Olha Cariacica aí, gente!

Navego calma na tarde linda de um fevereiro retumbante. Quem diria que, quando Jace Teodoro, amigo e ilustre colega cronista deste espaço, me ligou pra me convidar em nome da escola para que eu fosse dela enredo, eu não imaginava a que viagem aquela homenagem chegaria. Hoje, dia em que chego aqui em Itaúnas a fim de terminar um livro e cumprir um compromisso editorial, o que grita, mais que o resto brilhoso do que sobrara de purpurina na trama dos cabelos,  é uma alma em êxtase ainda não desperta do maravilhoso sonho que vivera. Meu deus, o que era aquele mar de gente batendo no peito cantando meu nome, gritando com orgulho que ser capixaba também é chique? Épico, cinematográfico sonho? O maior teatro popular do mundo estava acontecendo ali, e meu desejo de querer que  o Espirito Santo entre na programação turística e cultural do país virando realidade . É isso mesmo, e quem me lê sabe: quero mostrar meu lugar aos quatro ventos, ostentá-lo no peito porque lindo e talentoso ele já é por natureza. O desfile da Boa Vista no Sambão do Povo na madrugada de sábado para domingo foi histórico, emblemático. Desculpa eu falar, mas o faço porque quando esse jornal for impresso, já terei entregue esta crônica e sem saber do resultado. Então, posso falar. Não sei o que os jurados acharam mas, na visão do último carro que era de onde estávamos como se fosse num navio, o espetáculo era deslumbrante: as cores, o fino das fantasias, o enredo visto de costas era um mar de beleza. No entanto, acima de tudo o calor que vinha do chão, da alma do povo cariaciquense esquentando  a avenida era o que mais se via . Estávamos eu, meu filho, meu pai, minha irmã, meus irmãos, os sobrinhos, meus amigos daqui, e parceiros amigos da Casa Poema que vieram do Rio para o espetáculo; éramos todos da mesma tripulação levando o mesmo leme. Depois,  comentei com Regina Duarte  que quando entramos, o palco já estava no ponto. Afinal os palcos têm temperaturas e quem os aquece é o carisma, o poder dos atores. Nesse sentido nossa escola exuberou! A verdade do que eu digo estaria comprometida pela parcialidade do meu afeto, ou seja, poderia parecer que estou aqui puxando a sardinha para a minha lata, se não  tivesse havido aquele alarido, a ovação geral cantando com o coração na boca. Loucura, choro, gritaria era o que brotava concomitante, do camarote às arquibancadas, da concentração aos repórteres da ocasião.  Todo mundo, inclusive de outras escolas, se sentia chique por ser capixaba e poder bradá- lo numa manifestação coletiva de amor à terra talvez jamais vista por aqui . Não sou especialista em carnaval capixaba mas do assunto que  falo, aquilo parecia estreia . Quando Regina Duarte e Ana Carolina aceitaram o convite foi como se elas estivessem dizendo sim ao Espírito Santo onde só tinham vindo a trabalho até então.  Amorosas e elegantes aceitaram vir, por honra da nossa amizade e uma deferência ao nosso povo.  E estão encantadas, pois curtiram um surpreendente carnaval. Seria injusto não elogiar o desfile em geral do jovem e cada vez mais competente carnaval capixaba. Parabéns para todos, e atenção Estado, prefeituras, Lieses, empresários, não se acanhem não, podem caprichar melhor e mais, porque que isso aqui está pegando, e sua data é muito propícia, turisticamente falando. Significa investimento e crescimento econômico pra nós na indústria do entretenimento. Além do mais nosso Sambão é mais perto da plateia que no Sambódromo, aí, a relação com o publico fica mais íntima, mais interativa. Quero ver mais artistas plásticos dialogando com os barracões, que cada vez mais artistas de todos os setores sejam contratados para servir à festa do povo e junto a esse, criar. Em Ibiraçu, a caminho do Reino de Itaúnas ouvi dizerem muito bem desta nossa festa. Gente que vem há cinco anos e considerou este o mais maravilhoso. Tenho mais pra dizer mas falta espaço. Continuo depois. Por agora nesta tarde gloriosa, olho lá pra fora e o sol na bananeira prova que vejo aqui é uma réplica do quintal de Itaquarí.

Obrigada terra amada!

Som na caixa!

A tarde cai com maestria e brilha.

Tenho vontade de cantar  a ponto de estourar!

Meus erros se dissolvem, os problemas se constrangem

diante do  belo fogo amarelo pintando a barra do dia.

