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	<title>A Lira que Alucinda</title>
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	<description>Blog Oficial da Atriz e Poeta Elisa Lucinda</description>
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		<title>Dorinha, a sereia de Jacaraípe</title>
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		<pubDate>Tue, 15 May 2012 19:05:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>elisalucinda</dc:creator>
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		<description><![CDATA[à minha irmã, Margarida Eugênia É a primeira vez que escrevo isso: Meu nome é Dora, Dora Alice Bastiana da Costa, mas os outros me tratam por Dorinha. Eu também me trato assim. É a primeira vez que escrevo meu nome sem ser em documento. Se bem que são os arredores de Jacaraípe, no ano [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: left;"><em>à minha irmã, Margarida Eugênia</em></p>
<p>É a primeira vez que escrevo isso: Meu nome é Dora, Dora Alice Bastiana da Costa, mas os outros me tratam por Dorinha. Eu também me trato assim. É a primeira vez que escrevo meu nome sem ser em documento. Se bem que são os arredores de Jacaraípe, no ano de 1968 e na aldeia em que moro quase num tem nada pra assinar não, bobo. Bem, se eu for do começo, eu vim ao mundo a barriga de minha mãe, dona Pretinha. Nossa casa era no quintal da casa de minha vó Menina. Os adultos da minha infância eram todos órfãos de leitura e vó Menina até inventou um alfabeto que só ela entendia. Fazia uns desenhos diferentes, dizia que era letra e enchia o caderno dela, que ela chamava de Diário de uma África. Meu pai era pescador, Alcides, irmão de seu Euclides. Mulherengo, o apelido do meu pai era Cidinho Boto; um homem casado com outra mulher, pai oficial de outra família e cheio de namoradas por aí. Com mamãe foi porque uma vez era de tarde, o sol caía de um lado, a lua nascendo no mar, dois corações de dezoito anos, nenhuma escola e muita vontade de amar. Nasci e cresci vendo e ouvindo homens que vem e que vão para o mar. Até que um dia Yemanjá mandou o meu. A vidente tinha dito já. Um dia na festa de São Benedito, meu avô Davino, mestre da banda de Congo da Serra, e nós danemos a dançar <em>adijunto</em>, eu num queria nunca mais parar. Na verdade, me apaixonei por ele de manhã, vendo o mar batendo na praia, e antes do meio dia aquele barco chegando, tendo um príncipe por capitão. Chegou luminoso, cheio de peixes na mão. O sol batendo prateava tudo, mas o nome do bicho era Dourado. Dourado também, logo depois da noite do congo, se tornou meu coração por ele. E batia de acordo com a onda do mar.</p>
<p>No sábado seguinte, eu não sei porque, porquê eu lá nada tinha que fazer,  fui parar  pros lado do riozinho, bem lá no centro mesmo de Jacaraípe, longe da minha aldeia. Parecia um chamado, meu vestido branco, cheio de florzinha no estampado, era muito parecido com as ondinhas que chegam na areia, na parte em que começa o babado. Parecia parente das ondas do mar. Se sereia fosse verdade, eu bem que podia ser agora uma delas. Não tinha ninguém na praia e eu pensava em Tavinho, fingia que o vento era ele. Fechava os olhos e sonhava que era ele soprando no meu pescoço, que era ele me conduzindo para o sul. De repente, é ele que eu vejo surgido sem camisa, só com aquela calça branca de algodão cru, parecendo um capoeirista do quadro que eu vi na revista da minha prima. Fiquei tão nervosa com o sorriso dele, com ele chegar assim, como que saído dos meus pensamentos, tomando a realidade, assaltando o fato e trazendo-se em acontecimento para dentro da minha fantasia. E disse: “Dorinha, você é a moça mais linda que eu já vi. Agora então, dançando nessa brisa, na luz do fim da tarde, nossa mãe!”. Fiquei vermelha, mas estava gostando. Meu rosto ficou quente e ele viu meu olhar dizendo: continua. E obedeceu: “Faz de conta que eu sou pintor ou desenhista e o lápis ou o pincel são os meus olhos. Onde eu olhar, você vai sentir, é eu riscando devagarzinho”. E assim foi, fiquei parada no tempo, suspensa no ar, e no meu ventre, de menina virgem ainda, sem saber porque, senti um pulsar. Tavinho me beijou delicado no final do “desenho”, o gosto era tão bom que parecia que a gente ia flutuar. Foi tudo rápido demais. Uma ladeira, um morro abaixo, de muito bom. Ninguém podia segurar o nosso amor. Foi debaixo do coqueiro, onde tinha uma barraca que era a garagem dos barcos, que eu fui dele a primeira vez.  Com aquela mania de me desenhar com o olhar, meu moreno gostoso, ficou olhando pros meus peitos e queria com eles se casar. Os peitos pareciam que escutavam a conversa, e começaram a se arrepiar. Meu noivo falou, eles estão dizendo sim, falou só para me caçoar. Mas eu sorri confiante e disse: eu sei, eles acabaram de aceitar. E logo depois do crepúsculo, eu já era casada com ele, quando a aliança é a carne do amor. Três dias depois, me chamou na praia, disse que tinha feito um palácio para o reino do nosso amor, e que era um palácio que andava, que podia estar em todos os lugares e que o construíra em memória e em louvor àquela nossa primeira vez. Me levou pela mão, de olhos vendados para ver a surpresa. Eu descalça, sentia a mudança do grão da terra nos meus pés, uma parte era mato, outra parte era areia, outra parte era lama, e tudo era estrada de chão; passamos por uma florestinha de arbustos, cheia de Dedos de Capeta, planta muito comum nessas bandas. Mas eu ia. Nas asas daquela confiança. Chegamos ao local, tirei o lenço dos olhos e vi o palácio. Era um barco novo, azul e branco, lindo, onde estava escrito <strong>“<em>Dorinha, meu amor”</em>.</strong></p>
<p>Eu nunca tinha chorado de felicidade, era a primeira vez. Graças a Deus vó Menina estava chegando na praia aquela hora e parecendo uma Yemanjá velha falou: “Esse barco é o casamento de vocês”. E foi. O sonho de Tavinho era a nossa família, as duas filhas que tivemos e a vontade de estudar. “Sabe Dorinha, se eu não fosse pescador, eu ia ser escritor. E existe isso? – eu perguntei. Existe, uai, e tem mais, dentro do escritor o sujeito ainda pode ser poeta; o anzol deles é a palavra. Eu acho que não ia ser difícil pra mim”. Mas não tinha escola perto e a família não tinha costume. Todo dia quando ele ia pro mar, lá ia eu pra beira na hora combinada esperando ele voltar. Uma vez na casa da minha madrinha, lá em Manguinhos, eu ouvi um disco dum homem chamado Dorival. Acho que ele era pescador, porque falava assim “O bem de terra é aquela que fica na beira da praia quando a gente vai, o bem de terra é aquela que chora e faz que não chora quando a gente sai”. Aquele bem era eu, o Dorival baiano do disco sabia de mim. Num domingo Tavinho acordou, me beijou com aqueles olhos de mel que eram só dele. E me disse que ia voltar com tanto peixe que dava pra casar duas filhas. Eu ri, Tavinho era bobo! Partiu