Content on this page requires a newer version of Adobe Flash Player.

Get Adobe Flash player


quinta-feira, 18 de março de 2010
Infância Roubada
Há algumas meninas sinistras: são as próprias mães em miniatura, de escova, maquiagem, salto alto, quando não chegam ao exagero de depilação precoce e botox. Tudo, na maioria das vezes, gerenciado e patrocinado pela inocência dos adultos. Digo inocência porque não quero vilanizar os pais. Na maioria das vezes achamos tudo muito bonitinho, mas temos que ser sabedores de que somos produtores da qualidade daquelas infâncias, e que estamos construindo a base daquelas vidas. Portanto fiquemos de olho em nós, educadores. Do mais simples ao mais grave, todo o nosso comportamento estará formando caráter, personalidade, pessoa.

Por exemplo, se para qualquer um já é difícil ser si mesmo, imagine sendo gêmeos com os pais insistindo em vesti-los com a mesma roupa? Adorarem que os confundam, que até na família não se saiba quem é quem? Tudo isso depois pode acabar num divã, se tiverem sorte. Em verdade , muito do que consideramos o" bem” dos filhos muitas vezes não o é. Tem a ver com nosso caprichos, nossas verdades e ou distorções vividas no tempo em que e éramos pequenos. É bom ficarmos alertas também em relação ao valor do dinheiro e ao valor da vida. Se a gente ensina, e muito cedo para uma criança que o dinheiro é tudo, fica muito difícil desconstruir isto depois. Por isso desaconselho uma educação que associe cada vitória do filho a um valor em dinheiro ou a um bem material. Ora, quem passa de uma ano para o outro, ganhou mais um degrau na escala do seu estudo, quem tira boas notas ganhou o reconhecimento do seu saber, quem entra numa faculdade ganhou a faculdade. Quero dizer que a conquista pode ser reconhecida com tal. Já é conquista em si, não precisa de uma bicicleta , um carro , uma grana pára confirmá-la. Que se presenteie os nossos herdeirozinhos com o que quisermos e à hora que bem entendermos, mas é preciso que ensinemo-los o gosto da realização onde o dinheiro não seja o motivo da glória. O engraçado é que depois ,a mesma sociedade se espanta quando um jovem é capaz de vender a mãe ou o pai, quando ela mesma foi quem ensinou a este ser , desde novinho, que o dinheiro era coisa mais importante do mundo. Não é, por isso é melhor ser do que ter.

No mesmo olhar, observo a erotização dos pequenos pela mídia e, principalmente, pelos pais. É chocante! Outro dia visitei uma amiga: “Esse é meu netinho, quer ver o luluzinho dele, Elisa? Mostra, meu amor, a ela?” Enquanto falava, a avó pegava nas partes do menino; este, constrangido, no auge dos seus seis anos de idade, me olha desamparado por dentro. “Não quero ver não, Fátima, vim aqui pra ver você”.O neto pôs as mãozinhas em prece, me agradeceu com este gesto e saiu correndo livre para brincar. Eu disse para ela: “Não invada assim uma criança!” “O que é que tem? É brincadeirinha.” “E se fosse um avô bolinando uma menina? Aí seria abuso?”, retruquei. Minha amiga fez uma cara de quem nunca tinha refletido sobre isso e me agradeceu o esclarecimento.

Atenção pais, parentes e adultos próximos: beijar, tocar, estimular a intimidade sexual, de modo a excitar, não é coisa pra se fazer com quem não tem essa atividade e nem dela pode dar conta ainda.Sei que nenhum responsável quer conscientemente o mal para seus frutos, por isso escrevo este alerta. Sei que essas atitudes são feitas sem pensar e sem querer. Na maioria das vezes queremos acertar, estar dentro do nosso tempo e sua moda. Mas a mais inocente criatura, quando se torna criadora, deve produzir uma preservação saudável e não perversa da infância de sua prole. Precisamos garantir este tempo para nossos filhos. Uma menina que faz cutícula com oito anos, quando estiver com doze será como se já fosse mulher há muito tempo, estará quase cansada de sê-lo , talvez. E depois, quem vai devolver a ela seu pedaço de infância roubado?Crianças estão sendo tornadas adultas cedo demais, como no tempo dos pequenos imperadores, que pingos de gente ainda, já eram coroados reis aos cinco anos. Os adultos estão apressando as coisas .Quando um menino ou uma menina começa a gostar e a conhecer um amiguinho novo, sem ainda saber o nome daquele sentimento, sem ainda intencionar classificá -lo ,os pais já sentenciam: “Estão namorando!”.Já vi isso acontecer com criancinhas de fralda ainda, que mal sabem falar , recebendo o rótulo de uma vida adulta sobre seu inocente gesto ainda sem nome.Criança não namora, a não ser que esteja sendo obrigada a adultecer antes da hora.

