Como é bom ver Dilma chorar

Na sequência do acontecimento histórico na cidade do Rio de Janeiro onde finalmente o Estado chegou à comunidade da Rocinha, ouro humano situado ao lado da alta burguesia carioca, eu vi a presidente Dilma chorando na televisão por conta do emocionante encontro que teve com crianças especiais e ocasião em que se diz com todas as letras como é bom ser presidente numa hora dessas porque tem o poder de entender o olhar responsável do governo sobre crianças e adultos especiais e deficientes. Digo isso não porque queira ver a presidente sofrer. Nada disso. Que fique bem entendido. O que me encanta é ver um coração feminino, materno, pulsando ali; a reger sua inteligência, a pesar na balança das decisões oficiais cuja burocracia acaba por tornar indigno o caminho onde o Estado deveria exercer com humanidade e competência o seu dever para com os seus filhos. Quando a vi também em rede nacional admitindo falhas na saúde publica brasileira e determinada a revolucionar  o  setor, chamando  inclusive à responsabilidade os hospitais privados, senti a mesma linha de inteligência emocional em ação. Acho que, com todo pulso que a nossa presidente tem, no recheio de sua competência estão também as vocações altruístas do gênero feminino.

É de tarde.  Olho o Rio de Janeiro,  vejo as noticias da” Nova Rocinha” na TV. A civilidade chegando ali agora. As cem mil toneladas de lixo só agora sendo removidas.  Os novelos de fios de” gato” tendo a sua avant premiére com a Light e, o mais raro de tudo  a polícia fazendo o seu serviço sem ferir àquelas inocentes vidas. Meu Deus, como podem todos esses políticos terem dormido até agora? Quero saber o nome do seu poderoso calmante. A sociedade vem pagando o preço dessa omissão, perdendo os seus jovens para o crime, perdendo seus quase cidadãos que morreram sem conhecer teatro, cinema, livro, educação. Um País que perde o seu povo perde o irreparável. Queria  que todos os governos de todos os Estados levassem a saúde cidadã aos nossos morros, às nossas periferias onde quem ainda manda é o crime. Vitória, Salvador, Brasília, Recife, etc. Isso só falando em capitais. Quando vejo a ação das UPPS aqui na minha cidade me dá vontade de acionar o Estado pelos danos retroativos, pelos anos de abandono para com os cidadãos que, obrigados a receberem as migalhas dos serviços públicos, não dispõem de  uma via de mão dupla onde possam livremente  transitar na exigência de seus direitos. Não é possível que a mesma  política que exclui de seu futuro os pobres, os pretos, os sem saneamento, os sem-terra, os sem escola, seja tolerante com ladrões de fino trato. Não pode ser que, por causa de uma inadimplência no valor de dez reais um cidadão tenha seu crédito suspenso; que, pelo furto de uma galinha um indivíduo seja preso junto a outros sórdidos assassinos, enquanto dentro da mesma República ratos fazem a festa na cama da impunidade e na aparente imunidade de seus mandatos. Uma injustiça dessa não se sustenta eternamente, e é impossível olhar para ela tendo um bom coração, sem chorar.

Deitada na tarde de meu quarto,  fiquei acompanhando as notícias da Rocinha. Vendo com carinho e irmandade a beleza dos morros, a vista maravilhosa que se tem de um boteco no alto da colina de onde se vê Pão de Açúcar, Cristo Redentor, Leblon, Dois Irmãos, Pedra da Gávea e mar. Quer mais? Pois por uma vista mais limitada do que essa se paga milhões nessa cidade! Lembrei que fui convidada por Guti, o grande artista mentor do vitorioso projeto de teatro “Nós do Morro”, lá do Vidigal, a dar uma oficina lá. No celeiro de onde saiu Roberta Rodrigues, Jonathan e outras estrelas do filme “Cidade de Deus”. Dei aula de poesia falada para aqueles jovens atores em formação. Mas na Rocinha nunca subi em vinte e cinco anos de Rio de Janeiro. Chocante! Na tela, enquanto o meu pensamento viaja na inclusão, no desfazer da cidade partida que essa pacificação tem trazido, aparece um pai trabalhador dizendo assim: “Pra mim é um alívio, um milagre o que está acontecendo. Eu já não aguentava mais. Sou trabalhador, luto muito para sustentar a minha família, para não faltar nada. Me sinto um bom brasileiro, mas um dia meu filho de cinco anos me perguntou vendo tantos traficantes na rua circulando com o seu armamento: Pai, porque todo mundo tem arma e só  a gente que não tem? Respondi que era porque a nossa família é de trabalhador, mas nessa hora ficou parecendo que o certo era errado e o errado era certo.” O pai da TV ficou emocionado. E eu que não sou presidente nem nada comecei a chorar.

