: "Ai, mãe! Quando está quente aqui eu sôo". Meu pai, de onde ouvisse, retrucava, imlacável e divertido, embora sério: "Realmente eu escutei, e soa alto, hein!? Blém, blém, blém." E ainda completava: "O sino é que sua em cima da igreja, não é, minha filha?" Não sei porque, mas aquela didática deixava tão claro que era ao contrário que eu nunca mais errava. Muito cedo percebi que as palavras produziam imagens, mundos, viagens. Como estudava declamação desde os 11 anos, cresci reconhecendo as palavras como paisagens, comunidades, verdade simbólica da convivência humana. O amor pela minha língua pátria, mãe do meu pensamento, organizadora do meu discurso, tradutora de minha identidade, explicadora de meus processos, me pegou de jeito tal, que amei até análise sintática! Entendi, como até hoje entendo, o sujeito como senhor da oração, o verbo como senhor da ação, os adjetivos dando qualidade a tudo, os substantivos concretos e abstratos, fazendo as coisas terem consistência; as conjunções, como neurônios, dando liga e posição circunstancial de sentido a cada oração, das subordinadas às principais. Estudar português era realmente uma festa para mim. Se chovia, o que meus olhos de menina viam naquele céu cinza era o acontecimento chique de uma oração sem sujeito. A pontuação era, com até hoje é, para mim um capítulo à parte. Quem diz um poema ou quem lê alguma coisa para que o outro escute, deve entender a pontuação como sinais de trânsito da estrada literária. O dizedor está levando o outro pela mão. A segurança da viagem está garantida por esses símbolos; eles nos levam a respirar brevemente nas vírgulas, a dar a partida demonstrativa dos dois pontos, a reservar informações no sussurro dos parênteses, a entoar a música das perguntas nas interrogações. Uma pontuação divorciada do caminho daquele rio de palavras, da história que ali dentro corre, pode inviabilizar a viagem; quem escuta não entende, não vê a película do filme mediato que a palavra bem dita provoca na imaginação. Portanto, guardo a certeza de que falta ao brasileiro, principalmente em idade escolar, um ensino de nossa língua apaixonado por ela. Sei que isso faz a diferença, porque "quem tem boca vai a Roma" só por causa do que sabe e pode dizer. É seu estoque verbal e a organização dele flúida e firme que funciona entre humanos, do planeta inteiro, como chave. Abre portas, salva, desconcerta, inquire, prova. Na mão dela me agarro e dela me cubro para cruzar os salões do mundo diversificado que frequento. Nesse verão, a cena que ilustra o fat foi sob o sol de Ipanema, domingo de praia lotada, e um homem com uma onda muito esquisita se aproximou de mim dizendo que me conhecia, como quem quisesse pegar meu celular, mas fingindo que estava me dando a mão. Nunca sofri um assalto, mas , ainda que aquilo não fosse uma possível tentativa, o astral de toda suspeita mise en cène fez minha intuição gritar. Pedi que ele saísse do meu lado, que eu não o conhecia nem estava interessada, gostaria que ele se afastasse. Ele disse que não, e com o olhar de quem nunca tinha me visto, afirmou: "Te conheço!". Vocês sabem, os olhos também falam, e os dele diziam outra coisa. Nesse momento tive uma ideia, olhei para além dele, como se mirasse alguém a uma certa distância atrás do meu antagonista, e fiz um sinal como quem diz "me aguarde", com a palma da mão. Voltei os olhos para dentro do dele e disse, sem duvidar de nenhuma palavra saída de minha boca: "Meu marido já te viu e eu te peço, não por você, por mim, vai embora sem olhar pra trás". Sem tirar seu olhar do meu, seus ombros perderam a empáfia, houve um certo quebranto nas pernas da agressividade dele, que, ato contínuo, se rendeu ainda tentando negar: "Não acredito em você não, mas vou me retirar". Pois hoje meu tributo é a esta bandeira. Que a palavra circule viva, nas salas da aula brasileiras, para que possa ser, realmente, a mãe, o porto seguro, a provedora de glórias, a que dá luz e mais que isso, esclarecimento a uma Nação inteira.Marcadores: Crônicas