no Dorinha, numa praia de céu azul e mar calmo :“hoje eu vou lá fora , tô disposto”, quando dizia lá fora era mais pra dentro no mar, no alto mar. Partiu de manhãzinha e no meio do dia o tempo começou a virar. Eu vi, não foi ninguém que me contou. Anoiteceu, no meio do dia claro pra todo mundo ver, o céu tava escuro que dava medo da palavra chover. Quem viu pensou que o mundo fosse acabar. Choveu muito, de relampejar, outros pescadores chegaram, mas meu homem não voltou do mar. Nem ele, nem barco, nem peixe, nem nada! Fiquei doida perambulado, gritando o nome dele, na lua cheia das três madrugadas seguintes. Não queria mais comer, não queria mais cuidar da minha cria, não queria mais viver. Fiquei doida achando que um dia ele ia voltar, mesmo vendo seu corpo chegar na areia, roído de peixe, podre de assombrar. Durante um ano inteiro, eu fui na beira do mar. Me levaram ao curandeiro, mas não adiantava, meu coração não queria descansar, meu porto  era a beira na beira da praia. Um dia, me deu um desespero e eu fui entrando no mar, acho que o meu pensamento era de  me afogar; mas vinha um barco, um pingo, um ponto de vista branco no meio da paisagem. Se aproxima. Meu Deus, era o Dorinha! Voltando inteiro, seria possível que nele meu amor também voltasse? Corri para o barco, vim puxando pela corda com uma força escomunal. O que havia nele eu vou dizer: um cardume de livros! Livros didáticos, de geografia, histórica, matemática, português, ciências, uma caixa escrito biblioteca, onde tinha Pedagogia da Esperança, livro de Paulo Freire.  Recolhi tudo e na luz de vela de minha aldeia aprendi sózinha o A da água, o R da rede, o M do Mar. Aprendi a ler e a escrever sozinha. Presente do meu pescador. Essa é a primeira vez que escrevo a minha história.</p>
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		<title>Livre para Criar &#8211; Parte 2</title>
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		<pubDate>Thu, 26 Apr 2012 18:34:43 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[O melhor da brincadeira do Primeiro de Abril é o uso do imaginário. Ao contar a mentira, ou melhor, a não verdade, estabelece-se um pacto de fé na informação que leva ao receptor da pegadinha, a vítima, dispor toda a sua lógica a serviço daquilo que lhe parece realidade. Assim a mentira toma o lugar [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O melhor da brincadeira do Primeiro de Abril é o uso do imaginário. Ao contar a mentira, ou melhor, a não verdade, estabelece-se um pacto de fé na informação que leva ao receptor da pegadinha, a vítima, dispor toda a sua lógica a serviço daquilo que lhe parece realidade. Assim a mentira toma o lugar da verdade e é desse degrau que o bobo cai quando descobre a &#8220;trapaça&#8221;. Quem faz a pegadinha está a trapacear com as cartas da verdade e as cartas que inventou. Na mesa essa teoria, continuei meu intento: Alô meu irmão querido, estou aqui embaixo, seu interfone não está funcionando? &#8220;Como assim, você está aqui embaixo? Você está em Vitória?&#8221; Cheguei de manhã, trabalhei até agora nem tive tempo de te avisar. Desce aqui. &#8220;Sério, Elisa, você está aqui embaixo? Pô meu interfone está bom, cadê os porteiros?&#8221; O porteiro me disse que o interfone estava avariado. &#8220;Que ótimo que você está aqui embaixo, minha irmã. Eu vou descer pra te ajudar então. Você em Vitória, como que eu não sabia disso? Se apresentou aonde?&#8221;. No Teatro Primeiro de Abril, conhece? Me desfilou uma série de xingamentos só permitidos aos irmãos, enquanto ríamos da brincadeira gaiata que  está no DNA da minha família. Já era a minha sexta vítima do dia, porque em verdade não tenho mesmo espaço para contar todas aqui. Já na noite do domingão, sabedora de que minha querida Zezé Polessa se encontrava no Festival de Teatro de Curitiba, liguei para o seu celular dizendo que estava lá também. &#8220;Mentira, Elisa, você está aqui? Ai não acredito!&#8221; Tô, eu respondi, vamos ferver em Curitiba? Acabei de sair de uma peça ótima. &#8220;Nossa, eu também, você não veio participar?&#8221; Não, eu dei uma escapadinha da novela e vim assistir há pelo menos duas peças. &#8220;Ai Elisa, minha querida, eu tô num barzinho aqui, o Babilônia.&#8221; Você tá no Babilônia? Eu também!(eu pirando o cabeção dela). &#8220;Não, não acredito&#8221;. E um som vem abafado porque ela grita para mesa, eufórica: &#8220;Minha amiga tá aqui!&#8221;. &#8220;Você está em que mesa, tá lá fora?&#8221; Não, estou dentro, vai andando até em direção a porta. &#8220;Tô indo, ai não acredito!&#8221;Tô em frente a porta, cadê você? Agora olhe para a direita, em cima não tem uma plaquinha  escrito Primeiro de Abril. &#8220;Eu não acredito Elisa, você está no Rio? Sua filha da puta, ah não gostei não, já estava imaginando a gente rindo, sua chata, sua feia.&#8221; E depois se acabou de rir. Puxa, esqueci que era Primeiro de Abril, acabei não pegando ninguém, que genial Elisa, que genial. É teatro por telefone. Rimos combinamos um novo encontro, dessa vez dentro da realidade. Esta era minha sétima e última vítima.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Ainda tinha ligado para o meu filho, no crepúsculo, para perguntar por que ele não tinha perguntado nada sobre as duas dúzias de limão galego (fruto pelo qual ele tem loucura) que eu tinha deixado na portaria dele. O bichinho com água na boca me perguntou: &#8220;Quando mamãe, quando? Porque o porteiro não me entregou nada, nem recado me deu&#8221;. Oh meu Deus, meu filho, estavam tão maduros, espero que não tenha estragado. &#8220;Mas esquisito mãe, é que eu estive com o porteiro agora, batendo papo com ele lá embaixo. Que estranho. Bem filho, se você esteve com ele e ele não te disse nada, isto parece ser um típico caso de Primeiro de abril. &#8220;Eu sabia mãe, eu sabia&#8221;. Ele disse rindo com aquela cara linda. &#8220;Estava até estranhando você não ter ligado ainda. Só me dei mal porque tinha esquecido que já tinha pensado nisso hoje&#8221;.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Ao dormir, me considerei vitoriosa por influência, por tabela. Eu explico. Eram dez para meia noite, nós dois na cama, meu namorado diz: &#8220;Meu Deus, fiquei assistindo ao seu jogo o dia inteiro e não peguei ninguém. Já sei, vou ligar pro meu irmão e dizer que a nossa casa de Inhaúma está pegando fogo!&#8221; Incentivei, isso mesmo, liga liga. Falei com cara de uma espécie de capetinha que trabalha muito nesse dia. &#8220;Alô Marcelo, cara, a casa de Inhaúma tá pegando fogo&#8221;. O pobre do Marcelo que estava inclusive com pretensões de vendê-la, ficou desesperado, &#8220;pelo amor de Deus meu irmão, não me diga uma coisa dessa. Será que tem alguém dentro da casa?