Educação para a vida

Não vou cansar de falar do tema enquanto achar necessário: Não há outro propósito na existência de qualquer instituição educativa a não ser a função de educar para a vida. Não bastassem as afinidades do nosso sistema escolar com os cárceres (uniformes, grade curricular, pátios áridos, altos muros, sirene entre as aulas), seu ensino continua estanque, longe do ser humano e esse conceito forma a sociedade. Por isso corremos o risco permanente quando vamos ao médico de joelho, por exemplo, que nos medica com um anti-inflamatório que há de arrasar a flora intestinal, ofender o fígado, para salvar o joelho. É como se o resto do corpo não fosse assunto desse médico, como se um joelho fosse não uma parte, mas um paciente inteiro (por sinal incompleto). Por causa dessa contradição o aluno tem diarréia no dia da prova sobre aparelho digestivo sem saber que na prática a prova já começou. Nele. No corpo dele. Sigo na certeza de que os mais simples conhecimentos da ciência, da medicina, precisam estar na sala de aula. Todo menino deveria aprender a medir a pressão, contar batimento do pulso, saber respiração boca-a-boca, reconhecer a emergência para tirar de uma crise ou salvar seu semelhante e até ele próprio. É dever da escola “ensinar sobre as drogas, explicar cientificamente o que acontece com o cérebro quando usamos cada uma delas: cocaína, crack, álcool,maconha, ecstasy e etc”, diz a minha querida  poeta Roseana Murray.  E” mostrar os dois lados, sem ter medo da verdade”.  Penso que é também dever da escola a interdisciplinaridade entre as matérias porque não há Geografia sem História, nem História sem Biologia, nem Biologia sem Física, nem Física sem Química. Assim como há Matemática na Música e Português na Medicina. Não faz sentido que essas matérias sigam dissociadas feito o joelho e o fígado de um paciente dissecado por uma noção equivocada da saúde e de bem estar da civilização. Da mesma maneira tanto a família quanto a escola se complicam quando o assunto é sexo. Ensinamos aos nossos filhos e alunos os nomes da nossa composição: olho, boca, orelha, nariz. Mas ao chegar na pélvis fica todo mundo gago e com milhões de inexplicáveis apelidos: bumbum, pipi, pintinho, perereca, papica, e um desfilar de adjetivos sem fim cujo o único fim é tapar o sol com a peneira. Por que tanto problema com a sagrada portinha por onde a humanidade entra e sai? Por que há tantos bonecos ainda sem penisinho? Por que tanta preocupação com o ânus se todos os gêneros têm o seu? Coitado do ânus! Tratamo-lo com o mesmo desprezo e preconceito com que tratamos os nossos resíduos urbanos e seus cuidadores. Palavrões continuam a desestruturar e tirar o equilíbrio dos conservadores, porque todos sabemos que o que ralmente assusta a esses senhores é o fundo sexual ao qual todo palavrão remete. O que bebemos e o que comemos será eliminado por nós, mas os orifícios e órgãos responsáveis por esse serviço fundamental para a dinâmica metabólica de nossa saúde não tem glamour nem nobreza e a sexualidade ainda piora sua reputação. É grave. Está resultando numa sociedade cheia de prisão de ventre, preconceitos e contradições aumentando o número de receitas tarja preta. Reparou como tudo está na educação? Reparou que um país que não tiver uma política educacional consistente e consequente para um futuro são,  não se estabelecerá sem a violência e a dificuldade de convivência que continuamos a assistir? O certo é que também a nutrição, como base da saúde está fora da informação escolar.

Felizmente, visionários, competentes profissionais de cada área, sonhadores e artistas de plantão, furam o esquema e mudam o rumo dessa prosa. Esses dias mesmo assistindo a novela “Aquele Beijo”, do Miguel Falabela, mais meus olhos se revelaram atentíssimos à aquela obra em cartaz num horário em que muitos jovens estão com os olhos colados na TV. A personagem Cláudia, vivida pela atriz Geovana Antonelli, em mais uma excelente atuação, diz com a naturalidade e displicência coloquial que o texto pedia:” pera aí que eu vou fazer xixi”. Foi a primeira vez que vi. Em anos de novela jamais vi essa cena. Talvez seja pioneira mesmo na dramaturgia da televisão brasileira, diga-se de passagem, a mais avançada do mundo. Aliás, é raro alguém ir ao banheiro nessas tramas. Raro também é ver alguém lendo um livro, é merchandising de livro dentro da história, uma coisa de tão fácil inserção! É raro  uma biblioteca compondo o ambiente, a não ser como fundo de escuros escritórios. Umas bibliotecas mortas. Aliás, poucas vezes livro é assunto. É Miguel Falabella quem de novo nos socorre. Além de suas poéticas narrativas, vi no mesmo capítulo um personagem adolescente que cita alguma coisa muito bonita, comparando o amor com um rio que sempre volta ao seu leito original, cujo curso ninguém é capaz de impedir ou mudar. Perguntado pelo pai onde aprendera tais bonitos e profundos pensamentos o jovem respondeu com um singelo sorriso: “onde meu pai? ora, onde seria? nos livros, nos livros!”Alô, alô televisão, escola, família, é a vida a matéria da educação. Melhorar o mundo é a sua razão.

