<?xml version='1.0' encoding='windows-1252'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-2276129259864333499</id><updated>2010-04-29T14:53:02.365-03:00</updated><title type='text'>Devota do Cotidiano</title><subtitle type='html'>Este é o blog oficial da atriz e poeta Elisa Lucinda. Seja bem-vindo!</subtitle><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2276129259864333499/posts/default'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.escolalucinda.com.br/blog/index.htm'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://www.escolalucinda.com.br/blog/atom.xml'/><author><name>David Lima</name><email>noreply@blogger.com</email></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>17</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>25</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2276129259864333499.post-2060904753986693540</id><published>2010-04-28T17:27:00.002-03:00</published><updated>2010-04-28T17:42:07.490-03:00</updated><title type='text'>Eu sou neguinha!</title><content type='html'>24 de dezembro, eu no mercadinho que tem em Botafogo, no Rio de Janeiro, acompanhada de uma sobrinha de nove anos, quando sinalizei um táxi que parou. Era um senhor de uns sessenta e cinco anos. Reproduzirei aqui e na íntegra nosso diálogo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Boa tarde, o senhor poderia abrir a mala para que eu possa por as compras? &lt;br /&gt;- Vai pra onde?&lt;br /&gt;- Por quê?&lt;br /&gt;- No morro eu não vou, no morro eu não levo. É no morro?&lt;br /&gt;- Não, é no Recreio.&lt;br /&gt;- No Recreio eu levo.&lt;br /&gt;- Mas eu não vou com o senhor. Não ando com preconceituoso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Claro que dói saber que essa cena ainda cabe num Brasil recente, no Brasil de agora. Na hora fiquei estarrecida, quase imobilizada. Só depois, refletindo sobre o fato, é que percebi a escrotidão da cena e me arrependi de não ter tido a iniciativa imediata de anotar a placa e dar um susto de civilidade naquele cidadão. Observei a sua falta de constrangimento, sua cara-de-pau, seu desplante, a inabalável certeza de que ser neguinha certamente só podia significar morar no morro e por isso merecer seu profundo desprezo. Um desprezo quase lícito para ele, justificado, e eu sabia com certeza que se eu fosse loira ele não teria arriscado com tanta folga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esse senhor não era racista exatamente, era folgado, espalhado ,excedendo ao preconceito. Me fixei no desdém, na &lt;span style="font-style:italic;"&gt;descidadania  &lt;/span&gt;que é oferecida  aos que moram nas favelas, e pagam a mesma bandeirada, o mesmo preço com o dinheiro da mesma cor do dos brancos ou que os misturados que escapam do preconceitpo por um olhar mais desatento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Atordoada ainda, peguei logo atrás outro carro e contei a história. Esse motorista então disse: “É, mas o pior é que elas “mente”: elas “fala” que vai para a Barão de Petrópolis, chega lá e é bem no Morro do Querozene”.Eu disse: então, meu senhor, se o senhor morasse lá, onde não há super mercados nem &lt;span style="font-style:italic;"&gt;delivery &lt;/span&gt;de pizza ou de farmácia, o senhor também mentiria para ter assegurado o seu direito de ir levar comida ou remédio para seu filho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele tentou discordar mas não tinha argumentos. Estava claro que não era justo assim. Sei dos perigos por que passam estes taxistas, é claro, nas comunidades ainda não pacificadas. Às vezes se vêem obrigados a transportar bandidos mortos no porta malas e outras loucuras da ficção que só costumam habitar os filmes de guerra e ação. Mas o próprios moradores sabem como a barra está e existe um certo respeito e uma certa tolerância da própria bandidagem por estes serviços que a população precisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem, escrevo isso, sabedora de que temos que legislar os ser humano ainda. Que triste! Mas se não o fizermos ele mata, fere, ofende. Levianiza, calunia, estupra, rouba e mata. E, pasmem todos,para tanto, não há classe social definida nem alguma que se salve.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Soube outro que vou lhes contar, por Jorge, meu taxista amado que em breve merecerá uma crônica só pra ele aqui: Que um alto executivo de uma multinacional, morador do alto jardim botânico, que é morro chique igual ao meu na Lagoa, foi flagrado pela mulher  esfregando seu pênis ereto na filha de dois anos. Com seu dinheiro e poder conseguiu abafar o caso,  a mulher se separou dele  e a justiça exigiu que a avó a patrtir daí acompanhasse a visita do agressor à filhinha, sempre. Mas eu acho que ele deveria perder o pátrio poder já que feriu o cerne de sua função paterna que é certamente a de proteger sua filhinha, seu bem maior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sei de espaços chiques, salões de beleza freqüentados pela alta sociedade, em que  é necessário colar nas prateleiras os produtos expostos porque pessoas ricas roubam também. E são geralmente chamadas de cleptomaniácas porque não estão no quesito necessidade. Quero dizer que me assusta o fato  de termos que proibir que avancem sinal quando é a hora de gente atravessar, que  mostrem a notinha da compra ou do consumo para que não se saia do recinto sem pagar, que vigiem nossos pertences na praia enquanto vamos mergulhar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então o que está acontecendo?  Não evoluímos  nesta seara do respeito ao outro? Precisamos ainda ser coibidos, vigiados senão fazemos loucuras? Que bicho é este o homem, que em plena nova era, bate em mulher, estupra criancinha, violenta moças nos matagais, mata esposa, filho mãe e pai? Quem é este homem que ainda se julga maior do que outro porque é branco, é rico, porque  que tem amigos no poder e por isso proteção na impunidade? Quem é este homem do Brasil e do mundo de hoje que ofende seus iguais, discrimina e repudia homossexuais e outra diferenças normais no grande caldeirão híbrido da humanidade? Quem é este homem que rouba o dinheiro do povo na cara de todos  e mesmo assim  se alardeia inocente, consegue advogados de prestígio que tentarão provar a todos que a verdade flagrada não é verdadeira?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo isso, meus amigos, ainda acredito, só muito lentamente mudará. Eu vacilei em não ter anotado a placa do infeliz racista do meu episódio e a esta hora  aplicar-lhe um corretivo, um processo ,uma pena que o fizesse melhorar e ou reparar de algum modo o seu erro, sua ofensa à mim e a minha sobrinha naquela noite de natal. Mas não o fiz. Fiquei assustada, custei  a entender. Porque toda vez que dou de cara, nestes modernos virtuais tempos, com um agressor insano assim, seja ele corrupto, pedófilo, assassino, ladrão, fascista, enfim, um monstro humano, com a fera escondida  mostrando as garras sem pensamento que o detenha. Tremo. E sou obrigada a citar meu Gilberto Gil, tempo ó tempo rei ó tempo rei, transformai as velhas formas de viver, me ensinai, ó pai, o que eu ainda não sei.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2276129259864333499-2060904753986693540?l=www.escolalucinda.com.br%2Fblog%2Findex.htm' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2276129259864333499/2060904753986693540/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=2276129259864333499&amp;postID=2060904753986693540&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2276129259864333499/posts/default/2060904753986693540'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2276129259864333499/posts/default/2060904753986693540'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.escolalucinda.com.br/blog/2010/04/eu-sou-neguinha.html' title='Eu sou neguinha!'/><author><name>David Lima</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='01665286080860480252'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2276129259864333499.post-6614354482382859836</id><published>2010-04-22T09:48:00.002-03:00</published><updated>2010-04-22T09:55:19.988-03:00</updated><title type='text'>Vinde as minhas criancinhas</title><content type='html'>Quem me conhece sabe: a segurança, o respeito, a crueldade, as humilhações, os abusos, a violência contra crianças é  tema de plantão no meu coração. Está nos meus escritos, poemas, entrevistas, cenas teatrais me confirmarão. Como são inocentes, menores em tamanho e nos devem obediência pela nossa condição de pais, parentes, padrinhos, professores e outras espécies de adultos, estão também expostos aos nossos bizarros delitos. Logo elas que amanhã serão os dirigentes das nações ou que, de alguma maneira irão servi-las. Quero dizer que as guerras são decididas por ex-crianças e as bandeiras  pacificadoras são também estendidas por outras tantas meninas e meninos deste mundo. E quando o assunto é criança como vítima, não me interessa o gabarito do agressor. Se tinha algum, acaba de perdê-lo quando atentou contra uma criança. O mundo é muito perverso em todas as modalidades e , principalmente nas sociedades onde a corrupção respira com facilidade, há uma versão chique para o mesmo crime, dependendo da classe social.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então um ladrão que fez curso superior ou que é detentor de regalias parlamentares, tem um tratamento diferenciado em relação ao ladrão que não estudou e que literalmente não tem aonde cair morto. Não gosto disso. Isso parece uma injustiça flagrante ou no mínimo uma justiça suspeita. Há cadeias-hotéis e há cadeias-coquetéis de formação bélica feitas de munição humana. Está na cara que tudo isto está muito errado e enquanto não tivermos programas de reconstrução de cidadania e educação dentro dos presídios seremos sempre grandes cultivadores de ratos humanos em cativeiros, que também geram seus filhotes. Então a sociedade não pode mais fechar os olhos para o que vem molestando há séculos as crianças do mundo e muito menos continuar indiferente a seus focos correntes de ocorrência. Não é segredo pra ninguém, por exemplo ,que o silêncio cobriu vários fatos de abusos sexuais envolvendo religiosos e crianças. Todos que estudaram em colégios de freira ou de padre, já ouviram uma história destas ou  têm alguma história desta para não contar. Chega deste papo que não se pode falar da igreja, questionar a igreja, porque impunidade é uma palavra que não cai bem em nenhum lugar muito menos num reino onde o rei é Deus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que é de uma fé que não suporta questionamentos e contradições? Vamos lá, que a igreja se renove, que o Papa confesse e que sua atitude não signifique para os outros um mau exemplo, garantindo que depois de pecar, um bom perdão do Vaticano limpará a mancha, neutralizará o ato e seus sórdidos efeitos. Que se inicie aí um novo tempo, quem sabe entre na pauta católica a questão do celibato. Talvez ela devesse ser reconsiderada, uma vez que cada vez mais está provado que uma alma teológica e uma vocação cristã não precisam se divorciar de sua condição de amantes, dom comum a todos os filhos de Deus. Fui batizada na igreja católica, fiz primeira comunhão e tudo e acreditei no vinde a minhas criancinhas, conheço ótimos e inteligentes freis, bispos e outras autoridades religiosas de muito boa sepa, mas por isso mesmo ,penso que um padre que molesta, abusa sexualmente de duzentos meninos surdos não precisa de diabo. Se eu fosse diabo acharia que teria alguém querendo tomar meu posto. Claro que foi um absurdo sem tamanho o Vaticano ter encoberto esta sujeira, esta maldade operada com requintes de crueldade psicológica e outras torturas que costumam assombrar as crianças quando o agressor está no cargo de zelador, é o representante do bem, ao qual confiamos nossa criatura. É claro que o pequeno não entende, nem sabe se é certo aquela tortura realizada pela face do bem, mas a situação ganha tintura de ficção quando estas crianças, por serem deficientes auditivas, não dispõem de palavras para denunciar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É hora de isso acabar. É preciso mais saúde nos mistérios religiosos, nos segredos familiares. Ninguém está de má vontade com a igreja, estamos  é de boa vontade com a criança. Estamos clamando aos homens de boa vontade que se ergam contra isso. Descubro que em todos tipos de crime, há o que vou chamar de crime branco, ou seja, tem pedófilo de colarinho branco. Poucas vezes se vê no jornal uma notícia de estupro, de violência sexual de atentado ao pudor de um pai rico contra seu fruto. Mas ocorrem, os divãs estão cheios de pessoas que não conseguem esquecer a sombra paterna ou coisa que o valha, bolinando sua infância. Ninguém sabe o que  se passa com os filhos dos ricos porque o dinheiro e o prestígio abafam o caso, evitam a pública vergonha. Já os tarados pobres, estão aí desdentados, televisionados, expostos  sem diagnóstico e sem medicação. Vamos evoluir, humanidade, já sabemos tantas coisas e entre elas que, via de regra ,a pequena vítima é o agressor de amanhã. Então vamos parar de produzir tamanha doença, vamos causar outro destino, outro ciclo, outro ser. O futuro está sendo feito agora, por nós, pais, parentes, religiosos, amigos, educadores. Todos nós, que aqui estamos hoje, fomos crianças que crescemos. Os pedófilos também.