&#8221; Não, me ligaram dizendo que não tem ninguém lá. &#8220;Então vou ligar pro celular da inquilina agora&#8221;. Oh, mas quando você ligar não esquece de dizer que é Primeiro de Abril, tá? O irmão ficou indignado com a mentira, mas no final a graça sempre vence. Meu namorado dormiu satisfeito com sua única vitória e eu mais satisfeita ainda, porque considerei aquele gol também de minha autoria. Acho que todos  devíamos comemorar este dia com seu ritual de transitar entre a realidade e a ficção.  Devemos manter a tradição, brincar com as crianças. O meu massagista Murilo, por exemplo, foi vítima da pegadinha de um menino de cinco: &#8220;Tio,  não sei porque voltei a fazer xixi na calça&#8221; e Murilo já preocupado: como isso, desde quando, meu sobrinho? &#8220;Desde quando era Primeiro de Abril, seu bobo.&#8221; Se pensarmos bem é uma grande bobagem, mas onde se estabelece o chiste, a piada encenada, a anedota como charada, armada como verdade no espaço da ilusão; ou melhor, armada como verdade no espaço da Verdade mas suas peças são de ilusão. Isso pra mim funciona como um carnaval, onde as pessoas se fantasiam do seu desejo. É a mesma libertação, um dia que todos estamos autorizados a louvar a Mentira e ao fazê-lo nos permitimos viver seu fundamento inocente, sem danos, sem prejuízo real de ninguém. Tenho amigos mais radicais do que eu  nesse ofício. São poucos é bem verdade, mas são muito bons. Destaco, entre eles, minha amiga Mabel Veloso, irmã do nosso Caetano. Esta teve um câncer, se recuperou, cabelo caiu, cabelo renasceu e, como é muito querida, convidou aos vizinhos, todos torcedores de sua saúde plena, para um jantar na sua casa. Os convivas ao chegarem à porta encontram um silêncio e afixado um bilhete: &#8220;meus amigos amados, eu adoraria com vocês comer e beber essa noite e isso seria absolutamente possível se não fosse Primeiro de Abril. Beijos, Mabel. Fui ao cinema.&#8221; É mais ousada, eu reconheço, atravessou o portal e levou a todos a realmente fazer um passeio na via pública da ilusão. O Primeiro de Abril nos põe íntimos de nossa capacidade de criar, de inventar, de interferir no universo ao nosso redor. Ao inventarmos, recriamos nossas brincadeiras de infância, imaginadas do nosso sonho construindo um castelo de areia, brincando com peões ou de ferrinho no chão de terra batida. É melhor brincar com a mentira no dia dela, no dia em que somos por ela autorizados, do que ser dela seu escravo na vida real, sem nunca desmentir a farsa.</p>
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		<title>Livre para brincar</title>
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		<pubDate>Thu, 12 Apr 2012 16:34:45 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Desembarcado na minha estação preferida, meu coração acordou com vontade de brincar. Era domingo, e só de tarde percebi que se tratava do dia 1º de abril. E comecei já com meu namorado. Fomos à feira comprar peixe, de bicicleta pela Lagoa, sob a brisa fresca da nova estação. Enquanto meus olhos percorriam dourados, sardas, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Desembarcado na minha estação preferida, meu coração acordou com vontade de brincar. Era domingo, e só de tarde percebi que se tratava do dia 1º de abril. E comecei já com meu namorado. Fomos à feira comprar peixe, de bicicleta pela Lagoa, sob a brisa fresca da nova estação. Enquanto meus olhos percorriam dourados, sardas, pescadas, cações, polvos e camarões, meu namorado se postara vigilante nas bicicletas. Quando cheguei com os peixes, ele me perguntou: &#8220;Tudo bem?&#8221; Eu disse: &#8220;Mais ou menos, aquele moço do peixe falou que se era pra eu vir com este short, era melhor vir nua.&#8221;</p>
<p>Meu amor me viu desrespeitada e se sentiu desrespeitado também: &#8220;Mas que abusado, quem foi o babaca que falou?&#8221;. Ao me virar, com muita vontade de rir, mas me controlando, apontei para um dos inocentes da barraca de peixe: &#8220;foi aquele ali, o apelido dele é 1º de abril.&#8221; Foi então que meu querido percebeu que tinha caído na tradicional brincadeira do Dia da Mentira. Rimos muito.</p>
<p>Parti para minha segunda vítima. Tratava- se agora do meu massagista e acunputurista que, eventualmente, me atendia no domingo. Como eu voltava da feira e de bike, estava transpirando muito. Quando o encontrei ao chegar em casa, perguntei se dava tempo de uma ducha. Que sim, ele respondeu.</p>
<p>Ao sair do banheiro, cheguei perto dele e disse: &#8220;Murilo, não sei o que aconteceu com meu braço, não consigo mexer.&#8221; &#8220;Como assim? Foi durante o banho?&#8221; &#8220;Foi. Eu peguei o sabonete na prateleira de cima do box e, quando voltei, já não sentia meu braço.&#8221; &#8220;Não é possível, Elisa, deixe-me ver. Consegue levantar?&#8221; &#8220;Não, nem pensar! (Deus que me perdoe, pensei).&#8221; &#8220;Que estranho, Elisa. Vamos às agulhas.&#8221; &#8220;Mas, Murilo, agora que lembrei, será que esse não é um caso típico de 1º de abril?&#8221;</p>
<p>A princípio ele me xingou, rindo, mas logo tratou de pensar nas suas possíveis vítimas. Porque o negócio contamina. Me pediu uma sugestão. Sugeri que ele fizesse uma pegadinha com múltiplos efeitos, que de uma só tacada pegasse a família toda. Foi o que fez dizendo a todos que sua namorada, que ele tinha acabado de conhecer, tinha engravidado. A mãe se emocionou, e foi um choque geral a hora da verdade.</p>
<p>Minha próxima vítima seria minha amiga Geovana Pires. Como estávamos esperando a resposta de um patrocínio para nossa Casa Poema, liguei pra ela inventando: &#8220;Sabe quem me ligou? Angélica.&#8221; E ela, rápida no gatilho, me respondeu: &#8220;Ela ligou pra mim também&#8221;. &#8220;O que ela queria?&#8221; &#8220;Ela queria me dizer que hoje é 1º de abril, hehehe!&#8221;</p>
<p>Ok, Geovana ganhara de mim, mas eu ainda era campeã. E o dia ainda não havia terminado. Parti para os golpes interestaduais, que são mais críveis, visto que ninguém imagina que alguém esteja dando um interubano pra passar um trote, ainda que esse alguém seja eu, que já tenho fama de gaiata.</p>
<p>Liguei para o meu pai, velho autor de muitas pegadinhas. Infelizmente, não o encontrei. Salvou-se. Liguei para a minha irmã, fiz voz de homem: &#8220;Aqui é Celso do Xermec, boa tarde, Margarida Eugênia, por favor?. &#8220;É ela!&#8221; &#8220;Bem, Margarida, em primeiro lugar, gostaria de te dar um breve relato de uma proposta que eu tenho para 2014, desculpa te ligar no domingo, é que sou prevenido.&#8221;</p>
<p>Minha irmã, visivelmente sem paciência e tentando ser elegante como de costume: &#8220;O senhor poderia me ligar na segunda-feira, eu não estou ouvindo bem, estou com problema na minha linha.&#8221; &#8220;Não por favor, eu gostaria de lhe dar uma pequena explicação, a senhora tem aí uns 50 minutos?&#8221; Silêncio do lado dela. &#8220;Eu até que ia bem, mas, infelizmente, ao ver que ela estava acreditando, me descontrolei e comecei a rir dizendo: &#8220;É que aqui é do Xermec, sede 1º de abril. Nos divertimos, brincando como quando éramos meninas. Ousei Arimathea, outro irmão. Infelizmente, meu espaço aqui acabou e continuarei na próxima crônica, daqui a 15 dias. Parece bobagem, mas essa é uma crônica sobre a liberdade.</p>