Deslumbrante modo este do sol se pôr.

Quem pode com a beleza da vida, meu pai?

Quem pode duvidar do milagre da transitoriedade?

Tudo isso, as flores, esta brisa, os bilhetes de amor,

os lençóis marcados de  beijos , os rouxinóis e eu , tudo passará!

Menos essa vida que pulsa e é sempre outra

e  que se põe em presença de todos os viventes a cada tempo.

Que se mostra nua, crua,  bela , poderosa,  senhora  flutuante entre os ventos.

 

Desço a rua ladeira onde teço  meus dias,

onde vive minha casa branca,

porto seguro de minha alma com olhos acostumados a reparar.

Acabada de se banhar, a mesma alma, cheirando à colônia dama da tarde,

quase dança dentro do vestido florido de mulher e de menina.

Azul o céu para onde vou e é azul também  o que deixo atrás das colinas.

Todos os óbvios são mistérios: da sensação de batismo que dá um cabelo molhado e limpo roçando a nuca da gente, até os comoventes coloridos celofanes que envolvem os docinhos confeitados das festas de criança.

Tudo é enigmaticamente simples. Todo presente vira logo lembrança.

O parentesco entre as coisas  é tão natural que parece que todo mundo entende o motivo pelo qual as pipas são primas das bandeirinhas de São João .

É um prazer saber. Nem sei se eu sei não.

Mas me excita viver!

 

Izidoro pintando a varanda, faz cheiro de Natal vir das paredes.

Varanda, ô palavra ensolarada!

Todo ano meu pai pintava nossa casa  em dezembro.

 Eu sigo a tradição só pra sentir a bagunça gostosa que a memória olfativa das

cores  apronta em meu coração.

Não trago novidades.

Sou apenas vítima da claridade de uma estação.

Minha voz quer sair do peito para se juntar ao grande coro e com razão:

Louvando a intensidade de cada instante

as cigarras sempre cantam no verão.

 

                                                                                                              

                                                                                                                 elisa lucinda/ Fim de tarde de janeiro/2012

Biotônico Fontoura

Tomo sobre a cabeça as últimas águas de um dezembro chuvoso.
Cada pingo significa pra mim que nunca mais dois mil e onze daqui à pouco.

É pouco o presente de  um homem sem a esperança dentro.
Reduz a extensão das coisas.
Não sei se este será o último banho celeste do ano, por isso não me despeço.
Deixo que chova em mim e sobre mim a mais famosa das orações sem sujeito: chove.
O que em meu peito lateja gostoso  é esse amor pelo  Universo.
O que eu tomo não é remédio. É fortificante!
Recomendável  ao ser em criança e em adulto.

É pela poesia  do  mundo que luto.
O sujeito oculto no verbo não quer dizer que a coisa esteja sem comando.
Não. Também determino e faço escolhas onde o pronome não aparece explícito.
Ali também sou eu, embutida no verbo.

Quem abre as cartas sou eu,
quem topa ou recua sou eu,
quem se lança ao instante presente sou eu , e sou eu quem escreve estas linhas.

Este singelo caderno é a cestinha de vime onde trago palavras arrumadas
a moda de um poema.

É simples o esquema: aqui tudo se aproveita; sol vento, calor e frio,
beijo, alento, temor e cio.

Tudo ferve no caldeirão da vida como evento,
como elemento, argumento e matéria da aula de existir.

Vou insistir: o que eu tomo não é remédio.
Cálcio de ostras, ômega três, um murilax semanal,
vitaminas e provocadores do metabolismo
com função de deixar a máquina mais  harmônica e viva. Oh, vida querida!

Escrevo no avião a caminho de Itaúnas; faz parte da primeira parte da viagem.
Pelo ar. Mas não perco minha humildade  só porque meu pássaro de lata
voa mais veloz e mais alto que os urubus. Vai tomá no cu.

Ora, todos sabem  que o céu pertence a eles !
O céu das gaivotas, dos gaviões, das andorinhas.
Não vinha em vão a chuva deste céu sobre mim.

Molhava-me materna banhando a cria para a longa estrada.
Porque  a segunda parte da jornada para se chegar ao reino das Dunas de Itaunas, inclui mais quase quatro horas de chão, trecho terra.
O homem não se recupera do seu desgaste ecológico,
de seu pessoal desmatamento, de seus individuais desastres ambientais
sem beijar e cheirar a fruta  caída do pé, sem ouvir o cachorro latindo no quintal
para emendar num uivo geral,  acordando sem despertar
o sono dos habitantes da pequena vila.

