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Muito cedo percebi que as palavras produziam imagens, mundos, viagens. Como estudava declamação desde os 11 anos, cresci reconhecendo as palavras como paisagens, comunidades, verdade simbólica da convivência humana. O amor pela minha língua pátria, mãe do meu pensamento, organizadora do meu discurso, tradutora de minha identidade, explicadora de meus processos, me pegou de jeito tal, que amei até análise sintática! Entendi, como até hoje entendo, o sujeito como senhor da oração, o verbo como senhor da ação, os adjetivos dando qualidade a tudo, os substantivos concretos e abstratos, fazendo as coisas terem consistência; as conjunções, como neurônios, dando liga e posição circunstancial de sentido a cada oração, das subordinadas às principais. Estudar português era realmente uma festa para mim. Se chovia, o que meus olhos de menina viam naquele céu cinza era o acontecimento chique de uma oração sem sujeito.
A pontuação era, com até hoje é, para mim um capítulo à parte. Quem diz um poema ou quem lê alguma coisa para que o outro escute, deve entender a pontuação como sinais de trânsito da estrada literária. O dizedor está levando o outro pela mão. A segurança da viagem está garantida por esses símbolos; eles nos levam a respirar brevemente nas vírgulas, a dar a partida demonstrativa dos dois pontos, a reservar informações no sussurro dos parênteses, a entoar a música das perguntas nas interrogações. Uma pontuação divorciada do caminho daquele rio de palavras, da história que ali dentro corre, pode inviabilizar a viagem; quem escuta não entende, não vê a película do filme mediato que a palavra bem dita provoca na imaginação.
Portanto, guardo a certeza de que falta ao brasileiro, principalmente em idade escolar, um ensino de nossa língua apaixonado por ela. Sei que isso faz a diferença, porque "quem tem boca vai a Roma" só por causa do que sabe e pode dizer. É seu estoque verbal e a organização dele flúida e firme que funciona entre humanos, do planeta inteiro, como chave. Abre portas, salva, desconcerta, inquire, prova. Na mão dela me agarro e dela me cubro para cruzar os salões do mundo diversificado que frequento.
Nesse verão, a cena que ilustra o fat foi sob o sol de Ipanema, domingo de praia lotada, e um homem com uma onda muito esquisita se aproximou de mim dizendo que me conhecia, como quem quisesse pegar meu celular, mas fingindo que estava me dando a mão. Nunca sofri um assalto, mas , ainda que aquilo não fosse uma possível tentativa, o astral de toda suspeita mise en cène fez minha intuição gritar. Pedi que ele saísse do meu lado, que eu não o conhecia nem estava interessada, gostaria que ele se afastasse. Ele disse que não, e com o olhar de quem nunca tinha me visto, afirmou: "Te conheço!". Vocês sabem, os olhos também falam, e os dele diziam outra coisa. Nesse momento tive uma ideia, olhei para além dele, como se mirasse alguém a uma certa distância atrás do meu antagonista, e fiz um sinal como quem diz "me aguarde", com a palma da mão. Voltei os olhos para dentro do dele e disse, sem duvidar de nenhuma palavra saída de minha boca: "Meu marido já te viu e eu te peço, não por você, por mim, vai embora sem olhar pra trás". Sem tirar seu olhar do meu, seus ombros perderam a empáfia, houve um certo quebranto nas pernas da agressividade dele, que, ato contínuo, se rendeu ainda tentando negar: "Não acredito em você não, mas vou me retirar".
Pois hoje meu tributo é a esta bandeira. Que a palavra circule viva, nas salas da aula brasileiras, para que possa ser, realmente, a mãe, o porto seguro, a provedora de glórias, a que dá luz e mais que isso, esclarecimento a uma Nação inteira.
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