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		<title>A aula do Recreio</title>
		<link>http://www.escolalucinda.com.br/alira/2012/04/10/a-aula-do-recreio/</link>
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		<pubDate>Tue, 10 Apr 2012 14:34:20 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Amo esse rio como se ama um menino. A chuva que ajuda a caminhar melhora meu destino. O sol na tarde da Vila confirma a vocação destas tardes para o papel de paraíso. Queria que ele estivesse aqui comigo, Ele, o amor que também é amigo. Quem ficou na cidade mora em meu peito. Comigo. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Amo esse rio como se ama um menino.<br />
A chuva que ajuda a caminhar melhora meu destino.<br />
O sol na tarde da Vila confirma a vocação destas tardes para o papel de paraíso.<br />
Queria que ele estivesse aqui comigo,<br />
Ele, o amor que também é amigo.<br />
Quem ficou na cidade mora em meu peito.<br />
Comigo.</p>
<p>Como sabe agradar minha dama e rondar minha fêmea,<br />
não sai do meu pensamento.<br />
Mas agora meu serviço aqui é atravessar o rio no assovio do vento.<br />
Dormir nele aconchegada como se leito real fosse,<br />
a receber sua água doce.</p>
<p>Tem concha na palavra aconchego<br />
Menino rio, que graça de amor, que amor de beijo inocente<br />
tem a doçura de suas águas mornas e calmas,<br />
tem o caminho claro e líquido onde desfila sua correnteza!<br />
A água leva a pedra e por isso não está mais aqui<br />
aquele pedaço de rocha da última primavera.</p>
<p>Não mais no mesmo rio impera aquele grande seixo meio sépia meio dourado meio negro que julgávamos  firme  e capaz de sustentar nossos corpos, de dar apoio ao salto, trampolim ao desejo.</p>
<p>Pois que a pedra foi levada pela água para outra parte da maleável estrada, provando que de fixo mesmo não há nada.<br />
O menino rio me ensinara que nem sempre o mais duro é o mais forte.</p>
<p>Sem precisar de muito volume o que é água penetra no sólido<br />
e tira da terra sua estrutura de chão e o solo revolve.<br />
Por um momento, enquanto areia e água se fundem,<br />
o que ali morava, baila, dança, se move.</p>
<p>Na infinita brincadeira que também é aula me divirto<br />
enquanto tiro boas notas, eu acho. Vejo na face da professora.<br />
Com aprovação, me olha serena da cabeceira do rio,<br />
seu trono de ouro de onde ministra as matérias do  verde reino.<br />
Senhora da persistência, sorri e me diz que não há conquista sem paciência.</p>
<p>Meu pensamento nada até a cidade para buscar o amor<br />
E fazer amor com ele no rio.<br />
Ele vem, eu suponho.<br />
Na tarde onde me rio,<br />
tudo aqui é sonho.</p>
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		<title>As raspas da família</title>
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		<pubDate>Wed, 14 Mar 2012 16:49:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>elisalucinda</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Descobri estes escrito em uma agenda minha. Trata-se de um pensamento feminino e, embora vindo dos interiores simples de uma cozinha, pode refletir, e o faz, nos arredores do mundo. Este dia era o dia do aniversário da Casa Poema. O diário íntimo daquele dia publico hoje aqui. Coisas de mulher. Amanheci afoita para rechear [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Descobri estes escrito em uma agenda minha. Trata-se de um pensamento feminino e, embora vindo dos interiores simples de uma cozinha, pode refletir, e o faz, nos arredores do mundo. Este dia era o dia do aniversário da Casa Poema. O diário íntimo daquele dia publico hoje aqui. Coisas de mulher.</p>
<p>Amanheci afoita para rechear e confeitar o bolo do primeiro aninho do aniversário da Casa Poema. O bolo havia sido preparado no dia anterior, como deve ser. Eu estava disposta a fazer um bolo de época; sim, porque a cena me lançava às festas da infância, quando Dona Filinha, a boleira de Itaquari, se mudava pra casa do anfitrião para confeccionar o bolo, de véspera, e confeitá-lo na manhã seguinte. Nossa câmera dá um zoom sobre os apetrechos daquela mesa: ovos, raspas de casca de limão, bicos moldadores de glacês, anilinas, aromas, baunilhas. Eu pequena não tirava os olhos de Dona Filinha, cujos dentes não eram dos melhores, mas que, entre sorrisos, estava sempre a, higienicamente incorreta, lamber os dedos enquanto realizava sua arte. Mamãe também confeitava e, por osmose e testemunhação, aprendi muito.</p>
<p>Enquanto escrevo de cabeça essas memórias de meus mortos, ferve à minha frente o primeiro recheio, com leite condensado, coco e ameixa sem caroço. Enquanto a mistura atinge seu ponto, retiro em lâminas bem fininhas a casca superior do bolo, que vai receber o recheio. Reservo-as no prato ao lado. Repito a dose na parte inferior do bolo de cima, que vai cobrir o recheio. O cheiro de infância exala do tacho. Um pouco de creme de leite pra quebrar o excesso de açúcar, mais uma mexida final, a densa estrutura cremosa soltando do fundo da panela e o derrame dela sobre a superfície que a espera. Com o dedo indicador, raspo as laterais pra tirar o excesso. O que sobra vai se juntar ao mesmo prato ao lado.</p>
<p>Sem lamber os dedos, lavo as mãos e me preparo para o recheio de goiabada. O ritual se repete: fervura, o ponto leitoso, as sobras do que foi trigo, massa, recheio, vão todas para o prato ao lado. Vou guardá-las para o meu filho, penso. Isso porque, na película do passado, nos corredores da casa do amoroso subúrbio capixaba, as crianças disputam essas crostas e raspas: a colher de pau e o tacho são de Margarida. A panela toda agarradinha de doce de goiaba é de Cristina, e o tal prato com um pouco de tudo é posto na mesinha dos três menores, Lino, Théia e Elisa. As raspas são dos de casa.</p>
<p>Depois de cobri-lo com chocolates e morangos, salpiquei rosinhas de pano, florezinhas azuis de cetim. Fotografei, cantei. Como era importante todo aquele making of de cozinha para mim, cujo protagonista era esse prato de restos do qual meu pensamento não arredou mais pé. Um olhar mais profundo sobre a dramaturgia humana e aparecem também, embora em subjetivos recipientes, as raspas das unhas, das esfoliações; as podas das barbas, cabelos, bigodes, axilas e púbis que se diluem no redemoinho espumante sobre os ralos dos banheiros. Há as raspas do que é polido nas atitudes que, ainda que venham de reflexões do chuveiro, não se quedam restritas aos azulejos. Restos, farpas e raspas habitam nosso arvoredo diário. Há de tudo, de ascos a delícias, e tudo é daquela aldeia.</p>