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2276129259864333499-6614354482382859836?l=www.escolalucinda.com.br%2Fblog%2Findex.htm' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2276129259864333499/6614354482382859836/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=2276129259864333499&amp;postID=6614354482382859836&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2276129259864333499/posts/default/6614354482382859836'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2276129259864333499/posts/default/6614354482382859836'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.escolalucinda.com.br/blog/2010/04/vinde-as-minhas-criancinhas.html' title='Vinde as minhas criancinhas'/><author><name>David Lima</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='01665286080860480252'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2276129259864333499.post-6318601710944899154</id><published>2010-04-18T20:06:00.002-03:00</published><updated>2010-04-18T20:07:55.067-03:00</updated><title type='text'>Twitter!</title><content type='html'>Eu quase ia esquecendo da boa nova: estou no Twitter! Para seguir meus pensamentos, vá em &lt;a href="http://www.twitter.com/lucindaelisa"&gt;@lucindaelisa&lt;/a&gt; Estou esperando vocês lá!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2276129259864333499-6318601710944899154?l=www.escolalucinda.com.br%2Fblog%2Findex.htm' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2276129259864333499/6318601710944899154/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=2276129259864333499&amp;postID=6318601710944899154&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2276129259864333499/posts/default/6318601710944899154'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2276129259864333499/posts/default/6318601710944899154'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.escolalucinda.com.br/blog/2010/04/twitter.html' title='Twitter!'/><author><name>David Lima</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='01665286080860480252'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2276129259864333499.post-6405085762279013681</id><published>2010-04-13T20:08:00.002-03:00</published><updated>2010-04-13T21:12:14.632-03:00</updated><title type='text'>Mamãe não chore</title><content type='html'>Como legítima representante dos sonhos de muita gente, como capital cultural do país, a carismática , vulgo maravilhosa, é muito querida no coração do meu Brasil. O Rio de Janeiro é um espécie de unanimidade, uma bandeira,uma espécie de Mangueira, uma estação primeira que faz essa cidade conhecida da terra inteira. Como se fosse uma pessoa que tem parentes em toda parte, todo mundo não para de ligar, o que é que houve, o que é  que há? Estamos numa catástrofe. O céu ficou escuro e eu, vinda de Itaúnas, desembarquei segunda numa terra carioca sinistra. Passei horas na fila do táxi, mais um transtorno de tempo e alagamentos para chegar em casa; alguns taxistas, transformados em demônios, aumentando o preço da corrida  na altura do nosso desespero. São os ratos da ocasião, os urubus humanos brindando a carniça da tragédia, se refestelando na dor alheia. Consegui chegar em casa à meia noite  em  ruas sem luzes, sob ventos furiosos, árvores caídas em todos os lugares, quintais de ricos e pobres desabados. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lixos entupiram os bueiros ,as folhas secas de outono obstruíram o ralo do jardim de minha varanda e inundou  meu quarto. Meu parceiro musical, Marcos Lima, grande cantor e compositor, morador de Niterói , a rainha da qualidade de vida,  me ligou apavorado: a casinha linda dele e de sua amada que não está em encosta nenhuma, começa a rachar, súbita  e  simultaneamente  em todas as paredes.Ele pegou o violão, o computador e outros bens que pode ; está abrigado na casa da sogra, mas isso não é nada. Muito pior são os mortos, as crianças, as famílias inteiras soterradas na avalanche de terra que bombardeou o morro do Bumba. Lugar que já foi área nobre, hóspede de uma generosa floresta tropical, hoje, atende pelo nome de área de risco e  nada de arvores;  só feito de gás e lixo é o desfundamento de seu solo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É verdade que os prefeitos do Rio e de Niterói estão sem dormir, roucos de dar entrevistas e o governador está ligado em tudo. Não é como em outras vezes em  que ficamos sozinhos na catástrofe, órfãos de nossos responsáveis, dos que são por nós pagos para cuidar da ordem pública.Justiça seja feita, eles não fugiram à luta. Mas o que me intriga é a perversão da falta de prevenção. Ora, uma  área de risco só atende por esse nome para chamar as providencias e enquanto o perigo não acontece. Depois disso, seu nome é tragédia! Casas assentadas sobre o lixo, na cara de todo mundo, com centenas de famílias que, por não terem aonde morar, se ajeitam aonde dá. Então, antes, a defesa civil não viu? O que é feito do dinheiro destinado à prevenção? À  contenção de encostas? Não há transparência na divisão dessas porcentagens entre os Estados.  Mas para isso servem os impostos .  São uma espécie de vaquinha para evitar a desintegridade nacional. Agora, aparecem bilhões em paliativos, mesmo sabendo que prevenir é mais humano e mais barato; mesmo sabendo que a ocupação urbana desordenada é suicídio e, com a irresponsável liberação de gabaritos, há também no Brasil muita ocupação irregular da população de alta renda. Não é mais ignorância! Vivemos num tempo em que sabemos da necessidade de aterros sanitários  legalizados,que canalizem esses gases para a produção de energia e não criem bolsões que geram novos componentes químicos cancerígenos, letais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O solo de lixo não tem consolidação. Sabemos disto e  mesmo assim, hoje,  vinte anos de entulho  soterraram duzentas pessoas. De qualquer modo, ainda que não se queira acreditar, ateus ou não, a impressão é  que , de algum lugar, Nostradamus não cessa de nos olhar. Terremotos, enchentes, furacões, esses desastres são naturais? Desastroso é o homem, homicida, sádica e suicida é a sua ocupação. Apesar de vizinhos e bombeiros heróis, apesar  de  nossa comovente  ação solidária,  ainda somos uns  ingratos filhos da terra. Será que ainda não estamos vendo o planeta sofrer e acabar?  Pelo volume de águas podemos concluir em coro: mamãe natureza esta tendo uma grave, profunda e magoada crise de choro.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2276129259864333499-6405085762279013681?l=www.escolalucinda.com.br%2Fblog%2Findex.htm' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2276129259864333499/6405085762279013681/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=2276129259864333499&amp;postID=6405085762279013681&amp;isPopup=true' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2276129259864333499/posts/default/6405085762279013681'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2276129259864333499/posts/default/6405085762279013681'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.escolalucinda.com.br/blog/2010/04/mamae-nao-chore.html' title='Mamãe não chore'/><author><name>David Lima</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='01665286080860480252'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2276129259864333499.post-8220413399530619134</id><published>2010-03-18T22:52:00.001-03:00</published><updated>2010-03-18T22:53:58.888-03:00</updated><title type='text'>Infância Roubada</title><content type='html'>Há algumas meninas sinistras: são as próprias mães em miniatura, de escova, maquiagem, salto alto, quando não chegam ao exagero de depilação precoce e botox. Tudo, na maioria das vezes, gerenciado e patrocinado pela inocência dos adultos. Digo inocência porque não quero vilanizar os pais. Na maioria das vezes achamos tudo muito bonitinho, mas temos que ser sabedores de que somos produtores da qualidade daquelas infâncias, e que estamos construindo a base daquelas vidas. Portanto fiquemos de olho em nós, educadores. Do mais simples ao mais grave, todo o nosso comportamento estará formando caráter, personalidade, pessoa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por exemplo, se para qualquer um já é difícil ser si mesmo, imagine sendo gêmeos com os pais insistindo em vesti-los com a mesma roupa? Adorarem que os confundam, que até na família não se saiba quem é quem? Tudo isso depois pode acabar num divã, se tiverem sorte. Em verdade , muito do que consideramos  o" bem” dos filhos muitas vezes não o é. Tem a ver com nosso caprichos, nossas  verdades e  ou distorções vividas no tempo em que e éramos pequenos. É bom ficarmos alertas  também em relação ao valor do dinheiro e ao valor da vida. Se a gente ensina, e muito cedo  para uma criança que o dinheiro é tudo, fica muito difícil desconstruir isto depois.  Por isso desaconselho  uma educação que associe  cada vitória   do filho a um valor em dinheiro ou a um bem material. Ora, quem passa de uma ano para o outro, ganhou mais um degrau na escala do seu estudo, quem  tira boas notas ganhou   o reconhecimento do seu saber, quem entra numa faculdade ganhou a faculdade. Quero dizer que a conquista pode ser reconhecida com tal. Já é conquista em si, não precisa de uma bicicleta , um carro , uma grana pára confirmá-la. Que se presenteie  os nossos herdeirozinhos com o que quisermos  e à hora que bem entendermos, mas  é preciso que ensinemo-los  o gosto da realização  onde o dinheiro não seja o motivo da glória. O engraçado é que depois ,a mesma sociedade se espanta  quando um jovem  é capaz de vender a mãe ou o pai, quando ela mesma foi quem ensinou  a este ser , desde novinho, que o dinheiro era  coisa mais importante do mundo. Não é, por isso é melhor ser do que ter.