Carta ao Tempo I

Mesmo com toda a sua sutileza, sua onipresença divina, sua continuidade e perseverança imperceptíveis, mesmo com seu mistério e seu poder sou Tua macaca de auditório, Deus Tempo, Tua fã. Queria um pôster Teu no meu quarto. Mas de corpo inteiro, não em partes como sempre te vejo, oh Divino. Também porque o seu inteiro é o eterno, não é? Eterno é uma palavra sem fim, sem limites, parente da palavra infinito. São da mesma família e ambas querem dizer do que são maiores que a nossa matemática pode supor. Por observá-lo tanto cada vez mais vou amando o que chamam envelhecer. A gente fica muito mais sabido e vai entendendo como é bem bolada a coisa toda. Com o tempo, ficamos mais descolados, mais espertos, já conhecemos alguns mecanismos de nos iludir, nossos esquemas e funcionamento de erros, vícios, e outras deliciosas fraquezas. A vida é uma grande viagem, e embora não se reconheça tanto o valor do mais velho, este, pela experiência que resulta em sabedoria, vai ganhando autoridade para sentar logo na janela para ganhar outros assentos com privilégios de paisagens. Quando ouço alguém dizer que não quer pôr mais filho nesse mundo cruel, penso, que o mundo se fosse mesmo muito ruim a gente quereria sair logo dele. Mas não. O que nos ocorre, em geral, é uma vontade de ser eterno, uma loucura vampírica com desejo de ser eternamente jovem e principalmente, a obsessão de escapar da morte. O medo dela não é só porque morrer provavelmente doa como processo. O papo é que morrer acaba com a festa. Mãe cruel que tira a gente da brincadeira de viver. O fato de ser matematicamente cada vez mais perto da morte, a velhice angaria más línguas para si. É uma pena. Aos cinquenta e três anos estou me sentindo muito bem. Potente. Estão preservados em mim a Lili, a Elisinha e a Formiguinha Atômica, meus apelidos de infância, a Morena, a Nega, a Lucinda, meus apelidos de universidade, e Preta, Elisa Lucinda, Lucinda, Pretinha e Elisa, a mulher que me tornei. Esse coletivo de estações do Deus Tempo, trago em mim como uma herança. Como quem herdou casas, imóveis de luxo, extensas fazendas com milhares de cabeças de gado, herdei minha criança com sua espontaneidade, seu amor pelos lápis de cor, sua palhaçada, sua disposição para o novo e sua inocência; herdei minha jovem mocinha com sua irreverência, sua vontade de ajudar a melhorar o mundo, seu romantismo, sua esperança radical, sua ousadia em se lançar na estrada da existência na transitoriedade de cada momento. Esses múltiplos personagens que vivem no quintal de meu coração, dando suporte a minha personalidade não vieram sozinhos, veio com eles o rebanho de sonhos. Alguns desses sonhos perderam validade, não resistiram ao futuro que lhes coube. É mesmo muito interessante esse tipo de riqueza que o Tempo nos oferece; a capacidade, a potência de trazer no cofre humano que também atende pelo nome de memória, tudo o que vivemos: amores, prazeres, felicidades, gozos, plenitudes, tudo pode ficar eterno (leia-se eterno aqui como coisa que dura enquanto se vive). Quem pode tirar de mim, meu pai Tempo, as declarações de amor que recebi como mulher, como fêmea,como dama? Quem pode arrancar de mim as amorosas penetrações, os beijos nas mãos, os gestos de delicadezas, as palavras de amor que li nos olhos dos amantes e ouvi nas noites claras de luar? Hein? Me fale, quem poderá? Outro dia pensei em comprar a casa da minha infância lá em Itaquari, e a de Vila Velha, naquela rua linda cheias de árvores. Ainda bem, que em tempo, me lembrei que não preciso comprá-las uma vez que elas estão intactas dentro de mim com todos os seus bem quereres. Se as comprasse agora seria pior para mim; viriam sem minha mãe, minha irmã, meus avós dentro. Seria um péssimo negócio. E para os sofrimentos, que  experimentamos logo ao nascer, há a chuva dos prantos, o escoar da dor, a cicatrização da ferida e depois o esquecimento. Uma beleza! Pois sem esquecer dos sofrimentos como amaríamos de novo, como teríamos coragem?

Observando-te, meu senhor, percebo sua categoria em se dispersar, se diluir em inúmeras transparências conceituais. Eu explico: da janela penso ver o tempo e pareço querer me referir à temperatura, a seu estado nublado e chuvoso, aos seus ventos, ao estado do dia e ao próprio dia. Esse, por sua vez, se divide me três partes principais: manhã, tarde e noite sendo que todos nascem da madrugada. Também é tempo o tempo que passa dentro de um dia, ou seja, as suas vinte e quatro horas, dentro das horas minutos; dentro dos minutos os segundos ,e dentro dos segundos os instantes. Chegadas e esperas tudo pertence ao Tempo, tudo pertence a ti. Presente, passado, futuro, ontem, agora, hoje, daqui a pouco, até amanhã, já- já  e quando, são palavras de seu dicionário.Primavera, verão, outono e inverno, semanas, meses, séculos, tudo pertence ao seu império, seu terreno, ao lote de onde és o meeiro. Veja como é a vida: por seres tão invencível, me obrigas nesse momento a continuar na próxima crônica esse pensamento. Acabou meu tempo.

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4 Responses

  1. Maravilhoso texto!

    Também não tenho medo do tempo, nem do mundo, nem da vida. Adoro ser cada vez mais sabida. Também me sinto melhor e com mais disposição a cada ano q passa. E é exatamente assim q me vejo qdo chegar à sua idade.

    bjs!

  2. Perfect!

    A leitura é agradável e cheia de emoções!

  3. Ao ler fiquei sem palavras, aliás me perdi numa reflexão infinda do tempo.
    Outra perfeição desta talentosa numa tradução fiel a este Deus.
    Parabéns

  4. Simara Soares

     /  13 de dezembro de 2011

    Ha muito não lia um texto que chegasse tão perto de meu ouvido e sussurrasse sentido. Obrigada!
    Tornei-me Fã.

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