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Uma chuva não oblíqua, mas incidente,
cai sobre a noite de outono
no Rio de Janeiro.
Meu desamparo não se atreve
a botar o focinho na porta de casa.
Sabe que essa água ampara, aquieta,
aquece o invisível ninho.
Porque mesmo em apartamento, hotéis e estalagens,
sempre houve um som de chuva
estalando serelepe no meu telhado.
Quando chove, ajeito-me na cama
e para qualquer lado.
Tudo é aconchego,
dança, sono, acalanto, bailado.
O derrame da água em forma de pingos
me ensina a reunir minhas partes,
minhas frações,
me sugere conjunto
onde houver baque, choque, cisão.
A renda líquida da chuva de outono enfeita minha varanda,
sua música me protege, é meu cortinado.
A chuva emenda trincados
e quem duvidará
da unidade de um temporal?
Estala, chuva amiga,
aprende alma: se parte, é cristal.
Madrugada, 29 de outono, maio de 2009.
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