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Espera aí. É isso mesmo que se está lendo? Monólogo, poesia e público? É certo alinhar essas palavras na mesma oração? Pois quando Amir Hadad, então diretor do teatro Carlos Gomes, me ofereceu um horário de formação de público, um alternativo, às 19:30, terças e quartas, no centro da cidade, no ano de 2002, eu tinha uma idéia na cabeça, uma banheira e um espelho em forma de coração, rodeado de luzes, ambos objetos herdados da produção fotográfica que deu origem ao encarte do CD “Eu te amo e suas estréias”, assinado por Alessandro Grieg. MAIS NADA.
Na época eu havia chegado de Barcelona, onde tinha feito um espetáculo no Festival de Sitges, e o jornal La Vanguardia disse que me via na sala de minha casa com aquela obra. Isso ficou reverberando dentro de mim, porque esse era o meu mote naquela altura: fazer uma ode ao cotidiano, fazer uma reverência não passiva, mas uma reverência ativa ao ineditismo que um cotidiano é e ao fato desconcertante - e não menos belo – de não sermos fixos. Tudo muda o tempo inteiro e nada se repete.
A estréia daquela peça para apenas 14 pessoas naquela terça-feira de setembro se deu no dia em que a cidade estava obedecendo a uma ordem do tráfico: escolas e comércio fechados até segunda ordem. A cidade parecia aqueles filmes cuja população fora abduzida; eu me lembro de mim e de um motorista de táxi, indo para o programa da Leda Nagle, e a cidade vazia. Aquela noite, aquela experiência de estrear na cidade deserta gerou um invisível boca a boca, que fez com que duas semanas depois, o teatro estivesse lotado. E, para minha surpresa, o horário virou um centro de platéia repetente naqueles 700 lugares. Eu explico: quem ia, porque era preço muito popular - R$5,00 a inteira – voltava no outro dia, ou na outra semana, com a mãe, primo, sogra, irmã, amante, tia gay, cunhado duvidoso, marido, mulher, amigo e filho, o que me fez todo dia perguntar à platéia quem estava vendo pela segunda vez. No final da temporada, em outubro, havia quem houvesse visto todas as vezes, como foi o caso da atriz, então estudante de teatro, Geovana Pires, que virou assistente de direção, de tanto assistir. Ah! Havia um ingrediente importantíssimo nessa culinária: o tempo da peça. Duas horas e quarenta e cinco minutos. E o pessoal achando pouco.
De lá para cá, o Parem andou sozinho por esse país, repetindo temporadas em cada capital: 06 em Salvador, 05 em Porto Alegre, 06 em Vitória do Espírito Santo, duas em São Paulo, três em Brasília, inúmeras por outras cidades e mais 88 apresentações no Fórum Mundial de Cultura de Barcelona, em 2004, onde uma senhora da platéia me disse: “troquei minhas pastilhas antidepressivas por uma sessão de sua peça por dia”.
Esta é uma realidade que, se não põe por terra, dá ao menos uma abalada em alguns dogmas que perseguem o pensamento comum do brasileiro sobre o gênero poesia, na modalidade de monólogo, com mais de duas horas de duração, e agradando ao povo, de quem se diz que não suporta literatura, e que não vai ao teatro. Uma teoria, filha dessa prática, nesses anos até aqui, vendo o fenômeno da repetição do público se repetir por toda parte, conclui que trata-se de uma obra em progresso, que desenvolve, em cena, todo dia, a prática da teoria que propõe, ou seja, estréia. Não há um dia realmente que seja igual ao outro, tão pouco eu sou a mesma do espetáculo de ontem, tão pouco a platéia é exatamente a mesma que é a de ontem. Só essa realidade de dados e conjunto já garantiria o ineditismo de cada sessão, mas há mais, há a mágica, o encantamento, o poder de película que cada palavra poética pode gerar, e, como o tema é a rotina, que, ao frigir dos ovos, terá sido o sinônimo de nossa vida, o assunto se torna palpável e ao alcance de nossas mãos. O senso comum nos subjuga à rotina, nos escraviza irremediavelmente a ela, como se ela não fosse um substantivo abstrato, e como se ela não fosse a tradução substantiva e concreta de nossas escolhas. A rotina não pode nada, quem pode é seu autor. Portanto, quando a responsabilizamos por nossa má qualidade de vida, pelo fim de nosso casamento, pela falta de tesão no trabalho, estamos fazendo uma mea culpa, estamos dizendo que nós escolhemos mal, e, mais do que isso, empobrecemos os dias, pasteurizando sua beleza, com a vista turva de tanto achar segunda igual a terça, de tanto não saber que lua é, qual a estação, de tanto não perceber a originalidade no crepúsculo, nas chuvas, nos azuis do céu e, por fim, não reconhecer em nós a originalidade, nosso grande luxo , nossa riqueza maior e que nos faz irmãos.