<p>Todo Natal meu pai pintava a casa e eu gostava, como até hoje aprecio, de ver parede sendo lixada, ver seu interior, suas camadas de tintas passadas; azuis que se cumpriram, amarelos que venceram, verdes que se outonaram. De alguma maneira, essa renovação agrada ao meu coração. Lixar a casa até revelar seu âmago, seu osso. Pintá-la depois, nova, renascida, reinventada. Tudo que se produz num lar, segredos, amores, comidas, adornos, rancores, maldades, chantagens, belezas e temores que ocupam as fendas e as frestas deste lar, têm seus farelos, fabricam seus pós. Tudo isso me diz que devemos cuidar de tudo, absolutamente tudo que é vivo e atua, quase desprezado, no interior das residências em suas urgências, seus desabafos e seus mofados.</p>
<p>O bolo ficou lindo, está pronto, representa a vitória do primeiro ano da Casa Poema, mas o que aqui é realmente meu tema vem dessa tigela de porcelana com restos; desse prato fundíssimo com as raspas da vida humana. São todas da família.</p>
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		<title>Olha Cariacica aí, gente!</title>
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		<pubDate>Tue, 14 Feb 2012 20:27:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>elisalucinda</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Navego calma na tarde linda de um fevereiro retumbante. Quem diria que, quando Jace Teodoro, amigo e ilustre colega cronista deste espaço, me ligou pra me convidar em nome da escola para que eu fosse dela enredo, eu não imaginava a que viagem aquela homenagem chegaria. Hoje, dia em que chego aqui em Itaúnas a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Navego calma na tarde linda de um fevereiro retumbante. Quem diria que, quando Jace Teodoro, amigo e ilustre colega cronista deste espaço, me ligou pra me convidar em nome da escola para que eu fosse dela enredo, eu não imaginava a que viagem aquela homenagem chegaria. Hoje, dia em que chego aqui em Itaúnas a fim de terminar um livro e cumprir um compromisso editorial, o que grita, mais que o resto brilhoso do que sobrara de purpurina na trama dos cabelos,  é uma alma em êxtase ainda não desperta do maravilhoso sonho que vivera. Meu deus, o que era aquele mar de gente batendo no peito cantando meu nome, gritando com orgulho que <em>ser capixaba também é chique? </em>Épico, cinematográfico sonho? O maior teatro popular do mundo estava acontecendo ali, e meu desejo de querer que  o Espirito Santo entre na programação turística e cultural do país virando realidade . É isso mesmo, e quem me lê sabe: quero mostrar meu lugar aos quatro ventos, ostentá-lo no peito porque lindo e talentoso ele já é por natureza. O desfile da Boa Vista no Sambão do Povo na madrugada de sábado para domingo foi histórico, emblemático. Desculpa eu falar, mas o faço porque quando esse jornal for impresso, já terei entregue esta crônica e sem saber do resultado. Então, posso falar. Não sei o que os jurados acharam mas, na visão do último carro que era de onde estávamos como se fosse num navio, o espetáculo era deslumbrante: as cores, o fino das fantasias, o enredo visto de costas era um mar de beleza. No entanto, acima de tudo o calor que vinha do chão, da alma do povo cariaciquense esquentando  a avenida era o que mais se via . Estávamos eu, meu filho, meu pai, minha irmã, meus irmãos, os sobrinhos, meus amigos daqui, e parceiros amigos da Casa Poema que vieram do Rio para o espetáculo; éramos todos da mesma tripulação levando o mesmo leme. Depois,  comentei com Regina Duarte  que quando entramos, o palco já estava no ponto. Afinal os palcos têm temperaturas e quem os aquece é o carisma, o poder dos atores. Nesse sentido nossa escola exuberou! A verdade do que eu digo estaria comprometida pela parcialidade do meu afeto, ou seja, poderia parecer que estou aqui puxando a sardinha para a minha lata, se não  tivesse havido aquele alarido, a ovação geral cantando com o coração na boca. Loucura, choro, gritaria era o que brotava concomitante, do camarote às arquibancadas, da concentração aos repórteres da ocasião.  Todo mundo, inclusive de outras escolas, se sentia chique por ser capixaba e poder bradá- lo numa manifestação coletiva de amor à terra talvez jamais vista por aqui . Não sou especialista em carnaval capixaba mas do assunto que  falo, aquilo parecia estreia . Quando Regina Duarte e Ana Carolina aceitaram o convite foi como se elas estivessem dizendo sim ao Espírito Santo onde só tinham vindo a trabalho até então.  Amorosas e elegantes aceitaram vir, por honra da nossa amizade e uma deferência ao nosso povo.  E estão encantadas, pois curtiram um surpreendente carnaval. Seria injusto não elogiar o desfile em geral do jovem e cada vez mais competente carnaval capixaba. Parabéns para todos, e atenção Estado, prefeituras, Lieses, empresários, não se acanhem não, podem caprichar melhor e mais, porque que isso aqui está pegando, e sua data é muito propícia, turisticamente falando. Significa investimento e crescimento econômico pra nós na indústria do entretenimento. Além do mais nosso Sambão é mais perto da plateia que no Sambódromo, aí, a relação com o publico fica mais íntima, mais interativa. Quero ver mais artistas plásticos dialogando com os barracões, que cada vez mais artistas de todos os setores sejam contratados para servir à festa do povo e junto a esse, criar. Em Ibiraçu, a caminho do Reino de Itaúnas ouvi dizerem muito bem desta nossa festa. Gente que vem há cinco anos e considerou este o mais maravilhoso. Tenho mais pra dizer mas falta espaço. Continuo depois. Por agora nesta tarde gloriosa, olho lá pra fora e o sol na bananeira prova que vejo aqui é uma réplica do quintal de Itaquarí.</p>
<p>Obrigada terra amada!</p>
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		<title>Som na caixa!</title>
		<link>http://www.escolalucinda.com.br/alira/2012/01/25/som-na-caixa/</link>
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		<pubDate>Wed, 25 Jan 2012 17:51:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>elisalucinda</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>

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		<description><![CDATA[A tarde cai com maestria e brilha. Tenho vontade de cantar  a ponto de estourar! Meus erros se dissolvem, os problemas se constrangem diante do  belo fogo amarelo pintando a barra do dia. Deslumbrante modo este do sol se pôr. Quem pode com a beleza da vida, meu pai? Quem pode duvidar do milagre da transitoriedade? Tudo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-family: Cambria; font-size: medium;">A tarde cai com maestria e brilha.</span></p>
<p><span style="font-family: Cambria; font-size: medium;">Tenho vontade de cantar  a ponto de estourar!</span></p>
<p><span style="font-family: Cambria; font-size: medium;">Meus erros se dissolvem, os problemas se constrangem</span></p>