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No mesmo olhar, observo a erotização dos pequenos pela mídia e, principalmente, pelos pais. É chocante! Outro dia visitei uma amiga: “Esse é meu netinho, quer ver o luluzinho dele, Elisa? Mostra, meu amor, a ela?” Enquanto falava, a avó pegava nas partes do menino; este, constrangido, no auge dos seus seis anos de idade, me olha desamparado por dentro. “Não quero ver não, Fátima, vim aqui pra ver você”.O neto pôs as mãozinhas em prece, me agradeceu com este gesto e saiu correndo livre para brincar. Eu disse para ela: “Não invada assim uma criança!” “O que é que tem? É brincadeirinha.” “E se fosse um avô bolinando uma menina? Aí seria abuso?”, retruquei. Minha amiga fez uma cara de quem nunca tinha refletido sobre isso e me agradeceu o esclarecimento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Atenção pais, parentes e adultos próximos: beijar, tocar, estimular a intimidade sexual, de modo a excitar, não é coisa pra se fazer com quem não tem essa atividade e nem dela pode dar conta ainda.Sei que nenhum responsável  quer conscientemente o mal para seus frutos, por isso escrevo este alerta. Sei que essas atitudes  são feitas sem pensar e sem querer. Na maioria das vezes queremos acertar, estar dentro do nosso tempo e  sua moda. Mas a mais inocente criatura, quando se torna criadora, deve produzir uma preservação saudável e não perversa da infância de sua prole. Precisamos garantir  este tempo para nossos filhos. Uma menina que faz cutícula com oito anos, quando estiver com doze será como se já fosse mulher há muito tempo, estará quase cansada de sê-lo , talvez. E depois, quem vai devolver a ela seu pedaço de infância roubado?Crianças estão sendo tornadas adultas cedo demais, como no tempo dos  pequenos imperadores, que pingos de gente ainda, já eram coroados reis aos cinco anos. Os adultos estão apressando as coisas .Quando um menino  ou uma menina começa a gostar  e a conhecer   um amiguinho novo, sem ainda saber o nome daquele sentimento, sem ainda intencionar classificá -lo ,os pais já sentenciam: “Estão  namorando!”.Já vi isso acontecer com  criancinhas de fralda ainda, que mal sabem falar , recebendo  o rótulo de uma vida adulta  sobre seu inocente gesto ainda sem nome.Criança não namora, a não ser que esteja sendo obrigada a adultecer antes da hora.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2276129259864333499-8220413399530619134?l=www.escolalucinda.com.br%2Fblog%2Findex.htm' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2276129259864333499/8220413399530619134/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=2276129259864333499&amp;postID=8220413399530619134&amp;isPopup=true' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2276129259864333499/posts/default/8220413399530619134'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2276129259864333499/posts/default/8220413399530619134'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.escolalucinda.com.br/blog/2010/03/infancia-roubada.html' title='Infância Roubada'/><author><name>David Lima</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='01665286080860480252'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2276129259864333499.post-5031297097577607195</id><published>2010-03-04T21:40:00.000-03:00</published><updated>2010-03-04T21:41:04.274-03:00</updated><title type='text'>Mestra Coralina do baralho bom</title><content type='html'>Um professor é muito importante na vida de um ser humano. É a única profissão que a gente chama sempre de mestre porque é a que ensina todos os outros ofícios. Na exposição que vi no museu da língua, em São Paulo,  sobre a vida de Cora Coralina, fiquei horas em pé vendo um vídeo dela. Já bem velhinha com seus noventa e poucos anos e uma aguçada lucidez, ela nos conta com muita clareza que foi uma menina muito pobre e com sérias dificuldades de aprendizagem, mas cujas possibilidades uma professora antevira, mudando assim seu destino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta goiana, escritora, maravilhosa, quando menina recebeu o olhar atento e a instrução de uma mestra que, ao avistar seus limites, decidiu em escola pública, dedicar-se meia hora depois do horário a esta frágil aluna. Sei, que a despeito de toda natural sensibilidade da especial e natural inteligência dessa menina, a ação amorosa e de excelência profissional desta professora foi quem regou aquele fértil jardinzinho, foi a professora Silvina que deu partida àquele coração tão prenhe de poesia. Munida de palavras e outras informações letivas, Coralininha abriu cada vez mais portas para sua sabedoria reinar. A exposição é cheia de versos lindos, sábios, vividos expostos nos escritos pelos emocionantes cadernos brotados dos seus céus e dos seus infernos. Alguns, ó poesia infinita de tudo, bordados em pontos de cruz em marcas sobre os linhos, paninhos de prato no coração de algodão da gente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei mesmo impactada como vos relato aqui, pois, ao ouvir a aula de vida dessa hoje senhora eterna Cora Coralina, ao ouvir lições que clareiam toda vida, me sinto beijada no centro de minha emoção. Há uma parte em que ela fala que hoje ,do alto da sua lira dos noventa e tais anos, pode afirmar que a melhor idade são os cinqüenta anos e vai nos explicando como uma dedicada professora, como e porque. Vou tentar contar com as minhas palavras o que eu acho que ela diz com as dela. Que algumas evidencias, por tanto se exibirem em nossas cenas diárias, nessa idade, já podem ser logo reconhecidas como certezas, atingiram a substância desse nome. _Oha lá aquilo é uma certeza , eu tenho certeza, pensamos. Nessa, teoricamente falando, metade da vida, algumas ingenuidades não fazem mais tanto sucesso e vão caçar outro bobo. Ao redor essa hora, já temos maior visibilidade da viagem, caímos com menos facilidade, ou ainda facilmente despencamos, mas nos levantamos com extrema rapidez e maestria, diferente dos abismos do começo da viagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os mesmos erros nos enganam menos, e o que foi uma vez chama não se apaga mais; transmuta-se.Tudo isso dizia na aula, na aula dela que assisti de pé no museu e prossegue, alada de uma segurança impressionante a mestra rainha vai esclarecendo seus mistérios e distribuindo-nos seus preciosos achados, uma coisa gostosa como uma merenda escolar de tarde. Me comove. Diz que uma vez embarcados, nesta teoricamente metade  de nossa vida, nosso olhar já alcança a extensão dos mares avançados, já dá pra ver o estampado do tabuleiro. E aí é que Dona Cora Coralina vem bombástica: agora tem uma coisa, os cinqüenta anos segundo suas agudas observações, duram vinte e cinco anos, você leva vinte e cinco anos tendo cinqüenta anos, ou seja, vai até os setenta e cinco exatamente a idade em que publiquei meu primeiro livro, afirma Coralinda. Achei muito fundamental a lição, e então apurei melhor o ouvido, estiquei mais o tecido, abri o pensamento dela para ver dentro os detalhes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De súbito, realizei que,  se entendi bem essa é hora de pegarmos o “morto” como no jogo do buraco. Nossas jogadas estão encaminhadas e as cartas dispostas à mesa. Várias jogadas começadas, armadas, faltando apenas o Ais de uma, o Sete de outra, um valetezinho que chegue já resolve vários problemas. Como ninguém sabe o que veio no novo monte que a gente acabou de pegar, nos olham conferindo-nos alguma autoridade e temos vinte e cinco anos para limpar nossas canastras e levar o jogo. Foi isso que aprendi nesse dia no Museu da Língua às vésperas do dia 15 de outubro que comemora o professor. Para continuar a aula, se dessa crônica você gostou espalhe-a entre seus amigos, mas usando as suas palavras, por favor.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2276129259864333499-5031297097577607195?l=www.escolalucinda.com.br%2Fblog%2Findex.htm' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2276129259864333499/5031297097577607195/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=2276129259864333499&amp;postID=5031297097577607195&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2276129259864333499/posts/default/5031297097577607195'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2276129259864333499/posts/default/5031297097577607195'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.escolalucinda.com.br/blog/2010/03/mestra-coralina-do-baralho-bom.html' title='Mestra Coralina do baralho bom'/><author><name>David Lima</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='01665286080860480252'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2276129259864333499.post-1729052791462851168</id><published>2010-02-22T21:05:00.001-03:00</published><updated>2010-02-22T21:07:50.704-03:00</updated><title type='text'>Madame Vida</title><content type='html'>Dobro a esquina sagrada da minha rua Sacopã. É doce o arado do dia. Reinaldo está ali a labutar, artístico, no tear de suas cadeiras de palhinha onde se sentam as damas ricas da nobre rua. Estou entre elas porque já comprei uma cadeira dele, e também sentei. É sua, ele disse, é de rainha. Achei bonito o jeito de vender. Sou fraca para estilos, comprei. Reinaldo é meu comentarista poético do tempo. O tempo, é vasto, é grande, mas tratamo-lo, amiúde, pela palavra dia. É uma boa palavra. Pequena palavra de três letras, onde cabe tudo. Na pequena palavrinha cotidianíssima cabem os acontecimentos concomitantes da humanidade. Descobri que tem muita gente que não sabe o significado desta palavra. Concomitante é o que acontece ao mesmo tempo, meu querido. Digo isso só para os que não sabem. Os que sabem, que se calem e não se ofendam. Reinaldo, hoje o dia está um gato! Depois que eu disse isso uma só vez, ele nunca mais esqueceu. Entendeu o conceito. E é o primeiro a identificar um dia assim, quando nele passo de bicicleta ou à pé. Ele é minha gente boa. Outro dia me disse emocionado: trabalho aqui há dezesseis anos nessa rua. Moro lá em Nova Iguaçu, como você sabe. Arranjo empregada de confiança pras madame toda daqui, mas você, que nunca me pediu nada, é a única que sabe o meu nome e sabe de mim. Sabe até que eu sou avô. Decorou até o nome do meu neto! Levo o lisonjeio que agradeci com um sorriso manso de receber aquilo, aquele buquê de palavras.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Logo chego à Lagoa. O que se descortina é um bálsamo esplendoroso no limiar do asfalto, no meio da cidade maravilhosa também por isso. Sabia que a Lagoa chamava-se Sacopã? Depois é que virou o nome desse Rodrigo de Freitas. Não sei de detalhes, nem vou investigar isso, pra esse tema não trago nenhuma justificativa histórica na bagagem. Teço a aragem do que vejo, teço o arpejo que o tempo escorre na minha cara. Invade a cena uma mulher deficiente, na cadeira de rodas, acompanhada por um casal com cara de dupla companhia. É Dona Herotildes Brandão Bueno, com seu pijama de malha fina revelando a ossatura dos joelhos esqueléticos. Está sendo levada ao sol. Fala com dificuldade. Passei delas e deles. Preciso olhar para trás para confirmar o tecido do pijama, já que me pareceu ser de malha, mas pode ser de seda e não me interessa errar. Nasce o dilema: como olhar de novo, como deitar o olhar de conferência sobre a cena, sem ofender o alvo? Sem parecer que reparo morbidamente a caminhada de uma cadeirante ao legítimo sol de todos? Resolvo disfarçar. Jogo no chão minha agenda e olho com olhos de “iih caiu”. Me inclino para pegá-la. Uma chegada rápida do olho ao canto, e pronto, está conferida a dúvida. Uma ex-dúvida. É malha mesmo, mas com fios de seda. Ela tem unhas muito bem feitas, deu para reparar no caminho de volta que o olhar fez. Outra coisa eu li na breve mirada: é mãe de Afonso, Glória e Carlos Alberto Brandão Bueno Júnior. Herô se cuida. Exige a manicure. Pra quê? Pra passear ao sol da Lagoa e pra que eu repare. É certo que não nos conhecemos. Ela passa e eu aqui, a revelo a todos, de um modo muito à vontade, como se a inventasse. Quem saberá?&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;A câmera segue com seus dois olhos e uma mente que faz filme na película da palavra. Ouço, então, uma voz linda, clara, alta, quente, escaldante, cheia. Chega até mim cantando “garota dourada quero ser seu irmão, namorado...”. Meu olhar encontra a voz. O dono da voz. É um homem vestido de uma reluzente roupa cor-de-abóbora, olhando para o céu. Cantando para o céu azul. O boné inclinado acompanhando a direção da cabeça para o infinito. É um gari alegre e muito afinado. Um gari sem nome para mim. Eu ponho nome nele: é Antonio, o inesperado das manhãs. Está ali para me dizer que a vida pulsa em toda a gente. Para me dizer que ele, o homem que cuida do lixo que desprezo, está feliz. Antonio, ninguém duvida, traz um amor dentro do peito, nem que seja Maria, nem que seja Diva, nem que seja a Vida.