Na sequência do acontecimento histórico na cidade do Rio de Janeiro onde finalmente o Estado chegou à comunidade da Rocinha, ouro humano situado ao lado da alta burguesia carioca, eu vi a presidente Dilma chorando na televisão por conta do emocionante encontro que teve com crianças especiais e ocasião em que se diz com todas as letras como é bom ser presidente numa hora dessas porque tem o poder de entender o olhar responsável do governo sobre crianças e adultos especiais e deficientes. Digo isso não porque queira ver a presidente sofrer. Nada disso. Que fique bem entendido. O que me encanta é ver um coração feminino, materno, pulsando ali; a reger sua inteligência, a pesar na balança das decisões oficiais cuja burocracia acaba por tornar indigno o caminho onde o Estado deveria exercer com humanidade e competência o seu dever para com os seus filhos. Quando a vi também em rede nacional admitindo falhas na saúde publica brasileira e determinada a revolucionar o setor, chamando inclusive à responsabilidade os hospitais privados, senti a mesma linha de inteligência emocional em ação. Acho que, com todo pulso que a nossa presidente tem, no recheio de sua competência estão também as vocações altruístas do gênero feminino.
É de tarde. Olho o Rio de Janeiro, vejo as noticias da” Nova Rocinha” na TV. A civilidade chegando ali agora. As cem mil toneladas de lixo só agora sendo removidas. Os novelos de fios de” gato” tendo a sua avant premiére com a Light e, o mais raro de tudo a polícia fazendo o seu serviço sem ferir àquelas inocentes vidas. Meu Deus, como podem todos esses políticos terem dormido até agora? Quero saber o nome do seu poderoso calmante. A sociedade vem pagando o preço dessa omissão, perdendo os seus jovens para o crime, perdendo seus quase cidadãos que morreram sem conhecer teatro, cinema, livro, educação. Um País que perde o seu povo perde o irreparável. Queria que todos os governos de todos os Estados levassem a saúde cidadã aos nossos morros, às nossas periferias onde quem ainda manda é o crime. Vitória, Salvador, Brasília, Recife, etc. Isso só falando em capitais. Quando vejo a ação das UPPS aqui na minha cidade me dá vontade de acionar o Estado pelos danos retroativos, pelos anos de abandono para com os cidadãos que, obrigados a receberem as migalhas dos serviços públicos, não dispõem de uma via de mão dupla onde possam livremente transitar na exigência de seus direitos. Não é possível que a mesma política que exclui de seu futuro os pobres, os pretos, os sem saneamento, os sem-terra, os sem escola, seja tolerante com ladrões de fino trato. Não pode ser que, por causa de uma inadimplência no valor de dez reais um cidadão tenha seu crédito suspenso; que, pelo furto de uma galinha um indivíduo seja preso junto a outros sórdidos assassinos, enquanto dentro da mesma República ratos fazem a festa na cama da impunidade e na aparente imunidade de seus mandatos. Uma injustiça dessa não se sustenta eternamente, e é impossível olhar para ela tendo um bom coração, sem chorar.
Deitada na tarde de meu quarto, fiquei acompanhando as notícias da Rocinha. Vendo com carinho e irmandade a beleza dos morros, a vista maravilhosa que se tem de um boteco no alto da colina de onde se vê Pão de Açúcar, Cristo Redentor, Leblon, Dois Irmãos, Pedra da Gávea e mar. Quer mais? Pois por uma vista mais limitada do que essa se paga milhões nessa cidade! Lembrei que fui convidada por Guti, o grande artista mentor do vitorioso projeto de teatro “Nós do Morro”, lá do Vidigal, a dar uma oficina lá. No celeiro de onde saiu Roberta Rodrigues, Jonathan e outras estrelas do filme “Cidade de Deus”. Dei aula de poesia falada para aqueles jovens atores em formação. Mas na Rocinha nunca subi em vinte e cinco anos de Rio de Janeiro. Chocante! Na tela, enquanto o meu pensamento viaja na inclusão, no desfazer da cidade partida que essa pacificação tem trazido, aparece um pai trabalhador dizendo assim: “Pra mim é um alívio, um milagre o que está acontecendo. Eu já não aguentava mais. Sou trabalhador, luto muito para sustentar a minha família, para não faltar nada. Me sinto um bom brasileiro, mas um dia meu filho de cinco anos me perguntou vendo tantos traficantes na rua circulando com o seu armamento: Pai, porque todo mundo tem arma e só a gente que não tem? Respondi que era porque a nossa família é de trabalhador, mas nessa hora ficou parecendo que o certo era errado e o errado era certo.” O pai da TV ficou emocionado. E eu que não sou presidente nem nada comecei a chorar.