Frei-exemplo é o melhor pregador

Me peguei pensando: daqui há dez dias farei dois anos sem fumar. Ora, isso só acontecerá se eu perseguir no caminho dessa decisão tomada. Meu pai disse na ocasião de minha “libertação” do fumo – vício adquirido aos 14 nos de idade – que o que eu tinha tido era uma volição. A palavra quer dizer que a pessoa atingiu o âmago da vontade, o centro, o caroço da questão e aí uma vez alcançada a compreensão o indivíduo vence. Penso que educação é talvez o assunto mais importante da nossa Nação. E considere-se aqui que não falo de educação dissociada da cultura. Para mim letra é arte e matemática é música, ritmo, comédia. Portanto chamo à nossa atenção para que nossas ações principalmente as públicas que vão interferir no outro, estejam comprometidas com a melhoria do mundo. Você vai me perguntar o que é melhoria, vai dizer que é subjetivo e coisa e tal. Mas estou, nesse ponto, com os poetas e dificilmente há um poeta que pregue a guerra e a injustiça do mundo. Igualdade de condições e oportunidades  é um dever do novo tempo aos habitantes do planeta. Mas para falar apenas do meu país me assombra tanto a deseducação, me assombra tanto o incentivo à cultura da violência, da competição e da vitória a qualquer custo ainda que isso custe, às vezes a vida do outro. Vejo propagandas que falam que ter o carro tal é ter atitude, que ter um computador é melhor do que ter um instrumento musical, que quem tem esse ou aquele bem não precisa ter ideias. A toda hora me estarrece a loucura pela grana e pelo poder sendo ensinada a crianças por todos os meios de comunicação, pela escola e pelos pais. Nossa responsabilidade como artistas, como professores, como educadores, como políticos representantes do desejo de uma sociedade plural que se pretende justa, é imensa. E nos convoca a toda hora. Quando parei de fumar escrevi uma crônica chamada “Piro no suspiro” (disponível na rede), partilhei a experiência e conheço umas trinta pessoas para quem tal relato serviu no seu processo de se livrar do tabaco. Muitas vezes o pensamento de um escritor, de um colunista, de um cineasta esclarece tanta coisa para mim, reforça as minhas convicções, nutre de esperança minhas lutas. “É preciso estar atento e forte”, escutar as próprias palavras para não dizer semente de guerra para não produzir mais dias de violência e desentendimento entre humanos que labutam e muito têm ainda o que aprender na arte de conviver. Nesse sentido a cerimônia de transmissão de posse do cargo de Ministro de Esportes nessa semana me deixou confusa quanto o que aquela cena ensina. Ora, muitos códigos estão postos nessa dinâmica: Primeiro, toda sociedade brasileira avança quando temos negros ocupando lugares de destaque e decisão. Por isso termos o nosso Obama num Ministério fortalece a identidade negra de um país acostumado a considerar seus mestiços, ainda em muitas instâncias, como cidadãos de segunda categoria. Ao mesmo tempo reforça o preconceito se alguma coisa não vai bem na gestão daquele indivíduo. É claro que isso não é tudo mas também conta e está agindo em nosso inconsciente. Sempre tive respeito por Orlando Silva e há uma grande torcida no meu coração e de muitos para que ele prove sua inocência. Mas fazer da cerimônia de transmissão de um cargo por um motivo triste, uma festa torna a mensagem educativa complicada. As acusações são graves e o dinheiro é público, fazendo com que todo brasileiro se sinta autorizado a tecer opiniões sobre o público evento. Quando eu li sobre os discursos, o clima de festa da cerimônia, fiquei triste. Ainda bem que a Presidente Dilma desejou ao ex-Ministro muito sucesso em sua cruzada pela verdade. Porque muitos jovens estão vendo o espetáculo. São brasileirinhos formando a sua primeira opinião sobre a nossa política partidária, nossa gestão e nossa noção de justiça. Foi triste para o Orlando sair sob suspeita, triste para o Aldo Rebelo assumir tendo que fazer uma profunda investigação, e triste para a Nação que luta para conseguir se livrar de seus corruptores contumazes. Eu sinceramente acho que o Orlando é inocente e então o momento deveria ser de indignação e luta para que a verdade límpida e honesta venha à tona e lave qualquer suspeita imediatamente. Por mais que o partido comemorasse a sua união estou de olho na Pátria, e, com todas as honras pelo serviço oferecido ao país que o Orlando mereça, não era aquela ocasião uma cerimônia de festas. Costumo dizer que mesmo calados estamos nos posicionando. Passivos ou não, todo dia contribuímos para algum lado. É hora de assumir a nossa condição múltipla de educadores já que somos os que falamos por tanta a gente. Incluo aqui padres, professores, ialorixás, médicos, conselheiros tutelares, governos, todos que trabalham para um mundo viável. Nesse momento, de minha parte, além de escrever meu pensamento nesse papel, venho cuidando dos meus inspirares de amanhã agora, no presente. O futuro é feito com os ingredientes do hoje, por isso trabalharei atenciosamente para daqui a pouco dizer: daqui há dois dias faz dez anos que parei de fumar.