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2276129259864333499-1729052791462851168?l=www.escolalucinda.com.br%2Fblog%2Findex.htm' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2276129259864333499/1729052791462851168/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=2276129259864333499&amp;postID=1729052791462851168&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2276129259864333499/posts/default/1729052791462851168'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2276129259864333499/posts/default/1729052791462851168'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.escolalucinda.com.br/blog/2010/02/madame-vida.html' title='Madame Vida'/><author><name>David Lima</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='01665286080860480252'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2276129259864333499.post-3093951725960745320</id><published>2010-02-06T18:08:00.001-02:00</published><updated>2010-02-06T18:11:33.953-02:00</updated><title type='text'>Aceita um barquinho?</title><content type='html'>Cinqüenta e duas flexões para manter o pensamentinho em forma nesse verão. Foi vindo das águas baianas que esse pensamento como um título se aboletou na minha cabeça. A história começa com a decisão de passar o meu aniversário na Casa de Yemanjá na praia do Rio Vermelho, no bairro dela.Salvador recebe um furor de gente e emoção vinda de toda parte para obedecer Caymi  e salvar Yemanjá. Fui na alvorada, ao que minha amiga preta baiana, a Silvia Rita, iluminou: tirei o dia pra você, viu bruxinha? mas olhe vá, no cortejo às quatro da manhã. Lá fui eu, toda de branco naquele azul de madrugada que só se vê em filme. Duas mil pessoas, senhoras, homens, moças, devotos com seus balaios entremeados com fita de cetim  e florezinhas de pano em volta; dentro desses cestos de delicadeza, renda e vime, toda sorte de presente pra ela se enfeitar: pente, champagne, perfume, milhares de flores, imagens, bonequinhas vestidinhas de azul, brincos, colares,pulseiras, cartas bilhetes;um homem derrama um vidro de alfazema na minha cabeça, alguém diz “cuidado com o olho!” Ainda bem que meu plano espiritual tem cobertura ótica e a santa protegeu. Ialorixás, babalorixás, truqueiros se revezavam em suas indumentárias e folhas de aroeiras dando passe à cinco reais. Em cima da pedra, olhando pras pétalas brancas e amarelas das rosas desmanchadas no mar, subitamente meu coração percebeu que aqueles milhares de balaios do cortejo eram uma reserva enorme de esperança. As oferendas  que seguiriam nos barcos para a rainha do mar eram de agradecimento para a mais democrática dos orixás. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Yemanjá ,pra quem não sabe, seu mito reza que é a dona das cabeças, a mãe da diversidade, a responsável pelo único exemplar que somos de nós mesmos. Então, no  coração, pulsou uma gratidão, um sentimento de filha que agradece à vida seus dons. Fiquei constrangida de pedir, visto que é festa de agradecer, pensei que sou cheia de graça, sei fazer tanta coisa, até cozinhar!  Aí uma vontade de chorar assumiu de baixo pra cima diafragma, laringe, faringe, a garganta, toda a estrada inversa até a boca era um nó do rio de choro se formando em mim que ali empacou. Nisso, uma moça me dá dois tapinhas no ombro: Posso te dar um abraço? Não titubeei,aproveitei que não a conhecia, desembarquei em seus braços e ali derramei meu pranto. Por essa ela não esperava, e aquilo ,mais aumentava  o sentimento de solidariedade,o poderoso e antibélico amor entre irmãos. Me debulhei. Sem economizar ,meu peito dava solavancos pra sair ,sabe Deus lá o quê, havia nele. Era alegria, emoção, mas havia também resíduos de guerras cotidianas, sobras das revoluções. Ela agüentou firme, acolheu meu jorro. Cinco minutos eternos depois desse estridente silêncio, só consegui falar ,como se tivesse cinco anos: é meu aniversário. Ela enxugou minhas lágrimas,disse que era cantora, que era minha fã, e me amava. Perguntei seu nome,  era Amanda Dantas, um nome lindo que rimava .  A festa é profana e sacra o show de hibridismo pode encontrar uma banca onde tem camisa de Yemanjá e de Michael Jackson, a gente fica sem saber  quem é orixá ,quem é popstar. Quer dizer é tudo junto e misturado, é gente de biquíni, é gente incorporada. Talvez seja esta a mais inocente das macumbas, pois o mais descrente dos fiéis, ao menos uma florzinha no mar já jogou. Voltei na limpa manhã  do dia seguinte com mais mimos nos braços e um homem se aproxima de mim: Aceita um barquinho, mainha? Era tudo que eu queria, pensei, um barquinho pequenininho de madeira, um brinquedo azul e branco aonde eu pudesse acomodar minha prendas. Deixa eu ver?O barqueiro então estendeu a mão para o mar, “É só escolher”.O homem falava era de barco de verdade, meus olhos letrados varreram a paisagem; Lorena, Deus guia, Me enganei, eram nomes dos barcos ancorados no azul.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No Lorena,Eduardo, o  pescador, me levou então ao meio do mar pra saudar odoyá, visto que esse assunto e´mais cultural que religioso.Fixei  que vale  transitar no acaso, flexionar o pensamento para promover o inesperado ,que vai  do chorar nos braços do desconhecido até ir parar sem planejar no meio do oceano com um homem que me ofereceu um barco que  não pedi. Como hipérbole, falei cinqüenta e duas flexões porque é a minha idade de agora, mas para nos manter maleáveis, com o pensamento em dia , aconselho mesmo esses exercícios que aumentem a nossa extensão. O óbvio é bom mas há diversão fora dele. E tem mais, de tanto repetir as flexões elas se transformam em re -flexões.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2276129259864333499-3093951725960745320?l=www.escolalucinda.com.br%2Fblog%2Findex.htm' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2276129259864333499/3093951725960745320/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=2276129259864333499&amp;postID=3093951725960745320&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2276129259864333499/posts/default/3093951725960745320'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2276129259864333499/posts/default/3093951725960745320'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.escolalucinda.com.br/blog/2010/02/aceita-um-barquinho.html' title='Aceita um barquinho?'/><author><name>David Lima</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='01665286080860480252'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2276129259864333499.post-3328816039254400012</id><published>2009-08-07T18:51:00.003-03:00</published><updated>2009-08-11T14:12:39.231-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Crônicas'/><title type='text'>O que o silêncio diz</title><content type='html'>No quesito palavras, não poderei deixar de fora o mestre, o sinistro, o doce, o denso, e às vezes ensurdecedor, silêncio. Ô bichinho para falar, sô! Quem nunca sentiu o perigo que se anuncia no meio de uma conversa, como tapete vermelho de um segredo, ante-sala de uma revelação? E mais, quem conhece o silêncio? Existe, na categoria de absoluto? Uma vez fiquei, por sete dias, numa altura que nem tenho aritmética para contar, entre montanhas, na parte mais alta de um mosteiro em Ibiraçú, no meu lindo Espírito Santo, escrevendo uma série para crianças, chamada Amigo Oculto. O silêncio que me envolvia era muito animado. Fora a voz forte e muda das rochas, que, embora subjetiva, não deixa de ser voz por isso, se juntava a ela as MPB's dos passarinhos tropicais, os ventos em modalidades de quem viaja com passaporte vermelho de diplomata e, venham de onde vier, ninguém os detém; chuvas percussionistas com seus tambores de trovões e seus batuques nas folhas, somadas à toada de aplausos que os pingos costumam produzir. À noite, grilos, sapos, cobras - e até sacis - dentro da escuridão, garantiam a presença da hóspede dentro dos aposentos, habitando o planeta denso dos sons que moram nas cordilheiras. Um grupo que meditava na parte baixa do mosteiro me encontrou no sexto dia e uma moça me perguntou: "Você está aqui sozinha? Eu não aguentaria esse silêncio não, ele ia me matar!". Talvez ela tenha querido dizer que, num lugar desses, os nossos interiores, vendo a casa sem vigia, vêm para fora e se pode até ficar sem falar com os outros, mas a conversa não para. O assunto emerge derramado pra fora aproveitando a solidão, usando o som do mato sem a voz e o olhar do outro por perto. Tomemos especial reparo ao que chamam silêncio de praias desertas. Qual? O das intermitentes águas e vagas, com seus abdomens de altíssimo paredão que espocam na arrebentação pra virar branca espuma, o dos ventos assobiando nos lençóis arenosos. E o que é o silêncio das fazendas, tecidos de mugidos de boi e grunhidos de porcos, arrematados pela lâmina afinada das manhãs dos galos?&lt;br /&gt;Bem, está porto que a densidade sonora dele existe e atua. Mas, quando se ajeita no meio da comunicação entre os seres, aí este senhor se esbalda. Tanto é que há quem tenha medo de nele cair. Ou, às vezes, a gente sabe que, se deixar o silêncio ali entre os dois amantes, dois amigos ou dois inimigos, este danado a quem ninguém nada explicitamente perguntou, falará. E, mesmo não consultado, gritará. Está a serviço da verdade e dela se vale para, sem voz, entregar, testemunhar, confirmar o que nenhum dos dois ousara dizer. Quando se pergunta qualquer coisa, "você vai ou não vai viajar comigo?", "você abriu minha correspondência?". Ora, sabemos que se, antes de abrirmos a boca, fizermos uma pausa (pequeno intervalo fabricado com tecido silente), ela pode já significar a resposta, pode antecipá-la antes do som. Um "tu me amas" perguntado, que recebe de volta uns olhos cabisbaixos e lábios mudos pode querer acabar de vez e tristemente com a dúvida do perguntador. Como o silêncio, sem nada falar, tudo diz, vibra como enviado do que é e que ainda não foi dito. Reina nos lugares aonde palavras ludibriadoras tentam de todo meio e sorte encobri-lo, catá-lo. Logo a ele que tem o mesmo poder de ação de um verbo proferido. Particularmente, acho que silêncio cada um tem o seu. Uns são longos, chatos, vazios que dispersam o interlocutor. Outros, espertos, curiosos, inteligentes, dramáticos, surpreendentes e cômicos, resultam generosos na elucidação da narrativa. De minha parte, que dentro de tantos inquietos sossegos, escrevo, e deles tanto me valho no palco e na vida, dou meu troféu para aquela qualidade de silêncio que se faz presente no fim de uma conversa depois de uma palavra que, além de ofender, é injusta. Quando alguém, na maldade impensada das crueldades cotidianas, diz: "Você foi VIL", e você, ao invés de revidar logo, de se defender, de se estabanar para provar sua inocência, deixar apenas que o silêncio mova lentamente sua longa cauda, e, sob seu contraste, acentue e dê moldura à palavra VIL, esta ficará ecoando, cortante, dilacerante, protagonista como a última  e infeliz palavra da mesa, a última carta do jogo da oralidade. O silêncio vira fundo para que a palavra e seus sentidos reverberem tanto, gemam tanto os seus intentos, de modo que, caso o dono dela a garanta, caso tenha sido realmente leviano, Dr. Silêncio, neste caso, é professor na artimanha de devolvê-la em efeito bumerangue ao seu dizedor, que fica perdido no lago do silêncio que o outro fez. A palavra volta para a boca de quem a proferiu, mas volta , às bofetadas, caramelada de caco de vidro e com o rabo entre as pernas de quem ficou sem ambiente. Há casos de o dono da palavra não ter outra saída, a não ser arrepender-se amargamente do que disse. Quando estamos corajosos, recolhemo-na a tempo e abrimos imediatamente nosso processo de pedido de perdão por termos errado, escolhido a má palavra. Quando estamos covardes, negamos tudo, até a autoria, no desespero encoberto pela cara de pau: "quem disse isso? Você está distorcendo. Eu não disse que você era vil, eu disse 'você viu'. Entendeu agora?".