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domingo, 5 de julho de 2009
Texto de estreia no Correio Braziliense
Desde o dia 27 de junho, estou escrevendo com colunista do jornal Correio Braziliense, e compartilharei com vocês aqui os textos que foram publicados lá, que me dão muita alegria de poder escrever. Espero que vocês gostem:

BSB, argumento do meu coração

Minha relação com Brasília começou com tanta magia que parece ficção. Era final dos anos 80 e eu, recém retirante de Vitória do Espírito Santo, tinha ido vencer no Rio de Janeiro, e destino já me chamava a protagonizar o filme Referência. Era a história de Mercedes, uma doméstica que vivia sempre a sonhar. O filme era feito de cortes, inserções entre a vida real de borralheira e o sonho daquele romântico coração. O cartaz era ela de uniforme, encostada a uma geladeira, de pé, apoiada a uma vassoura e os olhos sonhadores para o céu num sol da tarde.
Minha família viera de Vitória para o Festival de Cinema do Rio de Janeiro, onde o filme dirigido por meu amigo Ricardo Bravo is passar hour concours. Já que era um curta, seria o couvert, o tapete vermelho para o prato principal, que era um novo filme do Cacá Diegues. Lá estava toda a turma do cinema nacional reunida em torno de sua importantíssima festa.
Todos arrumadíssimos e bonitos. Antes da sessão, nervosa, fui ao toilete, cuja parede dava para os fundos do escritório da administração do festival; foi quando ouvi o seguinte diálogo: Você não ligou para mim ontem. Me deixou plantada lá, igual a uma idiota, e isso eu não vou perdoar. Era a voz de uma mulher traída. Não sei de detalhes, mas ela falava com Ricardo, que tentava, inutilmente, se desculpar usando argumentos com o tempero dos culpados: Não é nada disso, Berenice. Você é que entendeu mal...ao que Berenice retrucou cortante e decidida: Quem entendeu mal foi você. E, quer saber? Não vou passar o teu filme! Fiquei chocada. Aquela frase cortou o meu coração. Meus olhos pregados nos ladrilhos sem poder conceber aquilo, rezando para que aquela voz não fosse do meu Ricardo, e que o filme vetado fosse outro.
Uma moça fala no microfone: Boa noite! Por motivos técnicos não passaremos o curta Referência. Já não ouvi mais nada, fui embora para casa amparada por meu pai, minha mãe e meus irmãos. A frustração me deu febre: 40° de desilusão. A memória traz a mão materna em concha, acolhedora sobre minha testa. Seus olhos dentro dos meus, com a sensibilidade de quem me deu a vida: Filha, calma! Tempo pediu a Tempo a mudança do mesmo Tempo. Tempo respondeu a Tempo que tudo no Tempo tem Tempo. O mantra, o oráculo, sei lá, aquele dito me adormeceu. Corta.
Três meses depois, fomos convidados a concorrer no Festival de Brasília. Vim de ônibus do Rio para a casa de uma amiga, e entrei clandestina na sala de exibição, para, enfim, ver meu filme. Uma calorosa recepção em aplausos e gritos era o que se ouvia quando as luzes se acenderam. Aí começa a acontecer uma espécie de "cindelerisse". De cara, Marlos Nobre, diretor do festival, disponibilizou um quarto especial no Hotel Nacional para mim.
Me diziam para fazer lobby. Achei a ideia meio "mico", e muito longe do meu jeito de pensar. No outro dia, fazia sol na piscina, e lá conheci um casal muito simpático, Dori Caymi e Helena. Passamos a tarde rindo, bebendo cerveja e conversando. Repetimos a dose no dia seguinte, depois do qual, ao pegar o elevador de serviço para ir ao meu quarto, dormir um pouco e depois me arrumar para a festa dos prêmios, vejo a porta do elevador aberta e, como que saída do cartaz, sob um sol de tarde, brilha uma moça de pé, apoiada na vassoura, a me perguntar: Você é a Elisa Lucinda, não é? A atriz? Sou, e você? Eu sou Dulce, a faxineira. A senhora vai bem ganhar o prêmio, não é? Como é que você sabe disso? É que eu estava limpando a sala do júri e tem nove a favor e só um contra. Já ganhou, não é?
Próxima cena. Noite de premiação. O presidente do júri sobe ao palco e anuncia que criou um prêmio especial de atriz revelação, categoria que não havia ali, até então. O prêmio era meu, e o presidente do júri era o próprio Dori Caymi. Eu não sabia.
Quem viu o céu daquela noite sabe que ele era meu cúmplice. Quem percebeu as flores do cerrado da manhã seguinte, sob o céu azul, sabia do bouquet que a partir daí a cidade me ofereceria sempre. Desde esse dia, volto a Brasília, aos seus palácios e satélites, numa carruagem que jamais volta a ser abóbora. Descobri que o céu da capital me protege, que me tornei amante de suas cores e encantamentos. A partir de hoje, o que partilharemos aqui, todos os sábados brotará dos acontecimentos do cotidiano na versão do meu pensamento. Muito me orgulha essa doce tarefa. Ah, Tempo, filme da vida onde Brasília é meu argumento.

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David Lima

A Laranja de
David Lima


Daniel Rolim
Cavaleiro Andante


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