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quinta-feira, 4 de março de 2010
Mestra Coralina do baralho bom
Um professor é muito importante na vida de um ser humano. É a única profissão que a gente chama sempre de mestre porque é a que ensina todos os outros ofícios. Na exposição que vi no museu da língua, em São Paulo, sobre a vida de Cora Coralina, fiquei horas em pé vendo um vídeo dela. Já bem velhinha com seus noventa e poucos anos e uma aguçada lucidez, ela nos conta com muita clareza que foi uma menina muito pobre e com sérias dificuldades de aprendizagem, mas cujas possibilidades uma professora antevira, mudando assim seu destino.

Esta goiana, escritora, maravilhosa, quando menina recebeu o olhar atento e a instrução de uma mestra que, ao avistar seus limites, decidiu em escola pública, dedicar-se meia hora depois do horário a esta frágil aluna. Sei, que a despeito de toda natural sensibilidade da especial e natural inteligência dessa menina, a ação amorosa e de excelência profissional desta professora foi quem regou aquele fértil jardinzinho, foi a professora Silvina que deu partida àquele coração tão prenhe de poesia. Munida de palavras e outras informações letivas, Coralininha abriu cada vez mais portas para sua sabedoria reinar. A exposição é cheia de versos lindos, sábios, vividos expostos nos escritos pelos emocionantes cadernos brotados dos seus céus e dos seus infernos. Alguns, ó poesia infinita de tudo, bordados em pontos de cruz em marcas sobre os linhos, paninhos de prato no coração de algodão da gente.

Fiquei mesmo impactada como vos relato aqui, pois, ao ouvir a aula de vida dessa hoje senhora eterna Cora Coralina, ao ouvir lições que clareiam toda vida, me sinto beijada no centro de minha emoção. Há uma parte em que ela fala que hoje ,do alto da sua lira dos noventa e tais anos, pode afirmar que a melhor idade são os cinqüenta anos e vai nos explicando como uma dedicada professora, como e porque. Vou tentar contar com as minhas palavras o que eu acho que ela diz com as dela. Que algumas evidencias, por tanto se exibirem em nossas cenas diárias, nessa idade, já podem ser logo reconhecidas como certezas, atingiram a substância desse nome. _Oha lá aquilo é uma certeza , eu tenho certeza, pensamos. Nessa, teoricamente falando, metade da vida, algumas ingenuidades não fazem mais tanto sucesso e vão caçar outro bobo. Ao redor essa hora, já temos maior visibilidade da viagem, caímos com menos facilidade, ou ainda facilmente despencamos, mas nos levantamos com extrema rapidez e maestria, diferente dos abismos do começo da viagem.

Os mesmos erros nos enganam menos, e o que foi uma vez chama não se apaga mais; transmuta-se.Tudo isso dizia na aula, na aula dela que assisti de pé no museu e prossegue, alada de uma segurança impressionante a mestra rainha vai esclarecendo seus mistérios e distribuindo-nos seus preciosos achados, uma coisa gostosa como uma merenda escolar de tarde. Me comove. Diz que uma vez embarcados, nesta teoricamente metade de nossa vida, nosso olhar já alcança a extensão dos mares avançados, já dá pra ver o estampado do tabuleiro. E aí é que Dona Cora Coralina vem bombástica: agora tem uma coisa, os cinqüenta anos segundo suas agudas observações, duram vinte e cinco anos, você leva vinte e cinco anos tendo cinqüenta anos, ou seja, vai até os setenta e cinco exatamente a idade em que publiquei meu primeiro livro, afirma Coralinda. Achei muito fundamental a lição, e então apurei melhor o ouvido, estiquei mais o tecido, abri o pensamento dela para ver dentro os detalhes.

De súbito, realizei que, se entendi bem essa é hora de pegarmos o “morto” como no jogo do buraco. Nossas jogadas estão encaminhadas e as cartas dispostas à mesa. Várias jogadas começadas, armadas, faltando apenas o Ais de uma, o Sete de outra, um valetezinho que chegue já resolve vários problemas. Como ninguém sabe o que veio no novo monte que a gente acabou de pegar, nos olham conferindo-nos alguma autoridade e temos vinte e cinco anos para limpar nossas canastras e levar o jogo. Foi isso que aprendi nesse dia no Museu da Língua às vésperas do dia 15 de outubro que comemora o professor. Para continuar a aula, se dessa crônica você gostou espalhe-a entre seus amigos, mas usando as suas palavras, por favor.

2 comentários


David Lima

A Laranja de
David Lima


Daniel Rolim
Cavaleiro Andante


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