&lt;br /&gt;Inúteis os artifícios. Natural dublê da verdade, o silêncio é o discurso dos inocentes e sempre falará como o personagem mudo de texto mais contundente; aquele que, sem máscara ou forma, rouba a cena e talvez seja o mais eloquente que há. Acho que quero dizer que o silêncio, no tempo e no espaço, é o mais concreto dos abstratos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2276129259864333499-3328816039254400012?l=www.escolalucinda.com.br%2Fblog%2Findex.htm' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2276129259864333499/3328816039254400012/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=2276129259864333499&amp;postID=3328816039254400012&amp;isPopup=true' title='12 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2276129259864333499/posts/default/3328816039254400012'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2276129259864333499/posts/default/3328816039254400012'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.escolalucinda.com.br/blog/2009/08/o-que-o-silencio-diz.html' title='O que o silêncio diz'/><author><name>Edney Martins</name><email>edney.martins@gmail.com</email></author><thr:total>12</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2276129259864333499.post-4993836859873228562</id><published>2009-08-07T16:14:00.002-03:00</published><updated>2009-08-07T17:08:09.048-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Crônicas'/><title type='text'>Minha língua é minha pátria</title><content type='html'>Tenho meditado muito sobre o poder da palavra. A coisa é tão grandiosa e potente que até me sinto menor do que ela agora no momento em que dela me valho para descrevê-la com seus ornamentos e merecimentos no meu peito. Respeito-a como a parte mais concreta de uma subjetividade. Ao nomear e representar sentimentos presentes e coisas ausentes, desejos e intenções, a palavra adquiriu status de ação, por isso dizemos e pedimos: "Você me perdoa? Quero ouvir você dizer". Por isso uma oração pode ferir, matar, ofender, condenar, perjurar. O meu tesão por ela vem de muito tempo, quando na infância que meus pais trataram de fazer habitada por música popular, livros e quintais, eu lia "Emília no país da gramática", de Monteiro Lobato, não havia quem me tirasse da cabeça (intimamente, porque isso eu não confessava), que Emília era eu; nem precisava começar com E também, mas começava. Enquanto isso, meu pai nos educava com seu refinado bom humor cotidiano, como se brincasse. Se eu entrasse em casa esbaforida dizendo: "Ai, mãe! Quando está quente aqui eu &lt;span style="font-style: italic; font-weight: bold;"&gt;sôo&lt;/span&gt;". Meu pai, de onde ouvisse, retrucava, imlacável e divertido, embora sério: "Realmente eu escutei, e soa alto, hein!? Blém, blém, blém." E ainda completava: "O sino é que &lt;span style="font-weight: bold; font-style: italic;"&gt;sua&lt;/span&gt; em cima da igreja, não é, minha filha?" Não sei porque, mas aquela didática deixava tão claro que era ao contrário que eu nunca mais errava.&lt;br /&gt;Muito cedo percebi que as palavras produziam imagens, mundos, viagens. Como estudava declamação desde os 11 anos, cresci reconhecendo as palavras como paisagens, comunidades, verdade simbólica da convivência humana. O amor pela minha língua pátria, mãe do meu pensamento, organizadora do meu discurso, tradutora de minha identidade, explicadora de meus processos, me pegou de jeito tal, que amei até análise sintática! Entendi, como até hoje entendo, o sujeito como senhor da oração, o verbo como senhor da ação, os adjetivos dando qualidade a tudo, os substantivos concretos e abstratos, fazendo as coisas terem consistência; as conjunções, como neurônios, dando liga e posição circunstancial de sentido a cada oração, das subordinadas às principais. Estudar português era realmente uma festa para mim. Se chovia, o que meus olhos de menina viam naquele céu cinza era o acontecimento chique de uma oração sem sujeito.&lt;br /&gt;A pontuação era, com até hoje é, para mim um capítulo à parte. Quem diz um poema ou quem lê alguma coisa para que o outro escute, deve entender a pontuação como sinais de trânsito da estrada literária. O dizedor está levando o outro pela mão. A segurança da viagem está garantida por esses símbolos; eles nos levam a respirar brevemente nas vírgulas, a dar a partida demonstrativa dos dois pontos, a reservar informações no sussurro dos parênteses, a entoar a música das perguntas nas interrogações. Uma pontuação divorciada do caminho daquele rio de palavras, da história que ali dentro corre, pode inviabilizar a viagem; quem escuta não entende, não vê a película do filme mediato que a palavra bem dita provoca na imaginação.&lt;br /&gt;Portanto, guardo a certeza de que falta ao brasileiro, principalmente em idade escolar, um ensino de nossa língua apaixonado por ela. Sei que isso faz a diferença, porque "quem tem boca vai a Roma" só por causa do que sabe e pode dizer. É seu estoque verbal e a organização dele flúida e firme que funciona entre humanos, do planeta inteiro, como chave. Abre portas, salva, desconcerta, inquire, prova. Na mão dela me agarro e dela me cubro para cruzar os salões do mundo diversificado que frequento.&lt;br /&gt;Nesse verão, a cena que ilustra o fat foi sob o sol de Ipanema, domingo de praia lotada, e um homem com uma onda muito esquisita se aproximou de mim dizendo que me conhecia, como quem quisesse pegar meu celular, mas fingindo que estava me dando a mão. Nunca sofri um assalto, mas , ainda que aquilo não fosse uma possível tentativa, o astral de toda suspeita &lt;span style="font-style: italic;"&gt;mise en cène&lt;/span&gt; fez minha intuição gritar. Pedi que ele saísse do meu lado, que eu não o conhecia nem estava interessada, gostaria que ele se afastasse. Ele disse que não, e com o olhar de quem nunca tinha me visto, afirmou: "Te conheço!". Vocês sabem, os olhos também falam, e os dele diziam outra coisa. Nesse momento tive uma ideia, olhei para além dele, como se mirasse alguém a uma certa distância atrás do meu antagonista, e fiz um sinal como quem diz "me aguarde", com a palma da mão. Voltei os olhos para dentro do dele e disse, sem duvidar de nenhuma palavra saída de minha boca: "Meu marido já te viu e eu te peço, não por você, por mim, vai embora sem olhar pra trás". Sem tirar seu olhar do meu, seus ombros perderam a empáfia, houve um certo quebranto nas pernas da agressividade dele, que, ato contínuo, se rendeu ainda tentando negar: "Não acredito em você não, mas vou me retirar".&lt;br /&gt;Pois hoje meu tributo é a esta bandeira. Que a palavra circule viva, nas salas da aula brasileiras, para que possa ser, realmente, a mãe, o porto seguro, a provedora de glórias, a que dá luz e mais que isso, esclarecimento a uma Nação inteira.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2276129259864333499-4993836859873228562?l=www.escolalucinda.com.br%2Fblog%2Findex.htm' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2276129259864333499/4993836859873228562/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=2276129259864333499&amp;postID=4993836859873228562&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2276129259864333499/posts/default/4993836859873228562'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2276129259864333499/posts/default/4993836859873228562'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.escolalucinda.com.br/blog/2009/08/minha-lingua-e-minha-patria.html' title='Minha língua é minha pátria'/><author><name>Edney Martins</name><email>edney.martins@gmail.com</email></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2276129259864333499.post-5488912450778249973</id><published>2009-07-31T13:32:00.003-03:00</published><updated>2009-07-31T15:13:49.051-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Coluna'/><title type='text'>"We are the children"</title><content type='html'>Quem me conhece sabe que não é do meu feitio batizar em outra língua uma publicação brasileira. Mas o título exerce dominação no meu peito esta semana em que fui mestre de cerimônia nos jardins do Palácio Guanabara, repleto com suas habituais autoridades de cidadãos que raramente frequentam estes ares. Era lançamento nacional do programa Plataforma dos Centros Urbanos, uma iniciativa iluminada do Unicef, que viabiliza ações de desenvolvimento integral dos indivíduos nas cidades, a partir do olhar desta galera. São eles os GAL's (Grupos Articuladores Locais), compostos de jovens que entrevistam, pesquisam em sua vulnerável comunidade e conduzem a realização de prioridades e demandas de sua aldeia, digamos assim. Era também nesta tarde a posse de Lázaro Ramos, ator baiano, como embaixador do Unicef. Pois quando Marie Pierre, diretora do Unicef, me deu a palavra para que eu o homenageasse, a reflexão que tomou o proscênio de meu afeto foi a seguinte: no momento em que o mundo se despede precocemente de seu ídolo pop negro mais polêmico e criativo, este fato ganha novos recortes. Michael foi um menino abusado, explorado, castigado e mal criado pelo pai, com a passiva e, não menos cruel, cumplicidade da mãe. E o pior, não só a sua aldeia, mas estas torpes histórias o mundo todo comentava. Um gênio maravilhoso, cuja infância foi roubada e cujo talento em vida sustentou aquela cambada, aquela mórbida e fria família, cujos olhos já brilham com os lucros da morte de seu gênio mais valiosíssimo. Um menino que ensinou ao mundo os passos da lua e era chamado de macaco pelo pai monstro com cara de cafetão escroto; morreu inseguro, infeliz, esfacelado nos trapos da palavra identidade, desfigurado, retalhado na face, frágil, doente, anoréxico e esbranquiçado, depois de ter sido o primeiro a, com sua música pioneira e única, unir as vozes brancas e negras na América e fora dela. O mundo testemunhou a tragédia de um mártir que inscreveu no corpo, na cara, nas bizarras atitudes no patético castelo de horrores da terra do nunca, as contradições, as injustiças, o racismo e a crueldade de uma nação chamada de primeiro mundo e de uma civilização omissa e equivocada. Esta morte pode ser um alerta. O menino violentado ainda pequeno, afanado em seu direito de ser criança, não cresceu e, o que nele cresceu, não gostou do que viu. A dependência crônica dos analgésicos grita nos nossos ouvidos, como lhe doía viver. Mas me pergunto por que um milionário que foi sacaneado na infância e impedido de se construir fora dos palcos, uma vez que a base de seus casamentos e relações pessoais pareciam seguir as leis da ficção, porque este homem rico de grana e tão comprometido psicológica e emocionalmente, morreu sem tratamento? Ser um homem de cinquenta anos, cheio de Mickey e Peterpan pelas paredes de seu quarto, criar aquela face indescritível de batom sob um nariz sem cartilagem e sob olhos infantis muito tristes não era bizarro, era loucura. Ele estava dodói e poderia, com uma boa terapia e tratamento psiquiátrico, ter tido um outro destino onde seu talento pudesse realizar o mundo e a ele mesmo ainda mais, onde ele pudesse se libertar de vez daquele demônio paterno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu Deus, e agora estava eu ali, diante de Lázaro, aquele brasileiro negro lindo, talentosíssimo, coerente em suas ações como artista, cidadão, solidário, antenado com suas responsabilidades neste mundão segregacionista, idealizador e apresentador de um programa chamado "Espelho", e que por isso mesmo dispensa explicações, egresso de um dos bairros pobres de Salvador, mas que dentro de toda a pobreza foi criado como menino seguro, forte, amado pelos pais, ancorados no amor por si e pelos seus. Ouvi o discurso simples de jovem embaixador, sua brilhante inteligência sob cabelos muito bons e crespos, um sorriso luminoso e delicioso, com aquela mesma cara ensolarada do primeiro Michael, o menino de ouro do Jackson Five, de nariz largo, voz linda, cheio de sonhos cantando &lt;span style="font-style: italic;"&gt;I'll be there&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lázaro foi emblemático pra mim nesta tarde de uma cerimônia patrocinada por uma instituição cujo foco, cuja mola mestra é a infância. Meus senhores, não há futuro possível sem uma infância e adolescência cuidadas. É uma conta que, geralmente, desanda. Ainda tem muito menino preto que cresce achando que só pode lhe sobrar ser "Thriller" e "Bad", ser preto e mau. O tema é amplo, toda criança, de qualquer tom ou origem social, merece uma opção de vida cidadã. Então, ao mesmo tempo em que meu coração chorava em luto por quem foi talvez a mais triste e genial criança americana, uma forte luz vinha daquela tarde representada em Lázaro, como a me dizer que novos tempos se anunciam. No momento em que a crise do mundo quebra as pernas da arrogância da razão, novas plataformas mais emocionais, mais humanas, mais responsáveis, surgem para dar a mão e novas saídas para o menino mundo; o que sempre é e sempre será feito de ex-crianças, de crianças que cresceram. Uma criança que não tem a infância roubada, pode envelhecer e, sem enlouquecer, viver pra sempre.