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Quem me conhece sabe que não é do meu feitio batizar em outra língua uma publicação brasileira. Mas o título exerce dominação no meu peito esta semana em que fui mestre de cerimônia nos jardins do Palácio Guanabara, repleto com suas habituais autoridades de cidadãos que raramente frequentam estes ares. Era lançamento nacional do programa Plataforma dos Centros Urbanos, uma iniciativa iluminada do Unicef, que viabiliza ações de desenvolvimento integral dos indivíduos nas cidades, a partir do olhar desta galera. São eles os GAL's (Grupos Articuladores Locais), compostos de jovens que entrevistam, pesquisam em sua vulnerável comunidade e conduzem a realização de prioridades e demandas de sua aldeia, digamos assim. Era também nesta tarde a posse de Lázaro Ramos, ator baiano, como embaixador do Unicef. Pois quando Marie Pierre, diretora do Unicef, me deu a palavra para que eu o homenageasse, a reflexão que tomou o proscênio de meu afeto foi a seguinte: no momento em que o mundo se despede precocemente de seu ídolo pop negro mais polêmico e criativo, este fato ganha novos recortes. Michael foi um menino abusado, explorado, castigado e mal criado pelo pai, com a passiva e, não menos cruel, cumplicidade da mãe. E o pior, não só a sua aldeia, mas estas torpes histórias o mundo todo comentava. Um gênio maravilhoso, cuja infância foi roubada e cujo talento em vida sustentou aquela cambada, aquela mórbida e fria família, cujos olhos já brilham com os lucros da morte de seu gênio mais valiosíssimo. Um menino que ensinou ao mundo os passos da lua e era chamado de macaco pelo pai monstro com cara de cafetão escroto; morreu inseguro, infeliz, esfacelado nos trapos da palavra identidade, desfigurado, retalhado na face, frágil, doente, anoréxico e esbranquiçado, depois de ter sido o primeiro a, com sua música pioneira e única, unir as vozes brancas e negras na América e fora dela. O mundo testemunhou a tragédia de um mártir que inscreveu no corpo, na cara, nas bizarras atitudes no patético castelo de horrores da terra do nunca, as contradições, as injustiças, o racismo e a crueldade de uma nação chamada de primeiro mundo e de uma civilização omissa e equivocada. Esta morte pode ser um alerta. O menino violentado ainda pequeno, afanado em seu direito de ser criança, não cresceu e, o que nele cresceu, não gostou do que viu. A dependência crônica dos analgésicos grita nos nossos ouvidos, como lhe doía viver. Mas me pergunto por que um milionário que foi sacaneado na infância e impedido de se construir fora dos palcos, uma vez que a base de seus casamentos e relações pessoais pareciam seguir as leis da ficção, porque este homem rico de grana e tão comprometido psicológica e emocionalmente, morreu sem tratamento? Ser um homem de cinquenta anos, cheio de Mickey e Peterpan pelas paredes de seu quarto, criar aquela face indescritível de batom sob um nariz sem cartilagem e sob olhos infantis muito tristes não era bizarro, era loucura. Ele estava dodói e poderia, com uma boa terapia e tratamento psiquiátrico, ter tido um outro destino onde seu talento pudesse realizar o mundo e a ele mesmo ainda mais, onde ele pudesse se libertar de vez daquele demônio paterno.
Meu Deus, e agora estava eu ali, diante de Lázaro, aquele brasileiro negro lindo, talentosíssimo, coerente em suas ações como artista, cidadão, solidário, antenado com suas responsabilidades neste mundão segregacionista, idealizador e apresentador de um programa chamado "Espelho", e que por isso mesmo dispensa explicações, egresso de um dos bairros pobres de Salvador, mas que dentro de toda a pobreza foi criado como menino seguro, forte, amado pelos pais, ancorados no amor por si e pelos seus. Ouvi o discurso simples de jovem embaixador, sua brilhante inteligência sob cabelos muito bons e crespos, um sorriso luminoso e delicioso, com aquela mesma cara ensolarada do primeiro Michael, o menino de ouro do Jackson Five, de nariz largo, voz linda, cheio de sonhos cantando I'll be there.
Lázaro foi emblemático pra mim nesta tarde de uma cerimônia patrocinada por uma instituição cujo foco, cuja mola mestra é a infância. Meus senhores, não há futuro possível sem uma infância e adolescência cuidadas. É uma conta que, geralmente, desanda. Ainda tem muito menino preto que cresce achando que só pode lhe sobrar ser "Thriller" e "Bad", ser preto e mau. O tema é amplo, toda criança, de qualquer tom ou origem social, merece uma opção de vida cidadã. Então, ao mesmo tempo em que meu coração chorava em luto por quem foi talvez a mais triste e genial criança americana, uma forte luz vinha daquela tarde representada em Lázaro, como a me dizer que novos tempos se anunciam. No momento em que a crise do mundo quebra as pernas da arrogância da razão, novas plataformas mais emocionais, mais humanas, mais responsáveis, surgem para dar a mão e novas saídas para o menino mundo; o que sempre é e sempre será feito de ex-crianças, de crianças que cresceram. Uma criança que não tem a infância roubada, pode envelhecer e, sem enlouquecer, viver pra sempre.Marcadores: Coluna
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