Palavra é poder

Ainda estou sob o impacto emocional, excelente impacto por sinal, da experiência de ter dado aula para profissionais de segurança, cuidadores e conselheiros capixabas. Enfim, policiais, guardas municipais, delegados, delegadas, professores e representantes da comunidade de São Pedro, fizeram parte da 1ª turma Capixaba do Curso/Vivência e Capacitação chamado “Palavra de Polícias, Outras Armas”. A experiência iniciada no Distrito Federal a convite da OIT vem ganhando espaço interessante como sinal de um novo tempo. Tornou-se insustentável falar de segurança sem afinar sua política sobre os princípios dos Direitos Humanos. Recebida pelo queridíssimo João José, secretário de Direitos Humanos e Cidadania, conversamos longamente aqui em Vitória sobre juventude e infração, equívocos do nosso sistema educacional e principalmente a dificuldade que os sistemas ditos de reabilitação têm para reconduzir o indivíduo perdido de seu sonho ao caminho dele. Discutimos inclusive um outro artigo meu publicado aqui onde relatei a deliciosa experiência de fazer uma palestra sobre o tema para cuidadores, carcereiros, psicólogos, inspetores, professores e diretores da Fundação José Silveira, em Salvador. Também à convite da OIT muito me alegrou que esse treinamento que venho desenvolvendo junto com a minha equipe da Casa Poema pelo país tenha chegado logo aqui.

Quando me mudei para o Rio de Janeiro a coisa que mais me constrangia era a nossa má fama. O Espírito Santo era tão campeão de bilheteria no assunto violência, assíduo freqüentador das trágicas manchetes do noticiário nacional que se eu pudesse, pensava eu na época, resolvia isso lá dentro de casa, entre capixabas sem que ninguém soubesse. Ah,você é da terra que mataram aquela menina, a Araceli? Que sim, eu respondia quase sem graça para esconder a pontada que dava no coração. No entanto, passados os anos muita coisa melhorou, mas nós precisamos sair definitivamente da cabeça desse ranking. Sem políticas de inclusão, sem a arteducação, principal desenvolvedora das potencialidades humanas, sem educação e uma polícia que proteja o cidadão sem ser vilã da própria comunidade, não sairemos do lugar. Sou de Cariacíca, município cuja imagem foi por anos associada à criminalidade e a tudo de ruim, mas agora o lugar onde fica o meu Itaquari saiu do primeiro lugar, finalmente, da violência no Estado. E ainda por cima a Unidos da Boa Vista ainda me homenageia como enredo do próximo carnaval, que beleza! Isso fortalece uma comunidade. Mas quem vos fala “que beleza”, não é a “Elisa – vaidade” aqui. É a cidadã orgulhosa de representar um lugar tão sem glamour, tão desconsiderado no mapa burguês daqui e do mundo. Observe-se que, paralela à diminuição da criminalidade de um lugar, na proporção inversa, crescem as iniciativas de arte e educação do mesmo lugar. Escrevo tudo isso para dizer que quando me vi lá dentro de São Pedro diante daqueles de quem tanta gente boa tem medo, pude outra vez testemunhar o lindo processo do homem sensível atrás do policial. Aquele que sai de casa com seu colete, suas armas, seus sprays e sua coragem para matar ou morrer. Pois o papel dessa nossa iniciativa é atuar numa gama de opções que habitam a distância entre matar ou morrer. Às vezes um homem, um garoto, uma mulher desesperada está prestes a começar uma rebelião, tocar fogo num ônibus, matar a namorada refém, assassinar uma escola, e o desfecho da cena, tragédia ou glória, está nas mãos do policial. A palavra tem poder, dissolve nós, desarma,  imobiliza, provoca, acalma, fere, salva, dá xeque-mate. Conselheiros tutelares, orientadores, instrutores, cuidadores, de todo o tipo de excluídos, não desprezem a palavra, por favor. Foi muito lindo ver um delegado, uma delegada, um senhor da comunidade, um guarda, um policial, todo mundo ali falando poesia, exercendo sua sensibilidade e aprimorando sua competência e preparo para trabalhar no esquema de segurança de uma sociedade dentro da cultura da paz. Sei de uma história que uma senhora que andava numa rua escura, em Salvador, quando encontrou um rapaz que vinha em sua direção e perguntou: meu filho que horas são? Ao que o rapaz se desmontou a chorar: “Eu ia assaltar a senhora, mas a senhora me chamou de meu filho…. faz dez anos que eu não vejo a minha mãe,dona.” Viu como até sem querer a palavra pode desarmar? Parabéns Espírito Santo, se cuidando para melhor cuidar.

