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Bem, está porto que a densidade sonora dele existe e atua. Mas, quando se ajeita no meio da comunicação entre os seres, aí este senhor se esbalda. Tanto é que há quem tenha medo de nele cair. Ou, às vezes, a gente sabe que, se deixar o silêncio ali entre os dois amantes, dois amigos ou dois inimigos, este danado a quem ninguém nada explicitamente perguntou, falará. E, mesmo não consultado, gritará. Está a serviço da verdade e dela se vale para, sem voz, entregar, testemunhar, confirmar o que nenhum dos dois ousara dizer. Quando se pergunta qualquer coisa, "você vai ou não vai viajar comigo?", "você abriu minha correspondência?". Ora, sabemos que se, antes de abrirmos a boca, fizermos uma pausa (pequeno intervalo fabricado com tecido silente), ela pode já significar a resposta, pode antecipá-la antes do som. Um "tu me amas" perguntado, que recebe de volta uns olhos cabisbaixos e lábios mudos pode querer acabar de vez e tristemente com a dúvida do perguntador. Como o silêncio, sem nada falar, tudo diz, vibra como enviado do que é e que ainda não foi dito. Reina nos lugares aonde palavras ludibriadoras tentam de todo meio e sorte encobri-lo, catá-lo. Logo a ele que tem o mesmo poder de ação de um verbo proferido. Particularmente, acho que silêncio cada um tem o seu. Uns são longos, chatos, vazios que dispersam o interlocutor. Outros, espertos, curiosos, inteligentes, dramáticos, surpreendentes e cômicos, resultam generosos na elucidação da narrativa. De minha parte, que dentro de tantos inquietos sossegos, escrevo, e deles tanto me valho no palco e na vida, dou meu troféu para aquela qualidade de silêncio que se faz presente no fim de uma conversa depois de uma palavra que, além de ofender, é injusta. Quando alguém, na maldade impensada das crueldades cotidianas, diz: "Você foi VIL", e você, ao invés de revidar logo, de se defender, de se estabanar para provar sua inocência, deixar apenas que o silêncio mova lentamente sua longa cauda, e, sob seu contraste, acentue e dê moldura à palavra VIL, esta ficará ecoando, cortante, dilacerante, protagonista como a última e infeliz palavra da mesa, a última carta do jogo da oralidade. O silêncio vira fundo para que a palavra e seus sentidos reverberem tanto, gemam tanto os seus intentos, de modo que, caso o dono dela a garanta, caso tenha sido realmente leviano, Dr. Silêncio, neste caso, é professor na artimanha de devolvê-la em efeito bumerangue ao seu dizedor, que fica perdido no lago do silêncio que o outro fez. A palavra volta para a boca de quem a proferiu, mas volta , às bofetadas, caramelada de caco de vidro e com o rabo entre as pernas de quem ficou sem ambiente. Há casos de o dono da palavra não ter outra saída, a não ser arrepender-se amargamente do que disse. Quando estamos corajosos, recolhemo-na a tempo e abrimos imediatamente nosso processo de pedido de perdão por termos errado, escolhido a má palavra. Quando estamos covardes, negamos tudo, até a autoria, no desespero encoberto pela cara de pau: "quem disse isso? Você está distorcendo. Eu não disse que você era vil, eu disse 'você viu'. Entendeu agora?".
Inúteis os artifícios. Natural dublê da verdade, o silêncio é o discurso dos inocentes e sempre falará como o personagem mudo de texto mais contundente; aquele que, sem máscara ou forma, rouba a cena e talvez seja o mais eloquente que há. Acho que quero dizer que o silêncio, no tempo e no espaço, é o mais concreto dos abstratos.
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