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Logo chego à Lagoa. O que se descortina é um bálsamo esplendoroso no limiar do asfalto, no meio da cidade maravilhosa também por isso. Sabia que a Lagoa chamava-se Sacopã? Depois é que virou o nome desse Rodrigo de Freitas. Não sei de detalhes, nem vou investigar isso, pra esse tema não trago nenhuma justificativa histórica na bagagem. Teço a aragem do que vejo, teço o arpejo que o tempo escorre na minha cara. Invade a cena uma mulher deficiente, na cadeira de rodas, acompanhada por um casal com cara de dupla companhia. É Dona Herotildes Brandão Bueno, com seu pijama de malha fina revelando a ossatura dos joelhos esqueléticos. Está sendo levada ao sol. Fala com dificuldade. Passei delas e deles. Preciso olhar para trás para confirmar o tecido do pijama, já que me pareceu ser de malha, mas pode ser de seda e não me interessa errar. Nasce o dilema: como olhar de novo, como deitar o olhar de conferência sobre a cena, sem ofender o alvo? Sem parecer que reparo morbidamente a caminhada de uma cadeirante ao legítimo sol de todos? Resolvo disfarçar. Jogo no chão minha agenda e olho com olhos de “iih caiu”. Me inclino para pegá-la. Uma chegada rápida do olho ao canto, e pronto, está conferida a dúvida. Uma ex-dúvida. É malha mesmo, mas com fios de seda. Ela tem unhas muito bem feitas, deu para reparar no caminho de volta que o olhar fez. Outra coisa eu li na breve mirada: é mãe de Afonso, Glória e Carlos Alberto Brandão Bueno Júnior. Herô se cuida. Exige a manicure. Pra quê? Pra passear ao sol da Lagoa e pra que eu repare. É certo que não nos conhecemos. Ela passa e eu aqui, a revelo a todos, de um modo muito à vontade, como se a inventasse. Quem saberá?
A câmera segue com seus dois olhos e uma mente que faz filme na película da palavra. Ouço, então, uma voz linda, clara, alta, quente, escaldante, cheia. Chega até mim cantando “garota dourada quero ser seu irmão, namorado...”. Meu olhar encontra a voz. O dono da voz. É um homem vestido de uma reluzente roupa cor-de-abóbora, olhando para o céu. Cantando para o céu azul. O boné inclinado acompanhando a direção da cabeça para o infinito. É um gari alegre e muito afinado. Um gari sem nome para mim. Eu ponho nome nele: é Antonio, o inesperado das manhãs. Está ali para me dizer que a vida pulsa em toda a gente. Para me dizer que ele, o homem que cuida do lixo que desprezo, está feliz. Antonio, ninguém duvida, traz um amor dentro do peito, nem que seja Maria, nem que seja Diva, nem que seja a Vida.
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