A Letra Que eu Canto

A Letra que eu Canto é o mais novo espetáculo musical e poético de Elisa Lucinda. Num formato inédito em sua carreira, Elisa se apresentará no carioquíssimo palco do Rival Petrobras,acompanhada do piano e acordeon do maesrtro João Carlos Coutinho e dos sopros de Marcelo Martins.

A atriz multimídia teve sua voz mais admirada através do sucesso de sua personagem Pérola, cantora do Nick Bar, ex-mulher de Teó, o saxofonista vivido por Tony Ramos na tramade Mulheres Apaixonadas , telenovela do horário nobre da Rede Globo. A intérprete nos levará ao vasto universo do cancioneiro brasileiro, pela palavras cantadas do também capixaba Sérgio Sampaio e outros compositores brasileiros, comoVitor Ramil, Zé Ramalho, Noel Rosa, JardsMacalé, Toninho Geraes, Cazuza, Arlindo Cruz, Chico Buarque eoutros bambas, num repertório surpreendente, cujos arranjos vão dar mais moldura à dramaturgia das poéticas canções. A letra que eu canto traz para o proscênio o que diz cada música na leitura e no olhar de quem está acostumada a descobrir mistérios narotina lírica do cotidiano. Iluminado por alguns poemas da autora, o show promete nos trazer a graça, o humor , a irreverência e a emoção da arte de encantar que Elisa tem.

Nas palavras de cantor e compositor Lobão, a cantora, poeta e atriz tem o dom de inaugurar as canções que canta e assim nos conduz à brilhante viagem de sua interpretação.

Serviço:
Teatro Rival Petrobras
Dias 21 e 22/10 – Sexta e Sábado às 19h30
Rua Álvaro Alvim, 33/37 – Cinelândia

Preço:
R$ 55,00(Inteira)
R$ 40,00(Os 100 primeiros pagantes)
R$ 27,50(Meia)

