Dobro a esquina sagrada da minha rua Sacopã. É doce o arado do dia. Reinaldo está ali a labutar, artístico, no tear de suas cadeiras de palhinha onde se sentam as damas ricas da nobre rua. Estou entre elas porque já comprei uma cadeira dele, e também sentei. É sua, ele disse, é de rainha. Achei bonito o jeito de vender. Sou fraca para estilos, comprei. Reinaldo é meu comentarista poético do tempo. O tempo, é vasto, é grande, mas tratamo-lo, amiúde, pela palavra dia. É uma boa palavra. Pequena palavra de três letras, onde cabe tudo. Na pequena palavrinha cotidianíssima cabem os acontecimentos concomitantes da humanidade. Descobri que tem muita gente que não sabe o significado desta palavra. Concomitante é o que acontece ao mesmo tempo, meu querido. Digo isso só para os que não sabem. Os que sabem, que se calem e não se ofendam. Reinaldo, hoje o dia está um gato! Depois que eu disse isso uma só vez, ele nunca mais esqueceu. Entendeu o conceito. E é o primeiro a identificar um dia assim, quando nele passo de bicicleta ou à pé. Ele é minha gente boa. Outro dia me disse emocionado: trabalho aqui há dezesseis anos nessa rua. Moro lá em Nova Iguaçu, como você sabe. Arranjo empregada de confiança pras madame toda daqui, mas você, que nunca me pediu nada, é a única que sabe o meu nome e sabe de mim. Sabe até que eu sou avô. Decorou até o nome do meu neto! Levo o lisonjeio que agradeci com um sorriso manso de receber aquilo, aquele buquê de palavras.
Logo chego à Lagoa. O que se descortina é um bálsamo esplendoroso no limiar do asfalto, no meio da cidade maravilhosa também por isso. Sabia que a Lagoa chamava-se Sacopã? Depois é que virou o nome desse Rodrigo de Freitas. Não sei de detalhes, nem vou investigar isso, pra esse tema não trago nenhuma justificativa histórica na bagagem. Teço a aragem do que vejo, teço o arpejo que o tempo escorre na minha cara. Invade a cena uma mulher deficiente, na cadeira de rodas, acompanhada por um casal com cara de dupla companhia. É Dona Herotildes Brandão Bueno, com seu pijama de malha fina revelando a ossatura dos joelhos esqueléticos. Está sendo levada ao sol. Fala com dificuldade. Passei delas e deles. Preciso olhar para trás para confirmar o tecido do pijama, já que me pareceu ser de malha, mas pode ser de seda e não me interessa errar. Nasce o dilema: como olhar de novo, como deitar o olhar de conferência sobre a cena, sem ofender o alvo? Sem parecer que reparo morbidamente a caminhada de uma cadeirante ao legítimo sol de todos? Resolvo disfarçar. Jogo no chão minha agenda e olho com olhos de “iih caiu”. Me inclino para pegá-la. Uma chegada rápida do olho ao canto, e pronto, está conferida a dúvida. Uma ex-dúvida. É malha mesmo, mas com fios de seda. Ela tem unhas muito bem feitas, deu para reparar no caminho de volta que o olhar fez. Outra coisa eu li na breve mirada: é mãe de Afonso, Glória e Carlos Alberto Brandão Bueno Júnior. Herô se cuida. Exige a manicure. Pra quê? Pra passear ao sol da Lagoa e pra que eu repare. É certo que não nos conhecemos. Ela passa e eu aqui, a revelo a todos, de um modo muito à vontade, como se a inventasse. Quem saberá? A câmera segue com seus dois olhos e uma mente que faz filme na película da palavra. Ouço, então, uma voz linda, clara, alta, quente, escaldante, cheia. Chega até mim cantando “garota dourada quero ser seu irmão, namorado...”. Meu olhar encontra a voz. O dono da voz. É um homem vestido de uma reluzente roupa cor-de-abóbora, olhando para o céu. Cantando para o céu azul. O boné inclinado acompanhando a direção da cabeça para o infinito. É um gari alegre e muito afinado. Um gari sem nome para mim. Eu ponho nome nele: é Antonio, o inesperado das manhãs. Está ali para me dizer que a vida pulsa em toda a gente. Para me dizer que ele, o homem que cuida do lixo que desprezo, está feliz. Antonio, ninguém duvida, traz um amor dentro do peito, nem que seja Maria, nem que seja Diva, nem que seja a Vida.