Vou tomar banho de rio, balançar na rede sob o caramanchão de buganvilles,
Sentir o vento lambendo meu rosto, afinando os rigores de minha biles.
Deus perdoa esta tentativa infame de rima. Mas foi sem querer.
São rimas de 2011. Passarão nas sete ondas que separam
um grupo de doze meses de outra dúzia de  meses.

Quem inventou este calendário, vê-se, era muito organizado.
Isso eu não saberia fazer, por isso reparo.
(Um pensamento chato de uma coisa que não deu muito certo ontem
quer ficar perturbando  minha cabeça.
Um pensamento que não presta pretende contaminar minhas ideias de família.
Pensamento mau elemento quer ir comigo pro mato .
Não deixe, minha mãe, não deixe!)

Ainda bem que pra onde eu vou tem  rio-menino
que deixa a gente nadar nele pra qualquer lado de sua correnteza.
Uma beleza em forma de água doce que aceita criança e trata o adulto com se criança fosse.
A gente se banha nele e se sente dono do mar. Como pode? É de encantar!

Lá dentro tem ouro, é só procurar!
Ainda bem  que na dieta tem todo dia, água de coco, peixe e poesia.
Só de pensar, meu coração começa a cantar.

Choveu em mim nesta manhã, eu indo viajar.
Que lindo acontecimento, silêncio de pingos nesse sagrado momento.
Por isso digo, o que  tomo não é remédio, é fortalecimento!

29 de dezembro de 2011
Elisa Lucinda

Carta ao Tempo II

Como uma criança pequenina, minúscula criatura amparada nos braços do mundo, estou em teu colo, meu Pai, para onde me levas? O passeio é uma aventura que se passa nos cenários do micro e do macro cotidiano. Daqui de dentro da minha alma, olho o céu de Brasília, meu amante secreto, e pergunto a ele qual o seu mistério, Deus Tempo. Nada responde. No entanto , entendo  as suas medidas, meu Pai. Por exemplo, também é tempo o passado, o que está acontecendo no presente, e o que virá no futuro. Coisa linda foi perceber tua relatividade, tua não linearidade. Que bom quando se pára de sofrer pelo tempo que não volta, como se fosse um tempo perdido só porque não volta mais. Não é bem assim. Há as compensações que fazem resultar em empate o jogo. Conheci uma mulher, Dona Hortência, que passara anos chafurdando num casamento burocrático, sem direito a gozos ou beijos na boca com fervor. Tudo do lado de fora, casas, carros, seguros, aplicações, viagens, luxo, fazia-lhe crer que aquela letargia, embora triste, pudesse atender pelo nome de felicidade. Mas a depressão era crônica acompanhada por Rivotril e Fluoxetina. Até que um dia aos sessenta, amou outro homem e foi com ele para o Caribe e nunca mais dor de cabeça, nem tristeza, nem angústia, nem desânimo. O gozo que vivia há poucos dias não deixava vestígio dos quarenta anos em que não o vivera. É quando Hortência renasce no tempo, vira menina na nova experiência. Recomeça. Depois fica viúva do amante, mas já era renascida e reconta sua vida a partir dessa nova medida. Os dois anos que passara com o seu amor ressignificaram sua existência mais do que as quatro décadas de insatisfação ao lado do marido. Assim é com tudo, e obrigada ,Tempo, por nos dar mais esta carta. Foi assim que Clementina de Jesus virou cantora aos sessenta e cinco anos e Cora Coralina publicou o primeiro livro aos setenta e cinco. E tem mais, o fato de termos um novo olhar presente sobre aquilo que vivemos no passado torna-Te quase retroativo, Pai. Não dá para voltar atrás e fazer diferente, é verdade. Mas se pode olhar para o vivido de uma nova maneira. Esta é outra carta boa sua, meu bem. Sem a qual não haveria o perdão e de nada valeria o saber novo se este não pudesse dar conta de nos esclarecer os acontecidos, ampliá-los dentro do seu território como quem estica um grande tecido. Pois a compreensão posterior nos põe em boa situação de observadores. Vejo, pela distância do tempo, os vários lados do tabuleiro de uma experiência que, enquanto eu  nela vivia, não via suas dimensões e limites por falta de visão. Com o tempo, mudam os parâmetros. Sua passagem, Tempo, muda de posição as referências como mudam as pedras durante a idade de um rio. Eu disse aqui que fazer cinquenta anos é como pegar o morto durante um jogo de buraco ou canastra. Quando começa o jogo de adulto, pra lá um pouco dos vinte anos, as cartas estão ainda desencontradas, reza-se em várias rodadas para ver se pelo menos vem um três para se fazer uma trinca. No cinquentinha não: várias jogadas começadas, várias canastras podem ser limpas com as novas cartas que o morto trás. E tem mais, já não há mais aquelas preocupações primeiras de sobrevivência e escolha de carreira ,de modo que o tempo que uso hoje conta com grande parte da estrada construída. Ganhei tempo. E ao mesmo tempo como só tem três anos que fiz cinquenta, sou ainda neném na nova fase. Ai, ai, tu és mesmo uma coisa muito bem bolada: exato, impreciso, infinito, calculável, incalculável, e por isso deita e rola no quintal do subjetivo. Estou contigo, meu Rei. Ninguém te para, ninguém se mete contigo. Gostas do jogo, do filho que negocia, daquele que quer compreender o seu círculo ininterrupto que faz de toda a madrugada grávida de um novo dia. Que faz com que todo dia morra para que nos seja garantida uma nova manhã, sempre, oh Altíssimo! Todo dia é dia de renascer, fica a lição. Há os que agradecem aos cânceres derrotados, perdas e outras mazelas, porque estas os despertaram e fizeram com que resignificassem suas vidas e passassem em  revista seus sonhos, seus hábitos de perderem o tempo sem nem notar, de não aproveitá-lo, de não mergulhar em suas piscinas de variadíssimas temperaturas e profundidades.