<p><span style="font-family: Cambria; font-size: medium;">diante do  belo fogo amarelo pintando a barra do dia.</span></p>
<p><span style="font-family: Cambria; font-size: medium;">Deslumbrante modo este do sol se pôr.</span></p>
<p><span style="font-family: Cambria; font-size: medium;">Quem pode com a beleza da vida, meu pai?</span></p>
<p><span style="font-family: Cambria; font-size: medium;">Quem pode duvidar do milagre da transitoriedade?</span></p>
<p><span style="font-family: Cambria; font-size: medium;">Tudo isso, as flores, esta brisa, os bilhetes de amor,</span></p>
<p><span style="font-family: Cambria; font-size: medium;">os lençóis marcados de  beijos , os rouxinóis e eu , tudo passará!</span></p>
<p><span style="font-family: Cambria; font-size: medium;">Menos essa vida que pulsa e é sempre outra</span></p>
<p><span style="font-family: Cambria; font-size: medium;">e  que se põe em presença de todos os viventes a cada tempo.</span></p>
<p><span style="font-family: Cambria; font-size: medium;">Que se mostra nua, crua,  bela , poderosa,  senhora  flutuante entre os ventos.</span></p>
<p><span style="font-family: Cambria; font-size: medium;"> </span></p>
<p><span style="font-family: Cambria; font-size: medium;">Desço a rua ladeira onde teço  meus dias,</span></p>
<p><span style="font-family: Cambria; font-size: medium;">onde vive minha casa branca,</span></p>
<p><span style="font-family: Cambria; font-size: medium;">porto seguro de minha alma com olhos acostumados a reparar.</span></p>
<p><span style="font-family: Cambria; font-size: medium;">Acabada de se banhar, a mesma alma, cheirando à colônia dama da tarde,</span></p>
<p><span style="font-family: Cambria; font-size: medium;">quase dança dentro do vestido florido de mulher e de menina.</span></p>
<p><span style="font-family: Cambria; font-size: medium;">Azul o céu para onde vou e é azul também  o que deixo atrás das colinas.</span></p>
<p><span style="font-family: Cambria; font-size: medium;">Todos os óbvios são mistérios: da sensação de batismo que dá um cabelo molhado e limpo roçando a nuca da gente, até os comoventes coloridos celofanes que envolvem os docinhos confeitados das festas de criança.</span></p>
<p><span style="font-family: Cambria; font-size: medium;">Tudo é enigmaticamente simples. Todo presente vira logo lembrança.</span></p>
<p><span style="font-family: Cambria; font-size: medium;">O parentesco entre as coisas  é tão natural que parece que todo mundo entende o motivo pelo qual as pipas são primas das bandeirinhas de São João .</span></p>
<p><span style="font-family: Cambria; font-size: medium;">É um prazer saber. Nem sei se eu sei não.</span></p>
<p><span style="font-family: Cambria; font-size: medium;">Mas me excita viver!</span></p>
<p><span style="font-family: Cambria; font-size: medium;"> </span></p>
<p><span style="font-family: Cambria; font-size: medium;">Izidoro pintando a varanda, faz cheiro de Natal vir das paredes.</span></p>
<p><span style="font-family: Cambria; font-size: medium;">Varanda, ô palavra ensolarada!</span></p>
<p><span style="font-family: Cambria; font-size: medium;">Todo ano meu pai pintava nossa casa  em dezembro.</span></p>
<p><span><span style="font-family: Cambria; font-size: medium;"> Eu sigo a tradição só pra sentir a bagunça gostosa que a memória olfativa das</span></span></p>
<p><span style="font-family: Cambria; font-size: medium;">cores  apronta em meu coração.</span></p>
<p><span style="font-family: Cambria; font-size: medium;">Não trago novidades.</span></p>
<p><span style="font-family: Cambria; font-size: medium;">Sou apenas vítima da claridade de uma estação.</span></p>
<p><span style="font-family: Cambria; font-size: medium;">Minha voz quer sair do peito para se juntar ao grande coro e com razão:</span></p>
<p><span style="font-family: Cambria; font-size: medium;">Louvando a intensidade de cada instante</span></p>
<p><span style="font-family: Cambria; font-size: medium;">as cigarras sempre cantam no verão.</span></p>
<p><span style="font-family: Cambria; font-size: medium;"> </span></p>
<p><span style="font-family: Cambria; font-size: medium;">                              <wbr>                              <wbr>                              <wbr>                    </wbr></wbr></wbr></span></p>
<p><span style="font-family: Cambria;"><span style="font-size: xx-small;">                              <wbr>                              <wbr>                              <wbr>                   </wbr></wbr></wbr></span><span style="font-size: x-small;"> </span><span style="font-size: x-small;">   elisa lucinda/ Fim de tarde de janeiro/2012</span></span></p>
<div id="tweetbutton311" class="tw_button" style="float: left; margin-bottom: 18px;"><a href="http://twitter.com/share?url=http%3A%2F%2Fwww.escolalucinda.com.br%2Falira%2F2012%2F01%2F25%2Fsom-na-caixa%2F&amp;via=lucindaelisa&amp;text=Som%20na%20caixa%21&amp;related=&amp;lang=en&amp;count=horizontal&amp;counturl=http%3A%2F%2Fwww.escolalucinda.com.br%2Falira%2F2012%2F01%2F25%2Fsom-na-caixa%2F" class="twitter-share-button"  style="width:55px;height:22px;background:transparent url('http://www.escolalucinda.com.br/alira/wp-content/plugins/wp-tweet-button/tweetn.png') no-repeat  0 0;text-align:left;text-indent:-9999px;display:block;">Tweet</a></div>]]></content:encoded>
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		<title>Biotônico Fontoura</title>
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		<pubDate>Tue, 10 Jan 2012 14:22:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>elisalucinda</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>

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		<description><![CDATA[Tomo sobre a cabeça as últimas águas de um dezembro chuvoso. Cada pingo significa pra mim que nunca mais dois mil e onze daqui à pouco. É pouco o presente de  um homem sem a esperança dentro. Reduz a extensão das coisas. Não sei se este será o último banho celeste do ano, por isso [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Tomo sobre a cabeça as últimas águas de um dezembro chuvoso.<br />
Cada pingo significa pra mim que nunca mais dois mil e onze daqui à pouco.</p>
<p>É pouco o presente de  um homem sem a esperança dentro.<br />
Reduz a extensão das coisas.<br />
Não sei se este será o último banho celeste do ano, por isso não me despeço.<br />
Deixo que chova em mim e sobre mim a mais famosa das orações sem sujeito: chove.<br />
O que em meu peito lateja gostoso  é esse amor pelo  Universo.<br />
O que eu tomo não é remédio. É fortificante!<br />
Recomendável  ao ser em criança e em adulto.</p>
<p>É pela poesia  do  mundo que luto.<br />
O sujeito oculto no verbo não quer dizer que a coisa esteja sem comando.<br />
Não. Também determino e faço escolhas onde o pronome não aparece explícito.<br />
Ali também sou eu, embutida no verbo.</p>