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2276129259864333499-5488912450778249973?l=www.escolalucinda.com.br%2Fblog%2Findex.htm' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2276129259864333499/5488912450778249973/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=2276129259864333499&amp;postID=5488912450778249973&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2276129259864333499/posts/default/5488912450778249973'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2276129259864333499/posts/default/5488912450778249973'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.escolalucinda.com.br/blog/2009/07/we-are-children.html' title='&quot;We are the children&quot;'/><author><name>Edney Martins</name><email>edney.martins@gmail.com</email></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2276129259864333499.post-2237642057223144725</id><published>2009-07-10T14:46:00.003-03:00</published><updated>2009-07-19T20:48:44.305-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Poesias'/><title type='text'>Prova de Amor</title><content type='html'>Me vejo pensando na abismal distância entre a ciência e o viver, em como é bem-vindo o tempo em que a criança, o adolescente e o jovem associem a palavra escola com aprender a viver. Nasceu então essa carta poema como modelo singelo da utilidade desse saber:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Queria não saber nada de Aritmética, para não contar os dias em que não te vejo. Queria errar na conta do que falta para você chegar. Enquanto você não vem, a aflição me quer inquieta e o medo me quer estática. Cresci achando que as horas esperada da vida não tinham nada que ver com a matemática! Ando de bicicleta, passeio pensando em você, almejando te ver na lua minguante. Eu, pousado no seu corpo firme e nele me equilibrar, cair, dançar, me perder, me espalhar; fêmea e onírica. E isso tudo pra mim não tinha nada a ver com física.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Oh, meu amor cujo trabalho é registrar o olhar, criar rastros de figuras com ele, enquanto fotografo de longe, em palavras, quieta, serena, gótica. Mas como é que eu iria saber que tudo isso tem a ver com a ótica? Procuro palavras lindas, vasculho meu repertório, o dicionário emocional que guarda os meus vernáculos, enquanto a lua sobre tudo brilha e míngua, mas isso pra mim não tinha nada a ver com línguas. É certo que guardo o toque do seu rosto no meu, no meio do salão trago o cheiro, a dança, o tesão, e tudo isso faz ferver um caldeirão em mim. Pois tudo isso aciona em nós dois uma desenfreada alegria alquímica. Mas quem deixou de me dizer que essa era a mais pura aula de química?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Oh, meu amor, quem me dera que você viesse logo para que eu pudesse te mostrar em detalhes a atualização dos meus jardins, para que eu pudesse exibir-me prendada na terra, moça de boas mãos, cujos botões de rosas plantadas na manhã de ontem me oferecem suas vermelhas, rosas e amarelas pétalas abertas um só dia depois. Queria mostrar-te, pois, estas belezas, ensinar-lhe, amorosa, sua dinâmica; tudo isso sem saber que o assunto era botânica! Sem falar no mar, esta maravilha, da qual, litorânea garota que sou, conheço suas ondas, sua Yemanjá, seu poder e sua poesia. Meu Deus, quem diria que o mar faz parte da aula de geografia? E tem mais, fui lá pra fora, na varanda de minha alma, e no céu uma nuvem calma encobria a lua amarela, mas não apagava a minha caligrafia. Céu, estrelas, planetas, o sol dos dias; quem romântico entenderia que isto é função da aula de astrologia?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É manhã nova. O primeiro pensamento me alivia. Está mais perto da hora e do dia de eu provar de novo do seu beijo, sua doce presença que tanto me acalma. Como podes, com um simples enlace da minha cintura, tumultuar meu sangue, dar-lhe pressão máxima, mudar-me do corpo a temperatura? Provocar-me uma renovação de células, uma doce citologia, uma revolução de culturas? Coração dispara, enlouquece, aquece. Tudo se move em mim: mitos, mitocôndrias, seios, sulcos, rios, uma verdadeira hidrografia de energia. Como é que eu ia adivinhar que o seu corpo no meu já era prova real de biologia? O que mais me atrai em ti, pra além deste olhar de Copacabana e desta boca que enche de constelação o céu da minha, é o seu caráter, meu homem, a sua conduta certa, sua dignidade, o jeito simples de olhar o mundo pelas lentes da bondade, de semear no escuro as suas certezas, sua claridade lírica. Mas, meu Deus, quando eu era pequena, não sabia que o nome da ética era moral e cívica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se quiser me ver, vai me encontrar, eu penso. O dia segue ainda sem você no bojo, mas a possibilidade de lhe ver, veja você, não é nada mística; hoje sei que quem me garante essa espera é a lógica da estatística. Pera aí! Mas foi só um beijo e eu sonhei isso tudo, esses sujeitos, estes subjuntivos, estes futuros, estas falácias? Você, sujeito do meu melhor período, conjuga meus verbos, envolvendo certo meus predicados. Confio na oração principal, que vai me levar ao colo de sua concreta delicadeza, sua beleza prática; só que ninguém me falou, meu amor, que isso era prova final de gramática!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quero viver este amor por todos os lados da alegria: seus cubos, seus quadrados, seus triângulos superpostos, sobrepostos nos ângulos da magia. Então, quando passas a régua em mim, isso é legítima geometria! Chega, meu amor, vou dormir. Tenho o coração cansado. Inscrevo palavras de amor em todas as faces do mesmo dado. O amor é o tempero, o sal da vida, diz o ditado. É esta a matéria da vida: veja bem, uma dança, um beijo, um amasso na escada, tudo é coisa letiva da vida escalada. As palavras doces ditas entre os degraus do jardim, as velas acesas, como acesas brilham na toalha luminosa da mesa de uma recentíssima memória. E, para nossa glória, hoje entendo tudo: Nosso amor, meu amor, vai entrar para a história!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2276129259864333499-2237642057223144725?l=www.escolalucinda.com.br%2Fblog%2Findex.htm' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2276129259864333499/2237642057223144725/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=2276129259864333499&amp;postID=2237642057223144725&amp;isPopup=true' title='13 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2276129259864333499/posts/default/2237642057223144725'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2276129259864333499/posts/default/2237642057223144725'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.escolalucinda.com.br/blog/2009/07/prova-de-amor.html' title='Prova de Amor'/><author><name>Edney Martins</name><email>edney.martins@gmail.com</email></author><thr:total>13</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2276129259864333499.post-1153688026697984823</id><published>2009-07-05T21:32:00.004-03:00</published><updated>2009-07-05T22:56:46.074-03:00</updated><title type='text'>Texto de estreia no Correio Braziliense</title><content type='html'>Desde o dia 27 de junho, estou escrevendo com colunista do jornal Correio Braziliense, e compartilharei com vocês aqui os textos que foram publicados lá, que me dão muita alegria de poder escrever. Espero que vocês gostem:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;BSB, argumento do meu coração&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha relação com Brasília começou com tanta magia que parece ficção. Era final dos anos 80 e eu, recém retirante de Vitória do Espírito Santo, tinha ido vencer no Rio de Janeiro, e destino já me chamava a protagonizar o filme &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Referência&lt;/span&gt;. Era a história de Mercedes, uma doméstica que vivia sempre a sonhar. O filme era feito de cortes, inserções entre a vida real de borralheira e o sonho daquele romântico coração. O cartaz era ela de uniforme, encostada a uma geladeira, de pé, apoiada a uma vassoura e os olhos sonhadores para o céu num sol da tarde.&lt;br /&gt;Minha família viera de Vitória para o Festival de Cinema do Rio de Janeiro, onde o filme dirigido por meu amigo Ricardo Bravo is passar &lt;span style="font-style: italic;"&gt;hour concours&lt;/span&gt;. Já que era um curta, seria o &lt;span style="font-style: italic;"&gt;couvert&lt;/span&gt;, o tapete vermelho para o prato principal, que era um novo filme do Cacá Diegues. Lá estava toda a turma do cinema nacional reunida em torno de sua importantíssima festa.&lt;br /&gt;Todos arrumadíssimos e bonitos. Antes da sessão, nervosa, fui ao toilete, cuja parede dava para os fundos do escritório da administração do festival; foi quando ouvi o seguinte diálogo: &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Você não ligou para mim ontem. Me deixou plantada lá, igual a uma idiota, e isso eu não vou perdoar&lt;/span&gt;. Era a voz de uma mulher traída. Não sei de detalhes, mas ela falava com Ricardo, que tentava, inutilmente, se desculpar usando argumentos com o tempero dos culpados: &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Não é nada disso, Berenice. Você é que entendeu mal...&lt;/span&gt;ao que Berenice retrucou cortante e decidida: &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Quem entendeu mal foi você. E, quer saber? Não vou passar o teu filme!&lt;/span&gt; Fiquei chocada. Aquela frase cortou o meu coração. Meus olhos pregados nos ladrilhos sem poder conceber aquilo, rezando para que aquela voz não fosse do meu Ricardo, e que o filme vetado fosse outro.&lt;br /&gt;Uma moça fala no microfone: &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Boa noite! Por motivos técnicos não passaremos o curta Referência&lt;/span&gt;. Já não ouvi mais nada, fui embora para casa amparada por meu pai, minha mãe e meus irmãos. A frustração me deu febre: 40° de desilusão. A memória traz a mão materna em concha, acolhedora sobre minha testa. Seus olhos dentro dos meus, com a sensibilidade de quem me deu a vida: &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Filha, calma! Tempo pediu a Tempo a mudança do mesmo Tempo. Tempo respondeu a Tempo que tudo no Tempo tem Tempo&lt;/span&gt;. O mantra, o oráculo, sei lá, aquele dito me adormeceu. Corta.&lt;br /&gt;Três meses depois, fomos convidados a concorrer no Festival de Brasília. Vim de ônibus do Rio para a casa de uma amiga, e entrei clandestina na sala de exibição, para, enfim, ver meu filme. Uma calorosa recepção em aplausos e gritos era o que se ouvia quando as luzes se acenderam. Aí começa a acontecer uma espécie de "cindelerisse". De cara, Marlos Nobre, diretor do festival, disponibilizou um quarto especial no Hotel Nacional para mim.&lt;br /&gt;Me diziam para fazer &lt;span style="font-style: italic;"&gt;lobby&lt;/span&gt;. Achei a ideia meio "mico", e muito longe do meu jeito de pensar. No outro dia, fazia sol na piscina, e lá conheci um casal muito simpático, Dori Caymi e Helena. Passamos a tarde rindo, bebendo cerveja e conversando. Repetimos a dose no dia seguinte, depois do qual, ao pegar o elevador de serviço para ir ao meu quarto, dormir um pouco e depois me arrumar para a festa dos prêmios, vejo a porta do elevador aberta e, como que saída do cartaz, sob um sol de tarde, brilha uma moça de pé, apoiada na vassoura, a me perguntar: &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Você é a Elisa Lucinda, não é? A atriz?