6 comentários

quinta-feira, 4 de março de 2010
Mestra Coralina do baralho bom
Um professor é muito importante na vida de um ser humano. É a única profissão que a gente chama sempre de mestre porque é a que ensina todos os outros ofícios. Na exposição que vi no museu da língua, em São Paulo, sobre a vida de Cora Coralina, fiquei horas em pé vendo um vídeo dela. Já bem velhinha com seus noventa e poucos anos e uma aguçada lucidez, ela nos conta com muita clareza que foi uma menina muito pobre e com sérias dificuldades de aprendizagem, mas cujas possibilidades uma professora antevira, mudando assim seu destino.

Esta goiana, escritora, maravilhosa, quando menina recebeu o olhar atento e a instrução de uma mestra que, ao avistar seus limites, decidiu em escola pública, dedicar-se meia hora depois do horário a esta frágil aluna. Sei, que a despeito de toda natural sensibilidade da especial e natural inteligência dessa menina, a ação amorosa e de excelência profissional desta professora foi quem regou aquele fértil jardinzinho, foi a professora Silvina que deu partida àquele coração tão prenhe de poesia. Munida de palavras e outras informações letivas, Coralininha abriu cada vez mais portas para sua sabedoria reinar. A exposição é cheia de versos lindos, sábios, vividos expostos nos escritos pelos emocionantes cadernos brotados dos seus céus e dos seus infernos. Alguns, ó poesia infinita de tudo, bordados em pontos de cruz em marcas sobre os linhos, paninhos de prato no coração de algodão da gente.

Fiquei mesmo impactada como vos relato aqui, pois, ao ouvir a aula de vida dessa hoje senhora eterna Cora Coralina, ao ouvir lições que clareiam toda vida, me sinto beijada no centro de minha emoção. Há uma parte em que ela fala que hoje ,do alto da sua lira dos noventa e tais anos, pode afirmar que a melhor idade são os cinqüenta anos e vai nos explicando como uma dedicada professora, como e porque. Vou tentar contar com as minhas palavras o que eu acho que ela diz com as dela. Que algumas evidencias, por tanto se exibirem em nossas cenas diárias, nessa idade, já podem ser logo reconhecidas como certezas, atingiram a substância desse nome. _Oha lá aquilo é uma certeza , eu tenho certeza, pensamos. Nessa, teoricamente falando, metade da vida, algumas ingenuidades não fazem mais tanto sucesso e vão caçar outro bobo. Ao redor essa hora, já temos maior visibilidade da viagem, caímos com menos facilidade, ou ainda facilmente despencamos, mas nos levantamos com extrema rapidez e maestria, diferente dos abismos do começo da viagem.

Os mesmos erros nos enganam menos, e o que foi uma vez chama não se apaga mais; transmuta-se.Tudo isso dizia na aula, na aula dela que assisti de pé no museu e prossegue, alada de uma segurança impressionante a mestra rainha vai esclarecendo seus mistérios e distribuindo-nos seus preciosos achados, uma coisa gostosa como uma merenda escolar de tarde. Me comove. Diz que uma vez embarcados, nesta teoricamente metade de nossa vida, nosso olhar já alcança a extensão dos mares avançados, já dá pra ver o estampado do tabuleiro. E aí é que Dona Cora Coralina vem bombástica: agora tem uma coisa, os cinqüenta anos segundo suas agudas observações, duram vinte e cinco anos, você leva vinte e cinco anos tendo cinqüenta anos, ou seja, vai até os setenta e cinco exatamente a idade em que publiquei meu primeiro livro, afirma Coralinda. Achei muito fundamental a lição, e então apurei melhor o ouvido, estiquei mais o tecido, abri o pensamento dela para ver dentro os detalhes.

De súbito, realizei que, se entendi bem essa é hora de pegarmos o “morto” como no jogo do buraco. Nossas jogadas estão encaminhadas e as cartas dispostas à mesa. Várias jogadas começadas, armadas, faltando apenas o Ais de uma, o Sete de outra, um valetezinho que chegue já resolve vários problemas. Como ninguém sabe o que veio no novo monte que a gente acabou de pegar, nos olham conferindo-nos alguma autoridade e temos vinte e cinco anos para limpar nossas canastras e levar o jogo. Foi isso que aprendi nesse dia no Museu da Língua às vésperas do dia 15 de outubro que comemora o professor. Para continuar a aula, se dessa crônica você gostou espalhe-a entre seus amigos, mas usando as suas palavras, por favor.

3 comentários


David Lima

A Laranja de
David Lima


Daniel Rolim
Cavaleiro Andante


Abril 2009
Maio 2009
Junho 2009
Julho 2009
Agosto 2009
Fevereiro 2010
Março 2010

   
 

Count


Clique para receber notícias de atualização do blog