Classificação: 16 anos

Ao Mestre com Carinho

Escrevo com o coração e a razão concentrados em duas datas que não por acaso são comemoradas quase juntas. Hoje é dia dos professores e dia 12, das crianças. Ora, ora, professores, que se revezam nos papéis de pais e mestres, têm em suas mãos o futuro da humanidade. Parece determinismo de meu pensamento e radicalismo de uma opinião, mas acho que pode não ser. Todas as pessoas que conheço que passaram por alguma escola têm um depoimento amoroso em relação ao professor inesquecível e um odioso daquele que deixou traumas. Há a performance do mestre e o livro vivo como elo entre o aluno e a vida.Por inúmeras vezes escutei, ao longo de minha carreira: “Eu detestava poesia porque minha professora me obrigava a declamar sem entender nada do que eu dizia”; “Eu não suporto Geografia, e Matemática, e Física e Biologia, porque eu nunca entendi porque isso serviria para a minha vida”; “Nem me fale em análise sintática, só maluco para gostar de uma parada daquela, aliás, detesto Português.” Por enquanto deixemos de lado as inclinações e vamos nos fixar, por exemplo, no Português. Talvez o que faça alguém não gostar da própria língua e da análise de sua sintaxe seja o fato de não se ver incluído na história. Ora, se o sujeito é o dono da oração e o verbo senhor da ação o menino tem que entender que esse sujeito é ele. Foi ele que há muitos anos atrás inventou a palavra para que pudesse traduzir as coisas na ausência delas (das coisas) e para que pudesse expressar-se tendo diante de si um repertório que possa lhe servir na hora de se fazer compreender. Então às vezes quando vemos um adolescente ou mesmo um adulto afirmando que a namorada, o irmão, o colégio, a festa, a roupa são bacanas, não é que esse indivíduo ache exatamente a mesma coisa de todos esses elementos. Não. Muitas vezes trata-se apenas de um cidadão sem repertório de adjetivos; logo os adjetivos, meu Deus, os que dão qualidade às coisas! Uma pessoa abastecida deles diria sem medo: minha namorada é inteligente e gostosa, meu irmão é companheiro, meu colégio é divertido, a festa foi animada, a roupa estava moderna. Uma análise sintática explica que “chove” é uma oração e uma oração sem sujeito, e nos explica também o que é uma oração principal e suas orações subordinadas que são as filhas dela. Ninguém pode fazer isso sem entender. Advérbios de modos, advérbios de intensidade, objetos diretos e indiretos são assuntos que não se entende sem se entender o homem. Eu só posso escrever isso que escrevo agora sobre o tema porque passei pelas mãos de ótimos professores de português, a começar pelo meu pai, cuja palavra criativa e bem humorada deu fundamento ao que chamam hoje de minha literatura. Além do mais, meu pai usava a graça e o bom humor para nos explicar as coisas mais simples: “Poxa papai, nesse verão eu sôo tanto!”, ao que ele respondia: “Realmente eu escutei. “Então, eu nunca mais esqueci que soar é para sino e para som, e suar é o verbo correspondente aos suores. Aprendi rindo. Outra mãe de meu português foi a literatura, e em especial a poesia, preciosa dama nas mãos de quem fui parar com apenas onze anos e por causa de quem o mundo é para mim a reserva da inspiração. Minha professora de declamação, Maria Filina, de quem já falei aqui, me ensinou a entender as estorinhas das poesias, os conteúdos das palavras e entendendo a poesia eu estava também muito cedo começando a aprender o ser humano. Mais que gramática, mais que palavras bonitas e diversificadas, a poesia me ensinou muito do mundo e seus sentimentos. Interdisciplinar, essa arte contêm Geografia, História, Direitos humanos, Filosofia Economia, Física, Química e etc e tal. Me lembro quando, já adulta, cheguei a Lisboa, pela primeira vez e convidava meus amigos: Vamos ao Chiado, à Baixa, ao Rossio? Então, espantados, me diziam: mas você não disse que nunca esteve aqui?! Era verdade, mas era também mentira, pois eu tinha ido lá, quando ainda morava no Espírito Santo, pelo olhar de Fernando Pessoa. A leitura é a passagem mais barata do mundo, creiam-me. Clamo aos professores tão sacrificados, tão desvalorizados e tão importantes para o processo da civilização do mundo, clamo que ao educar o pequeno homem usem como objeto de estudo e método o pensamento poético da humanidade. Atenção preciosos educadores do mundo, atenção condutores da esperança, o livro vivo pode ser sua aliança com qualquer criança.

De olho nos cárceres

A experiência de filmar no Líbano me ensinou muitas coisas boas, é verdade. Mas também confirmou o quanto ainda falta para nos livrarmos do estigma da Eva pecadora. É aterrorizante que ainda, no mundo de hoje, mulheres esperem seus maridos comerem para depois se alimentarem, que outras ainda recebam chibatadas como punição legal por dirigirem carros. Me assusta que meninas tenham seus clitóris extirpados, que o sexo feminino ainda represente o grande alvo de pancada do mal resolvimento da civilização.

Pergunto de novo: onde estamos falhando? Em São Paulo, por exemplo, é muito comum mulheres de terninho para melhor ocuparem seus cargos de confiança, como se fossem vestidas de homem. A humanidade ainda tem muito o que aprender com as mulheres. Não estou dizendo isso valendo-me do privilégio de sê-lo e nem compactuo com o lema de que basta ser mulher para ser competente. Nada disso.

Porém, o que pode ser interessante na administração feminina, é o afeto que costuma orientar suas ações. Naturalmente a mulher tem o princípio solidário como fundamento, uma vez que sua natureza é de doação. Gerar, hospedar o outro dentro de si, amamentar e depois garantir o alimento da cria parece um jeito essencial de distribuir-se. Não dói nela pensar no bem estar de todos. Além do mais a mulher é parabólica, e o conteúdo de sua cabeça é muito sortido.