<p>Quem abre as cartas sou eu,<br />
quem topa ou recua sou eu,<br />
quem se lança ao instante presente sou eu , e sou eu quem escreve estas linhas.</p>
<p>Este singelo caderno é a cestinha de vime onde trago palavras arrumadas<br />
a moda de um poema.</p>
<p>É simples o esquema: aqui tudo se aproveita; sol vento, calor e frio,<br />
beijo, alento, temor e cio.</p>
<p>Tudo ferve no caldeirão da vida como evento,<br />
como elemento, argumento e matéria da aula de existir.</p>
<p>Vou insistir: o que eu tomo não é remédio.<br />
Cálcio de ostras, ômega três, um murilax semanal,<br />
vitaminas e provocadores do metabolismo<br />
com função de deixar a máquina mais  harmônica e viva. Oh, vida querida!</p>
<p>Escrevo no avião a caminho de Itaúnas; faz parte da primeira parte da viagem.<br />
Pelo ar. Mas não perco minha humildade  só porque meu pássaro de lata<br />
voa mais veloz e mais alto que os urubus. Vai tomá no cu.</p>
<p>Ora, todos sabem  que o céu pertence a eles !<br />
O céu das gaivotas, dos gaviões, das andorinhas.<br />
Não vinha em vão a chuva deste céu sobre mim.</p>
<p>Molhava-me materna banhando a cria para a longa estrada.<br />
Porque  a segunda parte da jornada para se chegar ao reino das Dunas de Itaunas, inclui mais quase quatro horas de chão, trecho terra.<br />
O homem não se recupera do seu desgaste ecológico,<br />
de seu pessoal desmatamento, de seus individuais desastres ambientais<br />
sem beijar e cheirar a fruta  caída do pé, sem ouvir o cachorro latindo no quintal<br />
para emendar num uivo geral,  acordando sem despertar<br />
o sono dos habitantes da pequena vila.</p>
<p>Vou tomar banho de rio, balançar na rede sob o caramanchão de buganvilles,<br />
Sentir o vento lambendo meu rosto, afinando os rigores de minha biles.<br />
Deus perdoa esta tentativa infame de rima. Mas foi sem querer.<br />
São rimas de 2011. Passarão nas sete ondas que separam<br />
um grupo de doze meses de outra dúzia de  meses.</p>
<p>Quem inventou este calendário, vê-se, era muito organizado.<br />
Isso eu não saberia fazer, por isso reparo.<br />
(Um pensamento chato de uma coisa que não deu muito certo ontem<br />
quer ficar perturbando  minha cabeça.<br />
Um pensamento que não presta pretende contaminar minhas ideias de família.<br />
Pensamento mau elemento quer ir comigo pro mato .<br />
Não deixe, minha mãe, não deixe!)</p>
<p>Ainda bem que pra onde eu vou tem  rio-menino<br />
que deixa a gente nadar nele pra qualquer lado de sua correnteza.<br />
Uma beleza em forma de água doce que aceita criança e trata o adulto com se criança fosse.<br />
A gente se banha nele e se sente dono do mar. Como pode? É de encantar!</p>
<p>Lá dentro tem ouro, é só procurar!<br />
Ainda bem  que na dieta tem todo dia, água de coco, peixe e poesia.<br />
Só de pensar, meu coração começa a cantar.</p>
<p>Choveu em mim nesta manhã, eu indo viajar.<br />
Que lindo acontecimento, silêncio de pingos nesse sagrado momento.<br />
Por isso digo, o que  tomo não é remédio, é fortalecimento!</p>
<p>29 de dezembro de 2011<br />
Elisa Lucinda</p>
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		<title>Carta ao Tempo II</title>
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		<pubDate>Mon, 26 Dec 2011 10:27:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>elisalucinda</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>

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			<content:encoded><![CDATA[<p>Como uma criança pequenina, minúscula criatura amparada nos braços do mundo, estou em teu colo, meu Pai, para onde me levas? O passeio é uma aventura que se passa nos cenários do micro e do macro cotidiano. Daqui de dentro da minha alma, olho o céu de Brasília, meu amante secreto, e pergunto a ele qual o seu mistério, Deus Tempo. Nada responde. No entanto , entendo  as suas medidas, meu Pai. Por exemplo, também é tempo o passado, o que está acontecendo no presente, e o que virá no futuro. Coisa linda foi perceber tua relatividade, tua não linearidade. Que bom quando se pára de sofrer pelo tempo que não volta, como se fosse um tempo perdido só porque não volta mais. Não é bem assim. Há as compensações que fazem resultar em empate o jogo. Conheci uma mulher, Dona Hortência, que passara anos chafurdando num casamento burocrático, sem direito a gozos ou beijos na boca com fervor. Tudo do lado de fora, casas, carros, seguros, aplicações, viagens, luxo, fazia-lhe crer que aquela letargia, embora triste, pudesse atender pelo nome de felicidade. Mas a depressão era crônica acompanhada por Rivotril e Fluoxetina. Até que um dia aos sessenta, amou outro homem e foi com ele para o Caribe e nunca mais dor de cabeça, nem tristeza, nem angústia, nem desânimo. O gozo que vivia há poucos dias não deixava vestígio dos quarenta anos em que não o vivera. É quando Hortência renasce no tempo, vira menina na nova experiência. Recomeça. Depois fica viúva do amante, mas já era renascida e reconta sua vida a partir dessa nova medida. Os dois anos que passara com o seu amor ressignificaram sua existência mais do que as quatro décadas de insatisfação ao lado do marido. Assim é com tudo, e obrigada ,Tempo, por nos dar mais esta carta. Foi assim que Clementina de Jesus virou cantora aos sessenta e cinco anos e Cora Coralina publicou o primeiro livro aos setenta e cinco. E tem mais, o fato de termos um novo olhar presente sobre aquilo que vivemos no passado torna-Te quase retroativo, Pai. Não dá para voltar atrás e fazer diferente, é verdade. Mas se pode olhar para o vivido de uma nova maneira. Esta é outra carta boa sua, meu bem. Sem a qual não haveria o perdão e de nada valeria o saber novo se este não pudesse dar conta de nos esclarecer os acontecidos, ampliá-los dentro do seu território como quem estica um grande tecido. Pois a compreensão posterior nos põe em boa situação de observadores. Vejo, pela distância do tempo, os vários lados do tabuleiro de uma experiência que, enquanto eu  nela vivia, não via suas dimensões e limites por falta de visão. Com o tempo, mudam os parâmetros. Sua passagem, Tempo, muda de posição as referências como mudam as pedras durante a idade de um rio. Eu disse aqui que fazer cinquenta anos é como pegar o morto durante um jogo de buraco ou canastra. Quando começa o jogo de adulto, pra lá um pouco dos vinte anos, as cartas estão ainda desencontradas, reza-se em várias rodadas para ver se pelo menos vem um três para se fazer uma trinca. No cinquentinha não: várias jogadas começadas, várias canastras podem ser limpas com as novas cartas que o morto trás. E tem mais, já não há mais aquelas preocupações primeiras de sobrevivência e escolha de carreira ,de modo que o tempo que uso hoje conta com grande parte da estrada construída. Ganhei tempo. E ao mesmo tempo como só tem três anos que fiz cinquenta, sou ainda neném na nova fase. Ai, ai, tu és mesmo uma coisa muito bem bolada: exato, impreciso, infinito, calculável, incalculável, e por isso deita e rola no quintal do subjetivo. Estou contigo, meu Rei. Ninguém te para, ninguém se mete contigo. Gostas do jogo, do filho que negocia, daquele que quer compreender o seu círculo ininterrupto que faz de toda a madrugada grávida de um novo dia. Que faz com que todo dia morra para que nos seja garantida uma nova manhã, sempre, oh Altíssimo! Todo dia é dia de renascer, fica a lição. Há os que agradecem aos cânceres derrotados, perdas e outras mazelas, porque estas os despertaram e fizeram com que resignificassem suas vidas e passassem em  revista seus sonhos, seus hábitos de perderem o tempo sem nem notar, de não aproveitá-lo, de não mergulhar em suas piscinas de variadíssimas temperaturas e profundidades.</p>