&lt;/span&gt; Sou, e você? &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Eu sou Dulce, a faxineira. A senhora vai bem ganhar o prêmio, não é?&lt;/span&gt; Como é que você sabe disso? &lt;span style="font-style: italic;"&gt;É que eu estava limpando a sala do júri e tem nove a favor e só um contra. Já ganhou, não é?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Próxima cena. Noite de premiação. O presidente do júri sobe ao palco e anuncia que criou um prêmio especial de atriz revelação, categoria que não havia ali, até então. O prêmio era meu, e o presidente do júri era o próprio Dori Caymi. Eu não sabia.&lt;br /&gt;Quem viu o céu daquela noite sabe que ele era meu cúmplice. Quem percebeu as flores do cerrado da manhã seguinte, sob o céu azul, sabia do bouquet que a partir daí a cidade me ofereceria sempre. Desde esse dia, volto a Brasília, aos seus palácios e satélites, numa carruagem que jamais volta a ser abóbora. Descobri que o céu da capital me protege, que me tornei amante de suas cores e encantamentos. A partir de hoje, o que partilharemos aqui, todos os sábados brotará dos acontecimentos do cotidiano na versão do meu pensamento. Muito me orgulha essa doce tarefa. Ah, Tempo, filme da vida onde Brasília é meu argumento.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2276129259864333499-1153688026697984823?l=www.escolalucinda.com.br%2Fblog%2Findex.htm' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2276129259864333499/1153688026697984823/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=2276129259864333499&amp;postID=1153688026697984823&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2276129259864333499/posts/default/1153688026697984823'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2276129259864333499/posts/default/1153688026697984823'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.escolalucinda.com.br/blog/2009/07/texto-de-estreia-no-correio-braziliense.html' title='Texto de estreia no Correio Braziliense'/><author><name>Edney Martins</name><email>edney.martins@gmail.com</email></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2276129259864333499.post-8050750733757453466</id><published>2009-06-17T19:11:00.009-03:00</published><updated>2009-06-24T09:35:32.888-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Poesias'/><title type='text'>Poema da manhã seguinte</title><content type='html'>Como se eu fosse uma flor,&lt;br /&gt;você me rodeou&lt;br /&gt;pousando sobre mim como se deve.&lt;br /&gt;Delicada presença em minha vida&lt;br /&gt;no meio do salão,&lt;br /&gt;bailando leve.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sei o que você veio buscar na flor.&lt;br /&gt;Sem que eu percebesse,&lt;br /&gt;para que assim eu não te detivesse,&lt;br /&gt;bateu a asa vampira&lt;br /&gt;tornando quase eternidade&lt;br /&gt;a vida curta de uma borboleta breve.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;Manhã de 16 de maio.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2276129259864333499-8050750733757453466?l=www.escolalucinda.com.br%2Fblog%2Findex.htm' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2276129259864333499/8050750733757453466/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=2276129259864333499&amp;postID=8050750733757453466&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2276129259864333499/posts/default/8050750733757453466'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2276129259864333499/posts/default/8050750733757453466'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.escolalucinda.com.br/blog/2009/06/poema-da-manha-seguinte.html' title='Poema da manhã seguinte'/><author><name>Edney Martins</name><email>edney.martins@gmail.com</email></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2276129259864333499.post-2546625590315321578</id><published>2009-06-05T17:59:00.003-03:00</published><updated>2009-06-05T18:17:57.802-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Poesias'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Outono'/><title type='text'>Uma poesia inédita para vocês.</title><content type='html'>&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Lição de Outono&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma chuva não oblíqua, mas incidente,&lt;br /&gt;cai sobre a noite de outono&lt;br /&gt;no Rio de Janeiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu desamparo não se atreve&lt;br /&gt;a botar o focinho na porta de casa.&lt;br /&gt;Sabe que essa água ampara, aquieta,&lt;br /&gt;aquece o invisível ninho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque mesmo em apartamento, hotéis e estalagens,&lt;br /&gt;sempre houve um som de chuva&lt;br /&gt;estalando serelepe no meu telhado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando chove, ajeito-me na cama&lt;br /&gt;e para qualquer lado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo é aconchego,&lt;br /&gt;dança, sono, acalanto, bailado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O derrame da água em forma de pingos&lt;br /&gt;me ensina a reunir minhas partes,&lt;br /&gt;minhas frações,&lt;br /&gt;me sugere conjunto&lt;br /&gt;onde houver baque, choque, cisão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A renda líquida da chuva de outono enfeita minha varanda,&lt;br /&gt;sua música me protege, é meu cortinado.&lt;br /&gt;A chuva emenda trincados&lt;br /&gt;e quem duvidará&lt;br /&gt;da unidade de um temporal?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estala, chuva amiga,&lt;br /&gt;aprende alma: se parte, é cristal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Madrugada, 29 de outono, maio de 2009.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2276129259864333499-2546625590315321578?l=www.escolalucinda.com.br%2Fblog%2Findex.htm' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2276129259864333499/2546625590315321578/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=2276129259864333499&amp;postID=2546625590315321578&amp;isPopup=true' title='13 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2276129259864333499/posts/default/2546625590315321578'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2276129259864333499/posts/default/2546625590315321578'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.escolalucinda.com.br/blog/2009/06/licao-de-outono-poesia-inedita.html' title='Uma poesia inédita para vocês.'/><author><name>Edney Martins</name><email>edney.martins@gmail.com</email></author><thr:total>13</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2276129259864333499.post-5548702489236034591</id><published>2009-05-04T20:55:00.006-03:00</published><updated>2009-05-05T09:55:56.126-03:00</updated><title type='text'>Viver de poesia</title><content type='html'>&lt;br&gt;Lembro de eu gostar de palavra. Desde pequena eram como um brinquedo pra mim. Desde quando “soréconvosco” era uma palavra só, sem o sentido e sem as quatro palavras “o Senhor é convosco” dentro dela. Desde o gato Fuminó, história infantil publicada e escrita na oralidade de meu pai, até os imaginativos vôos no país da gramática de Emília nas asas de Monteiro Lobato. Era bom dizer poesia na escola, recitar no pátio diante dos colegas uniformizados e de mim saindo um poema cantando a primavera, louvando o dia da árvore. Foi bom já aos onze ser levada pela sabedoria de minha mãe e meu pai para estudar Interpretação Teatral da Poesia, de 11 a 17 anos aprendendo uma coisa muito diferente do que já naquele tempo se chamava declamação, apartir daí uma seta cruza o tempo e o motor é dela, e o avião é ela, e a vela é ela. Ela o barco, é ela o trem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A poesia se embrenhou nos meus modos viventes. Não é mais só minha matéria-prima, é minha matéria-imã, minha matéria-irmã, minha matéria-mãe. Sua maternagem é fundamentar-se em mim. Escrevo desde os 17, mas poesia no palco é imagem de infância pra mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;23 anos de Rio de Janeiro, no desenho eu vejo seu amadrinhamento de mim, o modo requintado e muito simples com que pousou como um pássaro na janela do meu olhar e me expôs às mais duras provas sob a sua guarda. Salas de aula, bares, teatros, recitais, livros feitos em casa, livros feitos à mão, primeiro em pequena escala, mas sempre dela é que veio meu pão. Contando assim pra mim mesma, nessa noite de inverno forte em Passo Fundo, vejo como andei e ando até hoje com a poesia como protagonista mesmo sendo ela tão figurante no cenário da realidade brasileira. Mesmo com todos os avanços da comunicação a gente ainda vê o maltrato dispensado a ela, pelos livreiros, leitores, editores, como se ela não pudesse ser sala de visita pra casa de ninguém. E o pior, ela é. Na profunda realidade do cotidiano, aquela óbvia que a gente nem percebe, a poesia está. Tocando nas canções de rádio, nos provérbios populares que habitam os diálogos, nas folhinhas do calendário penduradas nas paredes descascadas, no verso de cada dia das agendas das secretárias executivas, nos oráculos, nos livros de oração, nos bilhetes dos amantes, mas poucos a vêem como um filão. Pouca gente vê que é produto de primeira necessidade e nesse percurso me vejo levando-a pela mão e sendo levada por ela ao seu ouro, que é ao mesmo tempo o seu propósito: esclarecer, educar, desabafar pelo mundo, pensar com o mundo. A poesia é um ato de compaixão, uma declaração de amor de um homem pra outro. A humanidade respira no verso do outro, no verso do irmão. Tiro por mim: como divindades feitas de puro verbo, quantos Bilacs já salvaram meu peito? Quantas vezes já rezei Adélia, Pessoa, Quintana, Bandeira, Drummond? Quantas vezes não morri porque garrei na mão de Manoel de Barros? Dormi no colo de Cecília, não me perdi por pertencer ao rebanho de Caeiro e aprendi com a angústia como uma Clarisse. É bom ter poema pra cada ocasião, é mágico como um oráculo, a mesma poesia num outro dia ganha outro sentido, por isso nunca se acaba de ler um livro de poema, é leitura infinita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca separei poesia de teatro porque sempre vi a dramaturgia dela. São milhões de identidades e emoções cujos personagens somos nós poetas e toda a humanidade que representamos e a qual damos voz. Quando dei por mim, de tanto escolher a poesia percebi que ela tinha me escolhido também, é professora de minha atriz, responsável pelos meus convites para telenovelas, cinema, teatro, empresas, escolas, festa, palestras, aniversários, casamentos, convenções. É meu pistolão para todos os trabalhos, faz lobby pra mim e eu sou empresária dela. Dou aula de como dizê-la, assim coloquial, sem maneirismos, sem chatices, sem castigar os sentidos dos seus versos, daí há dez anos nasceu a minha escola de poesia que recebe o ano inteiro gente de toda profissão e idade, que quer falar poesia socialmente, ou profissionalmente. Agora, alunos já viraram professores e já somos uma equipe ensinando professores de escola pública o nosso jeito de transformar poesia em aula, agora estamos no Espírito Santo, minha terra natal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desde menina então, sob as ordens dessa deliciosa criatura venho cavalgando o mundo, como uma criança que carrega água na peneira e com a alegria da brincadeira vai regando a terra. De cada porta de teatro faço uma livraria, em cada auditório de empresa esta lá a minha banca, minha tenda de nobre camelô, mesmo que não se veja a banca ali, mesmo quando fisicamente ela não pode estar, está feito o serviço pela poesia, está vendido o livro, para que a palavra ande é preciso pregar a palavra, a isso a poesia nos convoca. &lt;br /&gt;Outro dia eu vi um vizinho de filme dizendo assim pra mulher “Você pensa o quê? Eu trabalho, minha vida não é poesia não”. E eu pensei falando sozinha com a tela da TV, durante a sessão da tarde,  pois a minha é.