Bem, como escrever é um ato de amor, quem se despede agora  é a amante, mas também são essas, palavras de uma menina diante de ti. Pai, dê um laço aqui no meu vestidinho atrás, me dê a mão, Tempo sem fim, e vamos passear?

Carta ao Tempo I

Mesmo com toda a sua sutileza, sua onipresença divina, sua continuidade e perseverança imperceptíveis, mesmo com seu mistério e seu poder sou Tua macaca de auditório, Deus Tempo, Tua fã. Queria um pôster Teu no meu quarto. Mas de corpo inteiro, não em partes como sempre te vejo, oh Divino. Também porque o seu inteiro é o eterno, não é? Eterno é uma palavra sem fim, sem limites, parente da palavra infinito. São da mesma família e ambas querem dizer do que são maiores que a nossa matemática pode supor. Por observá-lo tanto cada vez mais vou amando o que chamam envelhecer. A gente fica muito mais sabido e vai entendendo como é bem bolada a coisa toda. Com o tempo, ficamos mais descolados, mais espertos, já conhecemos alguns mecanismos de nos iludir, nossos esquemas e funcionamento de erros, vícios, e outras deliciosas fraquezas. A vida é uma grande viagem, e embora não se reconheça tanto o valor do mais velho, este, pela experiência que resulta em sabedoria, vai ganhando autoridade para sentar logo na janela para ganhar outros assentos com privilégios de paisagens. Quando ouço alguém dizer que não quer pôr mais filho nesse mundo cruel, penso, que o mundo se fosse mesmo muito ruim a gente quereria sair logo dele. Mas não. O que nos ocorre, em geral, é uma vontade de ser eterno, uma loucura vampírica com desejo de ser eternamente jovem e principalmente, a obsessão de escapar da morte. O medo dela não é só porque morrer provavelmente doa como processo. O papo é que morrer acaba com a festa. Mãe cruel que tira a gente da brincadeira de viver. O fato de ser matematicamente cada vez mais perto da morte, a velhice angaria más línguas para si. É uma pena. Aos cinquenta e três anos estou me sentindo muito bem. Potente. Estão preservados em mim a Lili, a Elisinha e a Formiguinha Atômica, meus apelidos de infância, a Morena, a Nega, a Lucinda, meus apelidos de universidade, e Preta, Elisa Lucinda, Lucinda, Pretinha e Elisa, a mulher que me tornei. Esse coletivo de estações do Deus Tempo, trago em mim como uma herança. Como quem herdou casas, imóveis de luxo, extensas fazendas com milhares de cabeças de gado, herdei minha criança com sua espontaneidade, seu amor pelos lápis de cor, sua palhaçada, sua disposição para o novo e sua inocência; herdei minha jovem mocinha com sua irreverência, sua vontade de ajudar a melhorar o mundo, seu romantismo, sua esperança radical, sua ousadia em se lançar na estrada da existência na transitoriedade de cada momento. Esses múltiplos personagens que vivem no quintal de meu coração, dando suporte a minha personalidade não vieram sozinhos, veio com eles o rebanho de sonhos. Alguns desses sonhos perderam validade, não resistiram ao futuro que lhes coube. É mesmo muito interessante esse tipo de riqueza que o Tempo nos oferece; a capacidade, a potência de trazer no cofre humano que também atende pelo nome de memória, tudo o que vivemos: amores, prazeres, felicidades, gozos, plenitudes, tudo pode ficar eterno (leia-se eterno aqui como coisa que dura enquanto se vive). Quem pode tirar de mim, meu pai Tempo, as declarações de amor que recebi como mulher, como fêmea,como dama? Quem pode arrancar de mim as amorosas penetrações, os beijos nas mãos, os gestos de delicadezas, as palavras de amor que li nos olhos dos amantes e ouvi nas noites claras de luar? Hein? Me fale, quem poderá? Outro dia pensei em comprar a casa da minha infância lá em Itaquari, e a de Vila Velha, naquela rua linda cheias de árvores. Ainda bem, que em tempo, me lembrei que não preciso comprá-las uma vez que elas estão intactas dentro de mim com todos os seus bem quereres. Se as comprasse agora seria pior para mim; viriam sem minha mãe, minha irmã, meus avós dentro. Seria um péssimo negócio. E para os sofrimentos, que  experimentamos logo ao nascer, há a chuva dos prantos, o escoar da dor, a cicatrização da ferida e depois o esquecimento. Uma beleza! Pois sem esquecer dos sofrimentos como amaríamos de novo, como teríamos coragem?