<p>Bem, como escrever é um ato de amor, quem se despede agora  é a amante, mas também são essas, palavras de uma menina diante de ti. Pai, dê um laço aqui no meu vestidinho atrás, me dê a mão, Tempo sem fim, e vamos passear?</p>
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		<title>Carta ao Tempo I</title>
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		<pubDate>Tue, 13 Dec 2011 15:32:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>elisalucinda</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>

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		<description><![CDATA[Mesmo com toda a sua sutileza, sua onipresença divina, sua continuidade e perseverança imperceptíveis, mesmo com seu mistério e seu poder sou Tua macaca de auditório, Deus Tempo, Tua fã. Queria um pôster Teu no meu quarto. Mas de corpo inteiro, não em partes como sempre te vejo, oh Divino. Também porque o seu inteiro [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Mesmo com toda a sua sutileza, sua onipresença divina, sua continuidade e perseverança imperceptíveis, mesmo com seu mistério e seu poder sou Tua macaca de auditório, Deus Tempo, Tua fã. Queria um pôster Teu no meu quarto. Mas de corpo inteiro, não em partes como sempre te vejo, oh Divino. Também porque o seu inteiro é o eterno, não é? Eterno é uma palavra sem fim, sem limites, parente da palavra infinito. São da mesma família e ambas querem dizer do que são maiores que a nossa matemática pode supor. Por observá-lo tanto cada vez mais vou amando o que chamam envelhecer. A gente fica muito mais sabido e vai entendendo como é bem bolada a coisa toda. Com o tempo, ficamos mais descolados, mais espertos, já conhecemos alguns mecanismos de nos iludir, nossos esquemas e funcionamento de erros, vícios, e outras deliciosas fraquezas. A vida é uma grande viagem, e embora não se reconheça tanto o valor do mais velho, este, pela experiência que resulta em sabedoria, vai ganhando autoridade para sentar logo na janela para ganhar outros assentos com privilégios de paisagens. Quando ouço alguém dizer que não quer pôr mais filho nesse mundo cruel, penso, que o mundo se fosse mesmo muito ruim a gente quereria sair logo dele. Mas não. O que nos ocorre, em geral, é uma vontade de ser eterno, uma loucura vampírica com desejo de ser eternamente jovem e principalmente, a obsessão de escapar da morte. O medo dela não é só porque morrer provavelmente doa como processo. O papo é que morrer acaba com a festa. Mãe cruel que tira a gente da brincadeira de viver. O fato de ser matematicamente cada vez mais perto da morte, a velhice angaria más línguas para si. É uma pena. Aos cinquenta e três anos estou me sentindo muito bem. Potente. Estão preservados em mim a Lili, a Elisinha e a Formiguinha Atômica, meus apelidos de infância, a Morena, a Nega, a Lucinda, meus apelidos de universidade, e Preta, Elisa Lucinda, Lucinda, Pretinha e Elisa, a mulher que me tornei. Esse coletivo de estações do Deus Tempo, trago em mim como uma herança. Como quem herdou casas, imóveis de luxo, extensas fazendas com milhares de cabeças de gado, herdei minha criança com sua espontaneidade, seu amor pelos lápis de cor, sua palhaçada, sua disposição para o novo e sua inocência; herdei minha jovem mocinha com sua irreverência, sua vontade de ajudar a melhorar o mundo, seu romantismo, sua esperança radical, sua ousadia em se lançar na estrada da existência na transitoriedade de cada momento. Esses múltiplos personagens que vivem no quintal de meu coração, dando suporte a minha personalidade não vieram sozinhos, veio com eles o rebanho de sonhos. Alguns desses sonhos perderam validade, não resistiram ao futuro que lhes coube. É mesmo muito interessante esse tipo de riqueza que o Tempo nos oferece; a capacidade, a potência de trazer no cofre humano que também atende pelo nome de memória, tudo o que vivemos: amores, prazeres, felicidades, gozos, plenitudes, tudo pode ficar eterno (leia-se eterno aqui como coisa que dura enquanto se vive). Quem pode tirar de mim, meu pai Tempo, as declarações de amor que recebi como mulher, como fêmea,como dama? Quem pode arrancar de mim as amorosas penetrações, os beijos nas mãos, os gestos de delicadezas, as palavras de amor que li nos olhos dos amantes e ouvi nas noites claras de luar? Hein? Me fale, quem poderá? Outro dia pensei em comprar a casa da minha infância lá em Itaquari, e a de Vila Velha, naquela rua linda cheias de árvores. Ainda bem, que em tempo, me lembrei que não preciso comprá-las uma vez que elas estão intactas dentro de mim com todos os seus bem quereres. Se as comprasse agora seria pior para mim; viriam sem minha mãe, minha irmã, meus avós dentro. Seria um péssimo negócio. E para os sofrimentos, que  experimentamos logo ao nascer, há a chuva dos prantos, o escoar da dor, a cicatrização da ferida e depois o esquecimento. Uma beleza! Pois sem esquecer dos sofrimentos como amaríamos de novo, como teríamos coragem?</p>
<p>Observando-te, meu senhor, percebo sua categoria em se dispersar, se diluir em inúmeras transparências conceituais. Eu explico: da janela penso ver o tempo e pareço querer me referir à temperatura, a seu estado nublado e chuvoso, aos seus ventos, ao estado do dia e ao próprio dia. Esse, por sua vez, se divide me três partes principais: manhã, tarde e noite sendo que todos nascem da madrugada. Também é tempo o tempo que passa dentro de um dia, ou seja, as suas vinte e quatro horas, dentro das horas minutos; dentro dos minutos os segundos ,e dentro dos segundos os instantes. Chegadas e esperas tudo pertence ao Tempo, tudo pertence a ti. Presente, passado, futuro, ontem, agora, hoje, daqui a pouco, até amanhã, já- já  e quando, são palavras de seu dicionário.Primavera, verão, outono e inverno, semanas, meses, séculos, tudo pertence ao seu império, seu terreno, ao lote de onde és o meeiro. Veja como é a vida: por seres tão invencível, me obrigas nesse momento a continuar na próxima crônica esse pensamento. Acabou meu tempo.</p>
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