Ela pode pensar na reunião enquanto limpa o banheiro, telefona para o filho, retoca a unha no trajeto até o trabalho e ainda volta para confeitar o bolo de aniversário do filho menor. Cabe na cabeça feminina da mulher de hoje, dias de grandes fluxos financeiros que coincidem com grandes fluxos menstruais. E ela vai.

Veja bem, não estou falando aqui, repito, de uma imunidade do gênero, ou seja, vote em fulana porque é mulher. Não, não basta só ser mulher. Há mulheres sem caráter. O brilhantismo da nossa presidente Dilma é dela. Único, intransferível e aí sim dá gosto ver qualidades, competências, coerências de uma cidadã preciosa representando o feminino. Estamos batendo o maior bolão sendo de um país emergente, capitaneado por uma presidente mulher que a ONU e o mundo tem escutado com atenção.

Mas nosso assunto em se tratando de direitos humanos ainda tem muito que ser discutido, falado e lutado. O que não fica bem nessa mulher moderna são os velhos cárceres. Uma coisa é cuidar-se, outra coisa é tornar-se escrava da indústria da beleza com suas ditaduras de escovas, chapinhas entediosas e caríssimas bolsas de marcas atestando a peruíce, a futilidade como únicas receitas de felicidade feminina.

Não. Vamos sair dessa. É desestruturante a constante obsessão por enchimentos, botox e silicones desmedidos, bem como, continuar procurando marido rico é uma desmoralização para a mulher de hoje. Temos que escolher que mulheres queremos ser. É também cárcere dentro da subjetividade e diversidade brasileira, como nossa cegueira para com a beleza negra, por exemplo.

As mulheres negras com sua pele maravilhosa e seu natural DNA anti-rugas deveriam estrelar a maioria de comerciais de cosméticos. No entanto só agora se vê falar em dermatologia especializada em pele negra, quando há muito já deveriam estar estudando seus segredos de eterna juventude. Mesmo assim, todos os dias neste país, dentro das escolas, se há uma menina branca e uma negra em sua maioria avassaladora a menina branca é automaticamente eleita a princesinha da história.

E assim ensinando o preconceito a nossas crianças vamos seguindo sem observar quanta ignorância e irresponsabilidade habitam os cárceres de nossos pensamentos e ações. Nesse assunto faz bem para o espelho da população negra e para a consciência de paz dos não negros a presença de Obama na presidência dos Estados Unidos, o cetro de mulher mais bonita do mundo oferecido a uma angolana negona, senhora Leila Lopes. Também Lázaro Ramos fazendo o galã na novela das oito, eu como uma mulata pensante, tudo isso limpa o imaginário do brasileiro, tão comprometido por uma educação fundamentada na injustiça sociológica.

Jardim Absoluto

Diante de ti e exposta à tua contemplação,
recebo lições que equivalem a viajar o mundo inteiro de repente
e a falar mil línguas fluentemente.
Interagir com a aula é que é a prova,
muda e silenciosa é sua floração,
calado é o seu crescimento.

Mas pra mim, são ainda tambores de fevereiro
batendo forte no couro do pensamento.
Entro com pés delicados em outubro,
mas trago um coraçao recoberto pela flora de setembro.
Ah ,meu jardim eloqüente, cruzeiro, viagem, absoluto evento!
(é jardim como de toda a gente, mas só por ser meu é um jardim diferente.)

Está tudo aqui:
o trabalho do sol,
o ofício clarioso da luz,
seu tear didático e inconsúltil
no sofisticado cinema simples da fotossíntese.
É fotografia do mundo quando em paz,
é sua definição, sua possível síntese.

Há em ti todos os representantes da vida:
os quatro elementos, sua loucura,
seus divinos ventos,
a persistência das raízes,
a fina firmeza das hastes.
O resultado cromático pronunciado em pétalas,
tudo confirmando a nossa humana bravura no tempo.

E por cima desse tudo,
está a estação lírica do meu contentamento.
Escrevo o que vejo acontecer por debaixo da terra,
de acordo com a palestra estética e ética desta brotação.

Verde, verde, verde,
te amo, meu jardim absoluto!
Te levo comigo inteiro,
retrato três por quatro amarelado,
vivo e oculto dentro da carteira,
guardado como concreta subjetividade querida,
na algibeira traseira da calça comprida
da minha vida!