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Cinqüenta e duas flexões para manter o pensamentinho em forma nesse verão. Foi vindo das águas baianas que esse pensamento como um título se aboletou na minha cabeça. A história começa com a decisão de passar o meu aniversário na Casa de Yemanjá na praia do Rio Vermelho, no bairro dela.Salvador recebe um furor de gente e emoção vinda de toda parte para obedecer Caymi e salvar Yemanjá. Fui na alvorada, ao que minha amiga preta baiana, a Silvia Rita, iluminou: tirei o dia pra você, viu bruxinha? mas olhe vá, no cortejo às quatro da manhã. Lá fui eu, toda de branco naquele azul de madrugada que só se vê em filme. Duas mil pessoas, senhoras, homens, moças, devotos com seus balaios entremeados com fita de cetim e florezinhas de pano em volta; dentro desses cestos de delicadeza, renda e vime, toda sorte de presente pra ela se enfeitar: pente, champagne, perfume, milhares de flores, imagens, bonequinhas vestidinhas de azul, brincos, colares,pulseiras, cartas bilhetes;um homem derrama um vidro de alfazema na minha cabeça, alguém diz “cuidado com o olho!” Ainda bem que meu plano espiritual tem cobertura ótica e a santa protegeu. Ialorixás, babalorixás, truqueiros se revezavam em suas indumentárias e folhas de aroeiras dando passe à cinco reais. Em cima da pedra, olhando pras pétalas brancas e amarelas das rosas desmanchadas no mar, subitamente meu coração percebeu que aqueles milhares de balaios do cortejo eram uma reserva enorme de esperança. As oferendas que seguiriam nos barcos para a rainha do mar eram de agradecimento para a mais democrática dos orixás.
Yemanjá ,pra quem não sabe, seu mito reza que é a dona das cabeças, a mãe da diversidade, a responsável pelo único exemplar que somos de nós mesmos. Então, no coração, pulsou uma gratidão, um sentimento de filha que agradece à vida seus dons. Fiquei constrangida de pedir, visto que é festa de agradecer, pensei que sou cheia de graça, sei fazer tanta coisa, até cozinhar! Aí uma vontade de chorar assumiu de baixo pra cima diafragma, laringe, faringe, a garganta, toda a estrada inversa até a boca era um nó do rio de choro se formando em mim que ali empacou. Nisso, uma moça me dá dois tapinhas no ombro: Posso te dar um abraço? Não titubeei,aproveitei que não a conhecia, desembarquei em seus braços e ali derramei meu pranto. Por essa ela não esperava, e aquilo ,mais aumentava o sentimento de solidariedade,o poderoso e antibélico amor entre irmãos. Me debulhei. Sem economizar ,meu peito dava solavancos pra sair ,sabe Deus lá o quê, havia nele. Era alegria, emoção, mas havia também resíduos de guerras cotidianas, sobras das revoluções. Ela agüentou firme, acolheu meu jorro. Cinco minutos eternos depois desse estridente silêncio, só consegui falar ,como se tivesse cinco anos: é meu aniversário. Ela enxugou minhas lágrimas,disse que era cantora, que era minha fã, e me amava. Perguntei seu nome, era Amanda Dantas, um nome lindo que rimava . A festa é profana e sacra o show de hibridismo pode encontrar uma banca onde tem camisa de Yemanjá e de Michael Jackson, a gente fica sem saber quem é orixá ,quem é popstar. Quer dizer é tudo junto e misturado, é gente de biquíni, é gente incorporada. Talvez seja esta a mais inocente das macumbas, pois o mais descrente dos fiéis, ao menos uma florzinha no mar já jogou. Voltei na limpa manhã do dia seguinte com mais mimos nos braços e um homem se aproxima de mim: Aceita um barquinho, mainha? Era tudo que eu queria, pensei, um barquinho pequenininho de madeira, um brinquedo azul e branco aonde eu pudesse acomodar minha prendas. Deixa eu ver?O barqueiro então estendeu a mão para o mar, “É só escolher”.O homem falava era de barco de verdade, meus olhos letrados varreram a paisagem; Lorena, Deus guia, Me enganei, eram nomes dos barcos ancorados no azul.
No Lorena,Eduardo, o pescador, me levou então ao meio do mar pra saudar odoyá, visto que esse assunto e´mais cultural que religioso.Fixei que vale transitar no acaso, flexionar o pensamento para promover o inesperado ,que vai do chorar nos braços do desconhecido até ir parar sem planejar no meio do oceano com um homem que me ofereceu um barco que não pedi. Como hipérbole, falei cinqüenta e duas flexões porque é a minha idade de agora, mas para nos manter maleáveis, com o pensamento em dia , aconselho mesmo esses exercícios que aumentem a nossa extensão. O óbvio é bom mas há diversão fora dele. E tem mais, de tanto repetir as flexões elas se transformam em re -flexões.
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