No quesito palavras, não poderei deixar de fora o mestre, o sinistro, o doce, o denso, e às vezes ensurdecedor, silêncio. Ô bichinho para falar, sô! Quem nunca sentiu o perigo que se anuncia no meio de uma conversa, como tapete vermelho de um segredo, ante-sala de uma revelação? E mais, quem conhece o silêncio? Existe, na categoria de absoluto? Uma vez fiquei, por sete dias, numa altura que nem tenho aritmética para contar, entre montanhas, na parte mais alta de um mosteiro em Ibiraçú, no meu lindo Espírito Santo, escrevendo uma série para crianças, chamada Amigo Oculto. O silêncio que me envolvia era muito animado. Fora a voz forte e muda das rochas, que, embora subjetiva, não deixa de ser voz por isso, se juntava a ela as MPB's dos passarinhos tropicais, os ventos em modalidades de quem viaja com passaporte vermelho de diplomata e, venham de onde vier, ninguém os detém; chuvas percussionistas com seus tambores de trovões e seus batuques nas folhas, somadas à toada de aplausos que os pingos costumam produzir. À noite, grilos, sapos, cobras - e até sacis - dentro da escuridão, garantiam a presença da hóspede dentro dos aposentos, habitando o planeta denso dos sons que moram nas cordilheiras. Um grupo que meditava na parte baixa do mosteiro me encontrou no sexto dia e uma moça me perguntou: "Você está aqui sozinha? Eu não aguentaria esse silêncio não, ele ia me matar!". Talvez ela tenha querido dizer que, num lugar desses, os nossos interiores, vendo a casa sem vigia, vêm para fora e se pode até ficar sem falar com os outros, mas a conversa não para. O assunto emerge derramado pra fora aproveitando a solidão, usando o som do mato sem a voz e o olhar do outro por perto. Tomemos especial reparo ao que chamam silêncio de praias desertas. Qual? O das intermitentes águas e vagas, com seus abdomens de altíssimo paredão que espocam na arrebentação pra virar branca espuma, o dos ventos assobiando nos lençóis arenosos. E o que é o silêncio das fazendas, tecidos de mugidos de boi e grunhidos de porcos, arrematados pela lâmina afinada das manhãs dos galos? Bem, está porto que a densidade sonora dele existe e atua. Mas, quando se ajeita no meio da comunicação entre os seres, aí este senhor se esbalda. Tanto é que há quem tenha medo de nele cair. Ou, às vezes, a gente sabe que, se deixar o silêncio ali entre os dois amantes, dois amigos ou dois inimigos, este danado a quem ninguém nada explicitamente perguntou, falará. E, mesmo não consultado, gritará. Está a serviço da verdade e dela se vale para, sem voz, entregar, testemunhar, confirmar o que nenhum dos dois ousara dizer. Quando se pergunta qualquer coisa, "você vai ou não vai viajar comigo?", "você abriu minha correspondência?". Ora, sabemos que se, antes de abrirmos a boca, fizermos uma pausa (pequeno intervalo fabricado com tecido silente), ela pode já significar a resposta, pode antecipá-la antes do som. Um "tu me amas" perguntado, que recebe de volta uns olhos cabisbaixos e lábios mudos pode querer acabar de vez e tristemente com a dúvida do perguntador. Como o silêncio, sem nada falar, tudo diz, vibra como enviado do que é e que ainda não foi dito. Reina nos lugares aonde palavras ludibriadoras tentam de todo meio e sorte encobri-lo, catá-lo. Logo a ele que tem o mesmo poder de ação de um verbo proferido. Particularmente, acho que silêncio cada um tem o seu. Uns são longos, chatos, vazios que dispersam o interlocutor. Outros, espertos, curiosos, inteligentes, dramáticos, surpreendentes e cômicos, resultam generosos na elucidação da narrativa. De minha parte, que dentro de tantos inquietos sossegos, escrevo, e deles tanto me valho no palco e na vida, dou meu troféu para aquela qualidade de silêncio que se faz presente no fim de uma conversa depois de uma palavra que, além de ofender, é injusta. Quando alguém, na maldade impensada das crueldades cotidianas, diz: "Você foi VIL", e você, ao invés de revidar logo, de se defender, de se estabanar para provar sua inocência, deixar apenas que o silêncio mova lentamente sua longa cauda, e, sob seu contraste, acentue e dê moldura à palavra VIL, esta ficará ecoando, cortante, dilacerante, protagonista como a última e infeliz palavra da mesa, a última carta do jogo da oralidade. O silêncio vira fundo para que a palavra e seus sentidos reverberem tanto, gemam tanto os seus intentos, de modo que, caso o dono dela a garanta, caso tenha sido realmente leviano, Dr. Silêncio, neste caso, é professor na artimanha de devolvê-la em efeito bumerangue ao seu dizedor, que fica perdido no lago do silêncio que o outro fez. A palavra volta para a boca de quem a proferiu, mas volta , às bofetadas, caramelada de caco de vidro e com o rabo entre as pernas de quem ficou sem ambiente. Há casos de o dono da palavra não ter outra saída, a não ser arrepender-se amargamente do que disse. Quando estamos corajosos, recolhemo-na a tempo e abrimos imediatamente nosso processo de pedido de perdão por termos errado, escolhido a má palavra. Quando estamos covardes, negamos tudo, até a autoria, no desespero encoberto pela cara de pau: "quem disse isso? Você está distorcendo. Eu não disse que você era vil, eu disse 'você viu'. Entendeu agora?". Inúteis os artifícios. Natural dublê da verdade, o silêncio é o discurso dos inocentes e sempre falará como o personagem mudo de texto mais contundente; aquele que, sem máscara ou forma, rouba a cena e talvez seja o mais eloquente que há. Acho que quero dizer que o silêncio, no tempo e no espaço, é o mais concreto dos abstratos.Marcadores: Crônicas