Observando-te, meu senhor, percebo sua categoria em se dispersar, se diluir em inúmeras transparências conceituais. Eu explico: da janela penso ver o tempo e pareço querer me referir à temperatura, a seu estado nublado e chuvoso, aos seus ventos, ao estado do dia e ao próprio dia. Esse, por sua vez, se divide me três partes principais: manhã, tarde e noite sendo que todos nascem da madrugada. Também é tempo o tempo que passa dentro de um dia, ou seja, as suas vinte e quatro horas, dentro das horas minutos; dentro dos minutos os segundos ,e dentro dos segundos os instantes. Chegadas e esperas tudo pertence ao Tempo, tudo pertence a ti. Presente, passado, futuro, ontem, agora, hoje, daqui a pouco, até amanhã, já- já  e quando, são palavras de seu dicionário.Primavera, verão, outono e inverno, semanas, meses, séculos, tudo pertence ao seu império, seu terreno, ao lote de onde és o meeiro. Veja como é a vida: por seres tão invencível, me obrigas nesse momento a continuar na próxima crônica esse pensamento. Acabou meu tempo.

Como é bom ver Dilma chorar

Na sequência do acontecimento histórico na cidade do Rio de Janeiro onde finalmente o Estado chegou à comunidade da Rocinha, ouro humano situado ao lado da alta burguesia carioca, eu vi a presidente Dilma chorando na televisão por conta do emocionante encontro que teve com crianças especiais e ocasião em que se diz com todas as letras como é bom ser presidente numa hora dessas porque tem o poder de entender o olhar responsável do governo sobre crianças e adultos especiais e deficientes. Digo isso não porque queira ver a presidente sofrer. Nada disso. Que fique bem entendido. O que me encanta é ver um coração feminino, materno, pulsando ali; a reger sua inteligência, a pesar na balança das decisões oficiais cuja burocracia acaba por tornar indigno o caminho onde o Estado deveria exercer com humanidade e competência o seu dever para com os seus filhos. Quando a vi também em rede nacional admitindo falhas na saúde publica brasileira e determinada a revolucionar  o  setor, chamando  inclusive à responsabilidade os hospitais privados, senti a mesma linha de inteligência emocional em ação. Acho que, com todo pulso que a nossa presidente tem, no recheio de sua competência estão também as vocações altruístas do gênero feminino.