Cuidando de quem cuida

Ontem, eu estava na Fundação José Silveira, em Salvador, fazendo uma palestra show para aqueles que cuidam dos menores infratores. Meu tema era “Da Utilidade da Poesia” como método pedagógico e formação de indivíduo. Muito me assusta que a gente perca tantos adolescentes, tantos jovens nesses centros de reabilitação que acabam por não reconduzirem tais tenros cidadãos no caminho do sonho. Talvez a maior miséria emocional da humanidade seja a perda do sonho. Ouvi o depoimento de alguns “cuidadores” e sei da dificuldade que tem em não se transformarem em carcereiros daqueles meninos e sim um mestre capaz de desarticular rebeliões, mudar uma atitude agressiva, reverter uma atitude destruidora, através da palavra. Falta palavra nos presídios e o domínio dela. E também em nossas instituições educacionais que não são orientadas para uma educação que inclua a criatividade e a originalidade no seu cardápio principal. Se pensarmos bem há uma miséria emocional proposta pelo conceito da corrida do ouro, a obstinada competição à “ética” onde o dinheiro é o fiel da balança, e isso atravessa toda a sociedade. É prisioneiro dessa ideologia tanto o adolescente não infrator quanto o que está na prisão. Não se respeitam os adolescentes em nenhuma classe social. Erroneamente o mundo adulto os alcunha de “aborrecentes” deixando aberta uma porta de autorização para as mais estapafúrdias inconsequências. Outro exemplo: A violência doméstica revela a miséria emocional tanto da desdentada que apanha do marido bêbado de cachaça barata, quanto da mulher do executivo com a cara cheia de Black Label. Talvez a mulher pobre vá com mais facilidade a uma delegacia de mulheres. A chique passa maquiagem no hematoma e aceita a passagem que ele comprou para irem a Dubai fazer compras exóticas e esquecerem o episódio. Na reflexão de ontem diante daqueles sofridos Conselheiros Tutelares, administradores e técnicos que cuidam dessas pessoas desestruturadas em sua vida cidadã ficou claro mais uma vez como é importante que se cuide de quem cuida. Corremos o risco de reexcluir o excluído, de re-condenar a menina que a mãe expulsou de casa grávida do padrasto e que procurou abrigo e compreensão. Pode parecer absurdo os ingredientes que estou colocando na mesa, mas já repararam como nossa vida é cercada de cárceres conceituais? A estética arquitetônica das escolas e em especial das escolas públicas se assemelha às prisões, com seus pátios áridos e suas altas grades de ferro. A sirene que toca entre as disciplinas e até para anunciar a hora do recreio é a mesma dos presídios. E para fechar a analogia, o conhecimento na escola atende por nome de grade curricular. Levanto essa poeira porque quero tirá-la de debaixo do tapete. Quando vamos ver que o lugar do saber deve ser o mais atraente dos recintos, deve ser associado à música, ao teatro, ao cinema, à arte em geral. Como pode a arte continuar longe do ensino e da formação do indivíduo se o seu ofício desde o começo dos tempos é traduzir, revolucionar, informar, e formar a humanidade? Sei de professores que berram, agridem, estigmatizam, desprezam seus alunos “indisciplinados” porque não sabem lidar com o ser humano fora do seu padrão de” ideal”. O “educado” é o “nerd”, o quieto, o que não brinca, o que delata os colegas, o que nunca faz uma bagunça sequer. A escola não sabe o que fazer com o palhaço e quer tirar dele exatamente a palhaçada quando deveria dar-lhe função. É ele que deve ser escolhido para trazer e contar uma piada, de preferência de salão, e talvez até com os conteúdos da matéria. Bem como o aluno inquieto e hiperativo deve ser o escolhido para ser o ajudante da professora. Pode buscar o material já que ele acaba o dever antes dos outros. Em suma, o saber não pode temer a criatividade e nem a originalidade. Tudo que digo aqui, ao contrário do que possa parecer, não exclui a disciplina. Pelo contrário, o múltiplo convívio das liberdades não pode prescindir de acordos e regras. Mas a autoridade na base da força bruta não é autoridade, é só força bruta. Sem respeito e sem confiança não há autoridade. Há medo, traumas, profundas introspecções. Entre os profissionais que cuidam e educam a nossa sociedade há muitos sonhadores, gente de ótimas intenções, mas que se sente sozinha, desestimulada, desesperançada, perdida nessa confusão sistêmica. Portanto, professores, inspetores, policiais, diretores, cuidadores em geral, precisam, de formação contínua ,de capacitação emocional oferecida pelo Estado e as instituições de direito para que possam estar preparados para garantir os sonhos dos que estão sob os seus cuidados.

Parem de Falar Mal da Rotina em Sampa!

Queridos, este fim-de-semana próximo iniciarei uma curta temporada por São Paulo, no Teatro Vivo. Quem nunca viu, quem está com saudades, quem quer se atualizar (porque este é um espetáculo dinâmico e sempre tem coisas novas), tem esta ótima oportunidade! Segue o serviço e o site para quem quiser comprar os ingressos online. Espero vocês lá!

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