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2276129259864333499-5548702489236034591?l=www.escolalucinda.com.br%2Fblog%2Findex.htm' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2276129259864333499/5548702489236034591/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=2276129259864333499&amp;postID=5548702489236034591&amp;isPopup=true' title='16 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2276129259864333499/posts/default/5548702489236034591'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2276129259864333499/posts/default/5548702489236034591'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.escolalucinda.com.br/blog/2009/05/viver-de-poesia.html' title='Viver de poesia'/><author><name>David Lima</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='01665286080860480252'/></author><thr:total>16</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2276129259864333499.post-819494777270699068</id><published>2009-04-17T17:13:00.002-03:00</published><updated>2009-04-17T17:20:05.096-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='sexta-básica'/><title type='text'>Parem de falar mal da rotina</title><content type='html'>O teatro SESI convida o espetáculo “Parem de falar mal da rotina” para voltar a cartaz em seu precioso palco, pela terceira vez. E mais, não é por ser um monólogo, uma comédia reflexiva, um belo encontro poético, não. O teatro quer público!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Espera aí. É isso mesmo que se está lendo? Monólogo, poesia e público? É certo alinhar essas palavras na mesma oração? Pois quando Amir Hadad, então diretor do teatro Carlos Gomes, me ofereceu um horário de formação de público, um alternativo, às 19:30, terças e quartas, no centro da cidade, no ano de 2002, eu tinha uma idéia na cabeça, uma banheira e um espelho em forma de coração, rodeado de luzes, ambos objetos herdados da produção fotográfica que deu origem ao encarte do CD “Eu te amo e suas estréias”, assinado por Alessandro Grieg. MAIS NADA.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na época eu havia chegado de Barcelona, onde tinha feito um espetáculo no Festival de Sitges, e o jornal La Vanguardia disse que me via na sala de minha casa com aquela obra. Isso ficou reverberando dentro de mim, porque esse era o meu mote naquela altura: fazer uma ode ao cotidiano, fazer uma reverência não passiva, mas uma reverência ativa ao ineditismo que um cotidiano é e ao fato desconcertante - e não menos belo – de não sermos fixos. Tudo muda o tempo inteiro e nada se repete.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A estréia daquela peça para apenas 14 pessoas naquela terça-feira de setembro se deu no dia em que a cidade estava obedecendo a uma ordem do tráfico: escolas e comércio fechados até segunda ordem. A cidade parecia aqueles filmes cuja população fora abduzida; eu me lembro de mim e de  um motorista de táxi, indo para o programa da Leda Nagle, e a cidade vazia. Aquela noite, aquela experiência de estrear na cidade deserta gerou um invisível boca a boca, que fez com que duas semanas depois, o teatro estivesse lotado. E, para minha surpresa, o horário virou um centro de platéia repetente naqueles 700 lugares. Eu explico: quem ia, porque era preço muito popular - R$5,00 a inteira – voltava no outro dia, ou na outra semana, com a mãe, primo, sogra, irmã, amante, tia gay, cunhado duvidoso, marido, mulher, amigo e filho, o que me fez todo dia perguntar à platéia quem estava vendo pela segunda vez. No final da temporada, em outubro, havia quem houvesse visto todas as vezes, como foi o caso da atriz, então estudante de teatro, Geovana Pires, que virou assistente de direção, de tanto assistir. Ah! Havia um ingrediente importantíssimo nessa culinária: o tempo da peça. Duas horas e quarenta e cinco minutos. E o pessoal achando pouco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De lá para cá, o Parem andou sozinho por esse país, repetindo temporadas em cada capital: 06 em Salvador, 05 em Porto Alegre, 06 em Vitória do Espírito Santo, duas em São Paulo, três em Brasília, inúmeras por outras cidades e mais 88 apresentações no Fórum Mundial de Cultura de Barcelona, em 2004, onde uma senhora da platéia me disse: “troquei minhas pastilhas antidepressivas por uma sessão de sua peça por dia”.&lt;br /&gt;Esta é uma realidade que, se não põe por terra, dá ao menos uma abalada em alguns dogmas que perseguem o pensamento comum do brasileiro sobre o gênero poesia, na modalidade de monólogo, com mais de duas horas de duração, e agradando ao povo, de quem se diz que não suporta literatura, e que não vai ao teatro. Uma teoria, filha dessa prática, nesses anos até aqui, vendo o fenômeno da repetição do público se repetir por toda parte, conclui que trata-se de uma obra em progresso, que desenvolve, em cena, todo dia, a prática da teoria que propõe, ou seja, estréia. Não há um dia realmente que seja igual ao outro, tão pouco eu sou a mesma do espetáculo de ontem, tão pouco a platéia é exatamente a mesma que é a de ontem. Só essa realidade de dados e conjunto já garantiria o ineditismo de cada sessão, mas há mais, há a mágica, o encantamento, o poder de película que cada palavra poética pode gerar, e, como o tema é a rotina, que, ao frigir dos ovos, terá sido o sinônimo de nossa vida, o assunto se torna palpável e ao alcance de nossas mãos. O senso comum nos subjuga à rotina, nos escraviza irremediavelmente a ela, como se ela não fosse um substantivo abstrato, e como se ela não fosse a tradução substantiva e concreta de nossas escolhas. A rotina não pode nada, quem pode é seu autor. Portanto, quando a responsabilizamos por nossa má qualidade de vida, pelo fim de nosso casamento, pela falta de tesão no trabalho, estamos fazendo uma mea culpa, estamos dizendo que nós escolhemos mal, e, mais do que isso, empobrecemos os dias, pasteurizando sua beleza, com a vista turva de tanto achar segunda igual a terça, de tanto não saber que lua é, qual a estação, de tanto não perceber a originalidade no crepúsculo, nas chuvas, nos azuis do céu e, por fim, não reconhecer em  nós a originalidade, nosso grande luxo , nossa riqueza maior e que nos faz irmãos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essas reflexões, feitas através de personagens inúmeros e seus infinitos desdobramentos no reino do cotidiano, têm provocado nas platéias o seu lugar de grande elenco para mim. A peça lembra que somos sujeitos, o responsável pelas ações de uma oração, e a platéia, uma vez acordada e lembrada disso, ganha voz, ri, chora, fala, se coloca, responde naturalmente as perguntas sem que se peça, e sai dali de alma lavada, com a barriga doendo, de tanto gargalhar de si mesmo, e podia durar mais que duas horas e meia – que é o tempo de hoje – enquanto lhe for útil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mágica do “Parem de falar mal da rotina” se utiliza dos óbvios, do fio de miçangas das obviedades, para revelar um mundo novo, aparentemente bobo, desprezado, mas que não só é importante, como está ao alcance de todos. A peça sugere que você se vista como quer, que você escute a conversa alheia, que você repare no seu semelhante, bata na porta do vizinho se ele estiver brigando ou para lhe oferecer um pedaço de bolo, que você estréie cada eu te amo, dito e pensado, uma vez que cada um é um, e autoriza a todos a brincar, apesar de terem chegado à vida adulta. E mais, há um momento em que um poema de um autor brasileiro é falado do palco, e quem adivinhar o nome desse poeta ganha uma bolsa do Gilson Martins, sem contar que todo dia alguém da platéia (dependendo do comportamento), recebe flores no final do espetáculo. Ou seja, o indivíduo vai ao teatro, a preço popular (hoje 30 e 15), aprende um monte de coisas que ele pode usar na vida, e ainda ganha presente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sete anos depois, a “família” “Parem de falar mal da rotina”, que é a mesma “famíliaequipe” que coordena os caminhos da Casa Poema e sustenta seus batimentos, desembarca pela sexta vez em solo carioca, para, nesse querido teatro SESI (muito bem cuidado pelo Colmar Diniz e sua equipe), continuar a celebração. Mais de 500 mil espectadores - até agora - por ali passaram e, no entanto, não param de fazer planos de seguirem o show; prometem levar mais sogras, mais parentes, uma coisa multiplicante, como se fosse exército, torcida, legião. Em Sampa, um rapaz do público que via pela décima quarta vez, me disse: “eu gosto de vir no domingo, porque aí fica valendo como missa.” Um outro me disse: “eu vim hoje porque amanhã vou fazer uma cirurgia e a minha irmã falou que essa peça é um ótimo pré-operatório”. Falam do Parem como se fosse um programa, um parque, como uma curtição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Venho dizer, meus senhores, que essa história prova a força da poesia como autoajuda, sem ser ferida pelo desgaste da expressão. É como fonte de autoconhecimento e como construtora de uma paz possível, que é a do entendimento de um homem por outro homem. Nesse anos todos no hall do teatro, além de uma pequena livraria, temos um caderno de impressões onde o público derrama suas digitais emocionais. Em meio a tanto desabafo, uma carta de uma suicida fracassada confirma a vocação da obra; ela me dizia que assistiu a peça toda quebrada, da platéia, se recuperando do acidente proposital que deveria ter dado cabo de sua vida, teve certeza de que todo o conteúdo da peça tinha sido preparado para ela, para falar de sua vida e dar-lhe um novo sentido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Falando assim parece até um papo religioso, mas o que o “Parem de falar mal da rotina” talvez fortaleça seja exatamente a não transferência de nossas escolhas para Deus nenhum. Celebramos ali que a vida é uma obra aberta, é nossa, e metemos o nosso próprio bedelho no nosso roteiro, confiando no feixe de possibilidades que a vida nos garante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O “Parem de falar mal da rotina” limpa o nosso olhar para como estamos criando os nossos filhos: como estamos educando nossas crianças? Para o amor? Para a violência? Para o dinheiro? Para ser ou para ter? Qual tem sido nosso critério para escolher nossas profissões? Quem decide isso, o dom ou a ganância? Até que ponto somos livres, ou até que ponto vivemos em cárcere privado, cujos carcereiros somos nós mesmos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesses anos todos, desenvolvemos uma linguagem do que é o mesmo e muda sempre na cara da platéia, cheio de magia e sem truque nenhum. Nunca fica velho. Sai uma cena para dar lugar a outra mais atual, com mais respostas para novos agoras, e assim vamos, brindando o cotidiano e vibrando cada minuto em seu louvor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aí está. Senhor doutor Amir Hadad chamou poesia para formar público. Formou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Elisa Lucinda,&lt;br /&gt;Abril de 2009.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2276129259864333499-819494777270699068?l=www.escolalucinda.com.br%2Fblog%2Findex.htm' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2276129259864333499/819494777270699068/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=2276129259864333499&amp;postID=819494777270699068&amp;isPopup=true' title='32 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2276129259864333499/posts/default/819494777270699068'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2276129259864333499/posts/default/819494777270699068'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.escolalucinda.com.br/blog/2009/04/parem-de-falar-mal-da-rotina.html' title='Parem de falar mal da rotina'/><author><name>David Lima</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='01665286080860480252'/></author><thr:total>32</thr:total></entry></feed>