É de tarde.  Olho o Rio de Janeiro,  vejo as noticias da” Nova Rocinha” na TV. A civilidade chegando ali agora. As cem mil toneladas de lixo só agora sendo removidas.  Os novelos de fios de” gato” tendo a sua avant premiére com a Light e, o mais raro de tudo  a polícia fazendo o seu serviço sem ferir àquelas inocentes vidas. Meu Deus, como podem todos esses políticos terem dormido até agora? Quero saber o nome do seu poderoso calmante. A sociedade vem pagando o preço dessa omissão, perdendo os seus jovens para o crime, perdendo seus quase cidadãos que morreram sem conhecer teatro, cinema, livro, educação. Um País que perde o seu povo perde o irreparável. Queria  que todos os governos de todos os Estados levassem a saúde cidadã aos nossos morros, às nossas periferias onde quem ainda manda é o crime. Vitória, Salvador, Brasília, Recife, etc. Isso só falando em capitais. Quando vejo a ação das UPPS aqui na minha cidade me dá vontade de acionar o Estado pelos danos retroativos, pelos anos de abandono para com os cidadãos que, obrigados a receberem as migalhas dos serviços públicos, não dispõem de  uma via de mão dupla onde possam livremente  transitar na exigência de seus direitos. Não é possível que a mesma  política que exclui de seu futuro os pobres, os pretos, os sem saneamento, os sem-terra, os sem escola, seja tolerante com ladrões de fino trato. Não pode ser que, por causa de uma inadimplência no valor de dez reais um cidadão tenha seu crédito suspenso; que, pelo furto de uma galinha um indivíduo seja preso junto a outros sórdidos assassinos, enquanto dentro da mesma República ratos fazem a festa na cama da impunidade e na aparente imunidade de seus mandatos. Uma injustiça dessa não se sustenta eternamente, e é impossível olhar para ela tendo um bom coração, sem chorar.

Deitada na tarde de meu quarto,  fiquei acompanhando as notícias da Rocinha. Vendo com carinho e irmandade a beleza dos morros, a vista maravilhosa que se tem de um boteco no alto da colina de onde se vê Pão de Açúcar, Cristo Redentor, Leblon, Dois Irmãos, Pedra da Gávea e mar. Quer mais? Pois por uma vista mais limitada do que essa se paga milhões nessa cidade! Lembrei que fui convidada por Guti, o grande artista mentor do vitorioso projeto de teatro “Nós do Morro”, lá do Vidigal, a dar uma oficina lá. No celeiro de onde saiu Roberta Rodrigues, Jonathan e outras estrelas do filme “Cidade de Deus”. Dei aula de poesia falada para aqueles jovens atores em formação. Mas na Rocinha nunca subi em vinte e cinco anos de Rio de Janeiro. Chocante! Na tela, enquanto o meu pensamento viaja na inclusão, no desfazer da cidade partida que essa pacificação tem trazido, aparece um pai trabalhador dizendo assim: “Pra mim é um alívio, um milagre o que está acontecendo. Eu já não aguentava mais. Sou trabalhador, luto muito para sustentar a minha família, para não faltar nada. Me sinto um bom brasileiro, mas um dia meu filho de cinco anos me perguntou vendo tantos traficantes na rua circulando com o seu armamento: Pai, porque todo mundo tem arma e só  a gente que não tem? Respondi que era porque a nossa família é de trabalhador, mas nessa hora ficou parecendo que o certo era errado e o errado era certo.” O pai da TV ficou emocionado. E eu que não sou presidente nem nada comecei a chorar.