Essas reflexões, feitas através de personagens inúmeros e seus infinitos desdobramentos no reino do cotidiano, têm provocado nas platéias o seu lugar de grande elenco para mim. A peça lembra que somos sujeitos, o responsável pelas ações de uma oração, e a platéia, uma vez acordada e lembrada disso, ganha voz, ri, chora, fala, se coloca, responde naturalmente as perguntas sem que se peça, e sai dali de alma lavada, com a barriga doendo, de tanto gargalhar de si mesmo, e podia durar mais que duas horas e meia – que é o tempo de hoje – enquanto lhe for útil.
A mágica do “Parem de falar mal da rotina” se utiliza dos óbvios, do fio de miçangas das obviedades, para revelar um mundo novo, aparentemente bobo, desprezado, mas que não só é importante, como está ao alcance de todos. A peça sugere que você se vista como quer, que você escute a conversa alheia, que você repare no seu semelhante, bata na porta do vizinho se ele estiver brigando ou para lhe oferecer um pedaço de bolo, que você estréie cada eu te amo, dito e pensado, uma vez que cada um é um, e autoriza a todos a brincar, apesar de terem chegado à vida adulta. E mais, há um momento em que um poema de um autor brasileiro é falado do palco, e quem adivinhar o nome desse poeta ganha uma bolsa do Gilson Martins, sem contar que todo dia alguém da platéia (dependendo do comportamento), recebe flores no final do espetáculo. Ou seja, o indivíduo vai ao teatro, a preço popular (hoje 30 e 15), aprende um monte de coisas que ele pode usar na vida, e ainda ganha presente.
Sete anos depois, a “família” “Parem de falar mal da rotina”, que é a mesma “famíliaequipe” que coordena os caminhos da Casa Poema e sustenta seus batimentos, desembarca pela sexta vez em solo carioca, para, nesse querido teatro SESI (muito bem cuidado pelo Colmar Diniz e sua equipe), continuar a celebração. Mais de 500 mil espectadores - até agora - por ali passaram e, no entanto, não param de fazer planos de seguirem o show; prometem levar mais sogras, mais parentes, uma coisa multiplicante, como se fosse exército, torcida, legião. Em Sampa, um rapaz do público que via pela décima quarta vez, me disse: “eu gosto de vir no domingo, porque aí fica valendo como missa.” Um outro me disse: “eu vim hoje porque amanhã vou fazer uma cirurgia e a minha irmã falou que essa peça é um ótimo pré-operatório”. Falam do Parem como se fosse um programa, um parque, como uma curtição.
Venho dizer, meus senhores, que essa história prova a força da poesia como autoajuda, sem ser ferida pelo desgaste da expressão. É como fonte de autoconhecimento e como construtora de uma paz possível, que é a do entendimento de um homem por outro homem. Nesse anos todos no hall do teatro, além de uma pequena livraria, temos um caderno de impressões onde o público derrama suas digitais emocionais. Em meio a tanto desabafo, uma carta de uma suicida fracassada confirma a vocação da obra; ela me dizia que assistiu a peça toda quebrada, da platéia, se recuperando do acidente proposital que deveria ter dado cabo de sua vida, teve certeza de que todo o conteúdo da peça tinha sido preparado para ela, para falar de sua vida e dar-lhe um novo sentido.
Falando assim parece até um papo religioso, mas o que o “Parem de falar mal da rotina” talvez fortaleça seja exatamente a não transferência de nossas escolhas para Deus nenhum. Celebramos ali que a vida é uma obra aberta, é nossa, e metemos o nosso próprio bedelho no nosso roteiro, confiando no feixe de possibilidades que a vida nos garante.
O “Parem de falar mal da rotina” limpa o nosso olhar para como estamos criando os nossos filhos: como estamos educando nossas crianças? Para o amor? Para a violência? Para o dinheiro? Para ser ou para ter? Qual tem sido nosso critério para escolher nossas profissões? Quem decide isso, o dom ou a ganância? Até que ponto somos livres, ou até que ponto vivemos em cárcere privado, cujos carcereiros somos nós mesmos?
Nesses anos todos, desenvolvemos uma linguagem do que é o mesmo e muda sempre na cara da platéia, cheio de magia e sem truque nenhum. Nunca fica velho. Sai uma cena para dar lugar a outra mais atual, com mais respostas para novos agoras, e assim vamos, brindando o cotidiano e vibrando cada minuto em seu louvor.
Aí está. Senhor doutor Amir Hadad chamou poesia para formar público. Formou.
Elisa Lucinda,
Abril de 2009.
Marcadores: sexta-básica
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