Como uma criança pequenina, minúscula criatura amparada nos braços do mundo, estou em teu colo, meu Pai, para onde me levas? O passeio é uma aventura que se passa nos cenários do micro e do macro cotidiano. Daqui de dentro da minha alma, olho o céu de Brasília, meu amante secreto, e pergunto a ele qual o seu mistério, Deus Tempo. Nada responde. No entanto , entendo as suas medidas, meu Pai. Por exemplo, também é tempo o passado, o que está acontecendo no presente, e o que virá no futuro. Coisa linda foi perceber tua relatividade, tua não linearidade. Que bom quando se pára de sofrer pelo tempo que não volta, como se fosse um tempo perdido só porque não volta mais. Não é bem assim. Há as compensações que fazem resultar em empate o jogo. Conheci uma mulher, Dona Hortência, que passara anos chafurdando num casamento burocrático, sem direito a gozos ou beijos na boca com fervor. Tudo do lado de fora, casas, carros, seguros, aplicações, viagens, luxo, fazia-lhe crer que aquela letargia, embora triste, pudesse atender pelo nome de felicidade. Mas a depressão era crônica acompanhada por Rivotril e Fluoxetina. Até que um dia aos sessenta, amou outro homem e foi com ele para o Caribe e nunca mais dor de cabeça, nem tristeza, nem angústia, nem desânimo. O gozo que vivia há poucos dias não deixava vestígio dos quarenta anos em que não o vivera. É quando Hortência renasce no tempo, vira menina na nova experiência. Recomeça. Depois fica viúva do amante, mas já era renascida e reconta sua vida a partir dessa nova medida. Os dois anos que passara com o seu amor ressignificaram sua existência mais do que as quatro décadas de insatisfação ao lado do marido. Assim é com tudo, e obrigada ,Tempo, por nos dar mais esta carta. Foi assim que Clementina de Jesus virou cantora aos sessenta e cinco anos e Cora Coralina publicou o primeiro livro aos setenta e cinco. E tem mais, o fato de termos um novo olhar presente sobre aquilo que vivemos no passado torna-Te quase retroativo, Pai. Não dá para voltar atrás e fazer diferente, é verdade. Mas se pode olhar para o vivido de uma nova maneira. Esta é outra carta boa sua, meu bem. Sem a qual não haveria o perdão e de nada valeria o saber novo se este não pudesse dar conta de nos esclarecer os acontecidos, ampliá-los dentro do seu território como quem estica um grande tecido. Pois a compreensão posterior nos põe em boa situação de observadores. Vejo, pela distância do tempo, os vários lados do tabuleiro de uma experiência que, enquanto eu nela vivia, não via suas dimensões e limites por falta de visão. Com o tempo, mudam os parâmetros. Sua passagem, Tempo, muda de posição as referências como mudam as pedras durante a idade de um rio. Eu disse aqui que fazer cinquenta anos é como pegar o morto durante um jogo de buraco ou canastra. Quando começa o jogo de adulto, pra lá um pouco dos vinte anos, as cartas estão ainda desencontradas, reza-se em várias rodadas para ver se pelo menos vem um três para se fazer uma trinca. No cinquentinha não: várias jogadas começadas, várias canastras podem ser limpas com as novas cartas que o morto trás. E tem mais, já não há mais aquelas preocupações primeiras de sobrevivência e escolha de carreira ,de modo que o tempo que uso hoje conta com grande parte da estrada construída. Ganhei tempo. E ao mesmo tempo como só tem três anos que fiz cinquenta, sou ainda neném na nova fase. Ai, ai, tu és mesmo uma coisa muito bem bolada: exato, impreciso, infinito, calculável, incalculável, e por isso deita e rola no quintal do subjetivo. Estou contigo, meu Rei. Ninguém te para, ninguém se mete contigo. Gostas do jogo, do filho que negocia, daquele que quer compreender o seu círculo ininterrupto que faz de toda a madrugada grávida de um novo dia. Que faz com que todo dia morra para que nos seja garantida uma nova manhã, sempre, oh Altíssimo! Todo dia é dia de renascer, fica a lição. Há os que agradecem aos cânceres derrotados, perdas e outras mazelas, porque estas os despertaram e fizeram com que resignificassem suas vidas e passassem em revista seus sonhos, seus hábitos de perderem o tempo sem nem notar, de não aproveitá-lo, de não mergulhar em suas piscinas de variadíssimas temperaturas e profundidades.
Bem, como escrever é um ato de amor, quem se despede agora é a amante, mas também são essas, palavras de uma menina diante de ti. Pai, dê um laço aqui no meu vestidinho atrás, me dê a mão, Tempo sem fim, e vamos passear?