Educação para a vida

Não vou cansar de falar do tema enquanto achar necessário: Não há outro propósito na existência de qualquer instituição educativa a não ser a função de educar para a vida. Não bastassem as afinidades do nosso sistema escolar com os cárceres (uniformes, grade curricular, pátios áridos, altos muros, sirene entre as aulas), seu ensino continua estanque, longe do ser humano e esse conceito forma a sociedade. Por isso corremos o risco permanente quando vamos ao médico de joelho, por exemplo, que nos medica com um anti-inflamatório que há de arrasar a flora intestinal, ofender o fígado, para salvar o joelho. É como se o resto do corpo não fosse assunto desse médico, como se um joelho fosse não uma parte, mas um paciente inteiro (por sinal incompleto). Por causa dessa contradição o aluno tem diarréia no dia da prova sobre aparelho digestivo sem saber que na prática a prova já começou. Nele. No corpo dele. Sigo na certeza de que os mais simples conhecimentos da ciência, da medicina, precisam estar na sala de aula. Todo menino deveria aprender a medir a pressão, contar batimento do pulso, saber respiração boca-a-boca, reconhecer a emergência para tirar de uma crise ou salvar seu semelhante e até ele próprio. É dever da escola “ensinar sobre as drogas, explicar cientificamente o que acontece com o cérebro quando usamos cada uma delas: cocaína, crack, álcool,maconha, ecstasy e etc”, diz a minha querida  poeta Roseana Murray.  E” mostrar os dois lados, sem ter medo da verdade”.  Penso que é também dever da escola a interdisciplinaridade entre as matérias porque não há Geografia sem História, nem História sem Biologia, nem Biologia sem Física, nem Física sem Química. Assim como há Matemática na Música e Português na Medicina. Não faz sentido que essas matérias sigam dissociadas feito o joelho e o fígado de um paciente dissecado por uma noção equivocada da saúde e de bem estar da civilização. Da mesma maneira tanto a família quanto a escola se complicam quando o assunto é sexo. Ensinamos aos nossos filhos e alunos os nomes da nossa composição: olho, boca, orelha, nariz. Mas ao chegar na pélvis fica todo mundo gago e com milhões de inexplicáveis apelidos: bumbum, pipi, pintinho, perereca, papica, e um desfilar de adjetivos sem fim cujo o único fim é tapar o sol com a peneira. Por que tanto problema com a sagrada portinha por onde a humanidade entra e sai? Por que há tantos bonecos ainda sem penisinho? Por que tanta preocupação com o ânus se todos os gêneros têm o seu? Coitado do ânus! Tratamo-lo com o mesmo desprezo e preconceito com que tratamos os nossos resíduos urbanos e seus cuidadores. Palavrões continuam a desestruturar e tirar o equilíbrio dos conservadores, porque todos sabemos que o que ralmente assusta a esses senhores é o fundo sexual ao qual todo palavrão remete. O que bebemos e o que comemos será eliminado por nós, mas os orifícios e órgãos responsáveis por esse serviço fundamental para a dinâmica metabólica de nossa saúde não tem glamour nem nobreza e a sexualidade ainda piora sua reputação. É grave. Está resultando numa sociedade cheia de prisão de ventre, preconceitos e contradições aumentando o número de receitas tarja preta. Reparou como tudo está na educação? Reparou que um país que não tiver uma política educacional consistente e consequente para um futuro são,  não se estabelecerá sem a violência e a dificuldade de convivência que continuamos a assistir? O certo é que também a nutrição, como base da saúde está fora da informação escolar.

Felizmente, visionários, competentes profissionais de cada área, sonhadores e artistas de plantão, furam o esquema e mudam o rumo dessa prosa. Esses dias mesmo assistindo a novela “Aquele Beijo”, do Miguel Falabela, mais meus olhos se revelaram atentíssimos à aquela obra em cartaz num horário em que muitos jovens estão com os olhos colados na TV. A personagem Cláudia, vivida pela atriz Geovana Antonelli, em mais uma excelente atuação, diz com a naturalidade e displicência coloquial que o texto pedia:” pera aí que eu vou fazer xixi”. Foi a primeira vez que vi. Em anos de novela jamais vi essa cena. Talvez seja pioneira mesmo na dramaturgia da televisão brasileira, diga-se de passagem, a mais avançada do mundo. Aliás, é raro alguém ir ao banheiro nessas tramas. Raro também é ver alguém lendo um livro, é merchandising de livro dentro da história, uma coisa de tão fácil inserção! É raro  uma biblioteca compondo o ambiente, a não ser como fundo de escuros escritórios. Umas bibliotecas mortas. Aliás, poucas vezes livro é assunto. É Miguel Falabella quem de novo nos socorre. Além de suas poéticas narrativas, vi no mesmo capítulo um personagem adolescente que cita alguma coisa muito bonita, comparando o amor com um rio que sempre volta ao seu leito original, cujo curso ninguém é capaz de impedir ou mudar. Perguntado pelo pai onde aprendera tais bonitos e profundos pensamentos o jovem respondeu com um singelo sorriso: “onde meu pai? ora, onde seria? nos livros, nos livros!”Alô, alô televisão, escola, família, é a vida a matéria da educação. Melhorar o mundo é a sua razão.

