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sábado, 6 de fevereiro de 2010
Aceita um barquinho?
Cinqüenta e duas flexões para manter o pensamentinho em forma nesse verão. Foi vindo das águas baianas que esse pensamento como um título se aboletou na minha cabeça. A história começa com a decisão de passar o meu aniversário na Casa de Yemanjá na praia do Rio Vermelho, no bairro dela.Salvador recebe um furor de gente e emoção vinda de toda parte para obedecer Caymi e salvar Yemanjá. Fui na alvorada, ao que minha amiga preta baiana, a Silvia Rita, iluminou: tirei o dia pra você, viu bruxinha? mas olhe vá, no cortejo às quatro da manhã. Lá fui eu, toda de branco naquele azul de madrugada que só se vê em filme. Duas mil pessoas, senhoras, homens, moças, devotos com seus balaios entremeados com fita de cetim e florezinhas de pano em volta; dentro desses cestos de delicadeza, renda e vime, toda sorte de presente pra ela se enfeitar: pente, champagne, perfume, milhares de flores, imagens, bonequinhas vestidinhas de azul, brincos, colares,pulseiras, cartas bilhetes;um homem derrama um vidro de alfazema na minha cabeça, alguém diz “cuidado com o olho!” Ainda bem que meu plano espiritual tem cobertura ótica e a santa protegeu. Ialorixás, babalorixás, truqueiros se revezavam em suas indumentárias e folhas de aroeiras dando passe à cinco reais. Em cima da pedra, olhando pras pétalas brancas e amarelas das rosas desmanchadas no mar, subitamente meu coração percebeu que aqueles milhares de balaios do cortejo eram uma reserva enorme de esperança. As oferendas que seguiriam nos barcos para a rainha do mar eram de agradecimento para a mais democrática dos orixás.

Yemanjá ,pra quem não sabe, seu mito reza que é a dona das cabeças, a mãe da diversidade, a responsável pelo único exemplar que somos de nós mesmos. Então, no coração, pulsou uma gratidão, um sentimento de filha que agradece à vida seus dons. Fiquei constrangida de pedir, visto que é festa de agradecer, pensei que sou cheia de graça, sei fazer tanta coisa, até cozinhar! Aí uma vontade de chorar assumiu de baixo pra cima diafragma, laringe, faringe, a garganta, toda a estrada inversa até a boca era um nó do rio de choro se formando em mim que ali empacou. Nisso, uma moça me dá dois tapinhas no ombro: Posso te dar um abraço? Não titubeei,aproveitei que não a conhecia, desembarquei em seus braços e ali derramei meu pranto. Por essa ela não esperava, e aquilo ,mais aumentava o sentimento de solidariedade,o poderoso e antibélico amor entre irmãos. Me debulhei. Sem economizar ,meu peito dava solavancos pra sair ,sabe Deus lá o quê, havia nele. Era alegria, emoção, mas havia também resíduos de guerras cotidianas, sobras das revoluções. Ela agüentou firme, acolheu meu jorro. Cinco minutos eternos depois desse estridente silêncio, só consegui falar ,como se tivesse cinco anos: é meu aniversário. Ela enxugou minhas lágrimas,disse que era cantora, que era minha fã, e me amava. Perguntei seu nome, era Amanda Dantas, um nome lindo que rimava . A festa é profana e sacra o show de hibridismo pode encontrar uma banca onde tem camisa de Yemanjá e de Michael Jackson, a gente fica sem saber quem é orixá ,quem é popstar. Quer dizer é tudo junto e misturado, é gente de biquíni, é gente incorporada. Talvez seja esta a mais inocente das macumbas, pois o mais descrente dos fiéis, ao menos uma florzinha no mar já jogou. Voltei na limpa manhã do dia seguinte com mais mimos nos braços e um homem se aproxima de mim: Aceita um barquinho, mainha? Era tudo que eu queria, pensei, um barquinho pequenininho de madeira, um brinquedo azul e branco aonde eu pudesse acomodar minha prendas. Deixa eu ver?O barqueiro então estendeu a mão para o mar, “É só escolher”.O homem falava era de barco de verdade, meus olhos letrados varreram a paisagem; Lorena, Deus guia, Me enganei, eram nomes dos barcos ancorados no azul.

No Lorena,Eduardo, o pescador, me levou então ao meio do mar pra saudar odoyá, visto que esse assunto e´mais cultural que religioso.Fixei que vale transitar no acaso, flexionar o pensamento para promover o inesperado ,que vai do chorar nos braços do desconhecido até ir parar sem planejar no meio do oceano com um homem que me ofereceu um barco que não pedi. Como hipérbole, falei cinqüenta e duas flexões porque é a minha idade de agora, mas para nos manter maleáveis, com o pensamento em dia , aconselho mesmo esses exercícios que aumentem a nossa extensão. O óbvio é bom mas há diversão fora dele. E tem mais, de tanto repetir as flexões elas se transformam em re -flexões.

5 comentários


David Lima

A Laranja de
David Lima


Daniel Rolim
Cavaleiro Andante


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