Biotônico Fontoura

Tomo sobre a cabeça as últimas águas de um dezembro chuvoso.
Cada pingo significa pra mim que nunca mais dois mil e onze daqui à pouco.

É pouco o presente de  um homem sem a esperança dentro.
Reduz a extensão das coisas.
Não sei se este será o último banho celeste do ano, por isso não me despeço.
Deixo que chova em mim e sobre mim a mais famosa das orações sem sujeito: chove.
O que em meu peito lateja gostoso  é esse amor pelo  Universo.
O que eu tomo não é remédio. É fortificante!
Recomendável  ao ser em criança e em adulto.

É pela poesia  do  mundo que luto.
O sujeito oculto no verbo não quer dizer que a coisa esteja sem comando.
Não. Também determino e faço escolhas onde o pronome não aparece explícito.
Ali também sou eu, embutida no verbo.

Quem abre as cartas sou eu,
quem topa ou recua sou eu,
quem se lança ao instante presente sou eu , e sou eu quem escreve estas linhas.

Este singelo caderno é a cestinha de vime onde trago palavras arrumadas
a moda de um poema.

É simples o esquema: aqui tudo se aproveita; sol vento, calor e frio,
beijo, alento, temor e cio.

Tudo ferve no caldeirão da vida como evento,
como elemento, argumento e matéria da aula de existir.

Vou insistir: o que eu tomo não é remédio.
Cálcio de ostras, ômega três, um murilax semanal,
vitaminas e provocadores do metabolismo
com função de deixar a máquina mais  harmônica e viva. Oh, vida querida!

Escrevo no avião a caminho de Itaúnas; faz parte da primeira parte da viagem.
Pelo ar. Mas não perco minha humildade  só porque meu pássaro de lata
voa mais veloz e mais alto que os urubus. Vai tomá no cu.

Ora, todos sabem  que o céu pertence a eles !
O céu das gaivotas, dos gaviões, das andorinhas.
Não vinha em vão a chuva deste céu sobre mim.

Molhava-me materna banhando a cria para a longa estrada.
Porque  a segunda parte da jornada para se chegar ao reino das Dunas de Itaunas, inclui mais quase quatro horas de chão, trecho terra.
O homem não se recupera do seu desgaste ecológico,
de seu pessoal desmatamento, de seus individuais desastres ambientais
sem beijar e cheirar a fruta  caída do pé, sem ouvir o cachorro latindo no quintal
para emendar num uivo geral,  acordando sem despertar
o sono dos habitantes da pequena vila.

Vou tomar banho de rio, balançar na rede sob o caramanchão de buganvilles,
Sentir o vento lambendo meu rosto, afinando os rigores de minha biles.
Deus perdoa esta tentativa infame de rima. Mas foi sem querer.
São rimas de 2011. Passarão nas sete ondas que separam
um grupo de doze meses de outra dúzia de  meses.

Quem inventou este calendário, vê-se, era muito organizado.
Isso eu não saberia fazer, por isso reparo.
(Um pensamento chato de uma coisa que não deu muito certo ontem
quer ficar perturbando  minha cabeça.
Um pensamento que não presta pretende contaminar minhas ideias de família.
Pensamento mau elemento quer ir comigo pro mato .
Não deixe, minha mãe, não deixe!)

Ainda bem que pra onde eu vou tem  rio-menino
que deixa a gente nadar nele pra qualquer lado de sua correnteza.
Uma beleza em forma de água doce que aceita criança e trata o adulto com se criança fosse.
A gente se banha nele e se sente dono do mar. Como pode? É de encantar!

Lá dentro tem ouro, é só procurar!
Ainda bem  que na dieta tem todo dia, água de coco, peixe e poesia.
Só de pensar, meu coração começa a cantar.

Choveu em mim nesta manhã, eu indo viajar.
Que lindo acontecimento, silêncio de pingos nesse sagrado momento.
Por isso digo, o que  tomo não é remédio, é fortalecimento!

29 de dezembro de 2011
Elisa Lucinda

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One Response

  1. Maravilhosa e Transbordante!!!

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