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Tenho meditado muito sobre o poder da palavra. A coisa é tão grandiosa e potente que até me sinto menor do que ela agora no momento em que dela me valho para descrevê-la com seus ornamentos e merecimentos no meu peito. Respeito-a como a parte mais concreta de uma subjetividade. Ao nomear e representar sentimentos presentes e coisas ausentes, desejos e intenções, a palavra adquiriu status de ação, por isso dizemos e pedimos: "Você me perdoa? Quero ouvir você dizer". Por isso uma oração pode ferir, matar, ofender, condenar, perjurar. O meu tesão por ela vem de muito tempo, quando na infância que meus pais trataram de fazer habitada por música popular, livros e quintais, eu lia "Emília no país da gramática", de Monteiro Lobato, não havia quem me tirasse da cabeça (intimamente, porque isso eu não confessava), que Emília era eu; nem precisava começar com E também, mas começava. Enquanto isso, meu pai nos educava com seu refinado bom humor cotidiano, como se brincasse. Se eu entrasse em casa esbaforida dizendo: "Ai, mãe! Quando está quente aqui eu sôo". Meu pai, de onde ouvisse, retrucava, imlacável e divertido, embora sério: "Realmente eu escutei, e soa alto, hein!? Blém, blém, blém." E ainda completava: "O sino é que sua em cima da igreja, não é, minha filha?" Não sei porque, mas aquela didática deixava tão claro que era ao contrário que eu nunca mais errava. Muito cedo percebi que as palavras produziam imagens, mundos, viagens. Como estudava declamação desde os 11 anos, cresci reconhecendo as palavras como paisagens, comunidades, verdade simbólica da convivência humana. O amor pela minha língua pátria, mãe do meu pensamento, organizadora do meu discurso, tradutora de minha identidade, explicadora de meus processos, me pegou de jeito tal, que amei até análise sintática! Entendi, como até hoje entendo, o sujeito como senhor da oração, o verbo como senhor da ação, os adjetivos dando qualidade a tudo, os substantivos concretos e abstratos, fazendo as coisas terem consistência; as conjunções, como neurônios, dando liga e posição circunstancial de sentido a cada oração, das subordinadas às principais. Estudar português era realmente uma festa para mim. Se chovia, o que meus olhos de menina viam naquele céu cinza era o acontecimento chique de uma oração sem sujeito. A pontuação era, com até hoje é, para mim um capítulo à parte. Quem diz um poema ou quem lê alguma coisa para que o outro escute, deve entender a pontuação como sinais de trânsito da estrada literária. O dizedor está levando o outro pela mão. A segurança da viagem está garantida por esses símbolos; eles nos levam a respirar brevemente nas vírgulas, a dar a partida demonstrativa dos dois pontos, a reservar informações no sussurro dos parênteses, a entoar a música das perguntas nas interrogações. Uma pontuação divorciada do caminho daquele rio de palavras, da história que ali dentro corre, pode inviabilizar a viagem; quem escuta não entende, não vê a película do filme mediato que a palavra bem dita provoca na imaginação. Portanto, guardo a certeza de que falta ao brasileiro, principalmente em idade escolar, um ensino de nossa língua apaixonado por ela. Sei que isso faz a diferença, porque "quem tem boca vai a Roma" só por causa do que sabe e pode dizer. É seu estoque verbal e a organização dele flúida e firme que funciona entre humanos, do planeta inteiro, como chave. Abre portas, salva, desconcerta, inquire, prova. Na mão dela me agarro e dela me cubro para cruzar os salões do mundo diversificado que frequento. Nesse verão, a cena que ilustra o fat foi sob o sol de Ipanema, domingo de praia lotada, e um homem com uma onda muito esquisita se aproximou de mim dizendo que me conhecia, como quem quisesse pegar meu celular, mas fingindo que estava me dando a mão. Nunca sofri um assalto, mas , ainda que aquilo não fosse uma possível tentativa, o astral de toda suspeita mise en cène fez minha intuição gritar. Pedi que ele saísse do meu lado, que eu não o conhecia nem estava interessada, gostaria que ele se afastasse. Ele disse que não, e com o olhar de quem nunca tinha me visto, afirmou: "Te conheço!". Vocês sabem, os olhos também falam, e os dele diziam outra coisa. Nesse momento tive uma ideia, olhei para além dele, como se mirasse alguém a uma certa distância atrás do meu antagonista, e fiz um sinal como quem diz "me aguarde", com a palma da mão. Voltei os olhos para dentro do dele e disse, sem duvidar de nenhuma palavra saída de minha boca: "Meu marido já te viu e eu te peço, não por você, por mim, vai embora sem olhar pra trás". Sem tirar seu olhar do meu, seus ombros perderam a empáfia, houve um certo quebranto nas pernas da agressividade dele, que, ato contínuo, se rendeu ainda tentando negar: "Não acredito em você não, mas vou me retirar". Pois hoje meu tributo é a esta bandeira. Que a palavra circule viva, nas salas da aula brasileiras, para que possa ser, realmente, a mãe, o porto seguro, a provedora de glórias, a que dá luz e mais que isso, esclarecimento a uma Nação inteira.Marcadores: Crônicas
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