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sexta-feira, 7 de agosto de 2009
O que o silêncio diz
No quesito palavras, não poderei deixar de fora o mestre, o sinistro, o doce, o denso, e às vezes ensurdecedor, silêncio. Ô bichinho para falar, sô! Quem nunca sentiu o perigo que se anuncia no meio de uma conversa, como tapete vermelho de um segredo, ante-sala de uma revelação? E mais, quem conhece o silêncio? Existe, na categoria de absoluto? Uma vez fiquei, por sete dias, numa altura que nem tenho aritmética para contar, entre montanhas, na parte mais alta de um mosteiro em Ibiraçú, no meu lindo Espírito Santo, escrevendo uma série para crianças, chamada Amigo Oculto. O silêncio que me envolvia era muito animado. Fora a voz forte e muda das rochas, que, embora subjetiva, não deixa de ser voz por isso, se juntava a ela as MPB's dos passarinhos tropicais, os ventos em modalidades de quem viaja com passaporte vermelho de diplomata e, venham de onde vier, ninguém os detém; chuvas percussionistas com seus tambores de trovões e seus batuques nas folhas, somadas à toada de aplausos que os pingos costumam produzir. À noite, grilos, sapos, cobras - e até sacis - dentro da escuridão, garantiam a presença da hóspede dentro dos aposentos, habitando o planeta denso dos sons que moram nas cordilheiras. Um grupo que meditava na parte baixa do mosteiro me encontrou no sexto dia e uma moça me perguntou: "Você está aqui sozinha? Eu não aguentaria esse silêncio não, ele ia me matar!". Talvez ela tenha querido dizer que, num lugar desses, os nossos interiores, vendo a casa sem vigia, vêm para fora e se pode até ficar sem falar com os outros, mas a conversa não para. O assunto emerge derramado pra fora aproveitando a solidão, usando o som do mato sem a voz e o olhar do outro por perto. Tomemos especial reparo ao que chamam silêncio de praias desertas. Qual? O das intermitentes águas e vagas, com seus abdomens de altíssimo paredão que espocam na arrebentação pra virar branca espuma, o dos ventos assobiando nos lençóis arenosos. E o que é o silêncio das fazendas, tecidos de mugidos de boi e grunhidos de porcos, arrematados pela lâmina afinada das manhãs dos galos?
Bem, está porto que a densidade sonora dele existe e atua. Mas, quando se ajeita no meio da comunicação entre os seres, aí este senhor se esbalda. Tanto é que há quem tenha medo de nele cair. Ou, às vezes, a gente sabe que, se deixar o silêncio ali entre os dois amantes, dois amigos ou dois inimigos, este danado a quem ninguém nada explicitamente perguntou, falará. E, mesmo não consultado, gritará. Está a serviço da verdade e dela se vale para, sem voz, entregar, testemunhar, confirmar o que nenhum dos dois ousara dizer. Quando se pergunta qualquer coisa, "você vai ou não vai viajar comigo?", "você abriu minha correspondência?". Ora, sabemos que se, antes de abrirmos a boca, fizermos uma pausa (pequeno intervalo fabricado com tecido silente), ela pode já significar a resposta, pode antecipá-la antes do som. Um "tu me amas" perguntado, que recebe de volta uns olhos cabisbaixos e lábios mudos pode querer acabar de vez e tristemente com a dúvida do perguntador. Como o silêncio, sem nada falar, tudo diz, vibra como enviado do que é e que ainda não foi dito. Reina nos lugares aonde palavras ludibriadoras tentam de todo meio e sorte encobri-lo, catá-lo. Logo a ele que tem o mesmo poder de ação de um verbo proferido. Particularmente, acho que silêncio cada um tem o seu. Uns são longos, chatos, vazios que dispersam o interlocutor. Outros, espertos, curiosos, inteligentes, dramáticos, surpreendentes e cômicos, resultam generosos na elucidação da narrativa. De minha parte, que dentro de tantos inquietos sossegos, escrevo, e deles tanto me valho no palco e na vida, dou meu troféu para aquela qualidade de silêncio que se faz presente no fim de uma conversa depois de uma palavra que, além de ofender, é injusta. Quando alguém, na maldade impensada das crueldades cotidianas, diz: "Você foi VIL", e você, ao invés de revidar logo, de se defender, de se estabanar para provar sua inocência, deixar apenas que o silêncio mova lentamente sua longa cauda, e, sob seu contraste, acentue e dê moldura à palavra VIL, esta ficará ecoando, cortante, dilacerante, protagonista como a última e infeliz palavra da mesa, a última carta do jogo da oralidade. O silêncio vira fundo para que a palavra e seus sentidos reverberem tanto, gemam tanto os seus intentos, de modo que, caso o dono dela a garanta, caso tenha sido realmente leviano, Dr. Silêncio, neste caso, é professor na artimanha de devolvê-la em efeito bumerangue ao seu dizedor, que fica perdido no lago do silêncio que o outro fez. A palavra volta para a boca de quem a proferiu, mas volta , às bofetadas, caramelada de caco de vidro e com o rabo entre as pernas de quem ficou sem ambiente. Há casos de o dono da palavra não ter outra saída, a não ser arrepender-se amargamente do que disse. Quando estamos corajosos, recolhemo-na a tempo e abrimos imediatamente nosso processo de pedido de perdão por termos errado, escolhido a má palavra. Quando estamos covardes, negamos tudo, até a autoria, no desespero encoberto pela cara de pau: "quem disse isso? Você está distorcendo. Eu não disse que você era vil, eu disse 'você viu'. Entendeu agora?".
Inúteis os artifícios. Natural dublê da verdade, o silêncio é o discurso dos inocentes e sempre falará como o personagem mudo de texto mais contundente; aquele que, sem máscara ou forma, rouba a cena e talvez seja o mais eloquente que há. Acho que quero dizer que o silêncio, no tempo e no espaço, é o mais concreto dos abstratos.

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David Lima

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