Frei-exemplo é o melhor pregador

Me peguei pensando: daqui há dez dias farei dois anos sem fumar. Ora, isso só acontecerá se eu perseguir no caminho dessa decisão tomada. Meu pai disse na ocasião de minha “libertação” do fumo – vício adquirido aos 14 nos de idade – que o que eu tinha tido era uma volição. A palavra quer dizer que a pessoa atingiu o âmago da vontade, o centro, o caroço da questão e aí uma vez alcançada a compreensão o indivíduo vence. Penso que educação é talvez o assunto mais importante da nossa Nação. E considere-se aqui que não falo de educação dissociada da cultura. Para mim letra é arte e matemática é música, ritmo, comédia. Portanto chamo à nossa atenção para que nossas ações principalmente as públicas que vão interferir no outro, estejam comprometidas com a melhoria do mundo. Você vai me perguntar o que é melhoria, vai dizer que é subjetivo e coisa e tal. Mas estou, nesse ponto, com os poetas e dificilmente há um poeta que pregue a guerra e a injustiça do mundo. Igualdade de condições e oportunidades  é um dever do novo tempo aos habitantes do planeta. Mas para falar apenas do meu país me assombra tanto a deseducação, me assombra tanto o incentivo à cultura da violência, da competição e da vitória a qualquer custo ainda que isso custe, às vezes a vida do outro. Vejo propagandas que falam que ter o carro tal é ter atitude, que ter um computador é melhor do que ter um instrumento musical, que quem tem esse ou aquele bem não precisa ter ideias. A toda hora me estarrece a loucura pela grana e pelo poder sendo ensinada a crianças por todos os meios de comunicação, pela escola e pelos pais. Nossa responsabilidade como artistas, como professores, como educadores, como políticos representantes do desejo de uma sociedade plural que se pretende justa, é imensa. E nos convoca a toda hora. Quando parei de fumar escrevi uma crônica chamada “Piro no suspiro” (disponível na rede), partilhei a experiência e conheço umas trinta pessoas para quem tal relato serviu no seu processo de se livrar do tabaco. Muitas vezes o pensamento de um escritor, de um colunista, de um cineasta esclarece tanta coisa para mim, reforça as minhas convicções, nutre de esperança minhas lutas. “É preciso estar atento e forte”, escutar as próprias palavras para não dizer semente de guerra para não produzir mais dias de violência e desentendimento entre humanos que labutam e muito têm ainda o que aprender na arte de conviver. Nesse sentido a cerimônia de transmissão de posse do cargo de Ministro de Esportes nessa semana me deixou confusa quanto o que aquela cena ensina. Ora, muitos códigos estão postos nessa dinâmica: Primeiro, toda sociedade brasileira avança quando temos negros ocupando lugares de destaque e decisão. Por isso termos o nosso Obama num Ministério fortalece a identidade negra de um país acostumado a considerar seus mestiços, ainda em muitas instâncias, como cidadãos de segunda categoria. Ao mesmo tempo reforça o preconceito se alguma coisa não vai bem na gestão daquele indivíduo. É claro que isso não é tudo mas também conta e está agindo em nosso inconsciente. Sempre tive respeito por Orlando Silva e há uma grande torcida no meu coração e de muitos para que ele prove sua inocência. Mas fazer da cerimônia de transmissão de um cargo por um motivo triste, uma festa torna a mensagem educativa complicada. As acusações são graves e o dinheiro é público, fazendo com que todo brasileiro se sinta autorizado a tecer opiniões sobre o público evento. Quando eu li sobre os discursos, o clima de festa da cerimônia, fiquei triste. Ainda bem que a Presidente Dilma desejou ao ex-Ministro muito sucesso em sua cruzada pela verdade. Porque muitos jovens estão vendo o espetáculo. São brasileirinhos formando a sua primeira opinião sobre a nossa política partidária, nossa gestão e nossa noção de justiça. Foi triste para o Orlando sair sob suspeita, triste para o Aldo Rebelo assumir tendo que fazer uma profunda investigação, e triste para a Nação que luta para conseguir se livrar de seus corruptores contumazes. Eu sinceramente acho que o Orlando é inocente e então o momento deveria ser de indignação e luta para que a verdade límpida e honesta venha à tona e lave qualquer suspeita imediatamente. Por mais que o partido comemorasse a sua união estou de olho na Pátria, e, com todas as honras pelo serviço oferecido ao país que o Orlando mereça, não era aquela ocasião uma cerimônia de festas. Costumo dizer que mesmo calados estamos nos posicionando. Passivos ou não, todo dia contribuímos para algum lado. É hora de assumir a nossa condição múltipla de educadores já que somos os que falamos por tanta a gente. Incluo aqui padres, professores, ialorixás, médicos, conselheiros tutelares, governos, todos que trabalham para um mundo viável. Nesse momento, de minha parte, além de escrever meu pensamento nesse papel, venho cuidando dos meus inspirares de amanhã agora, no presente. O futuro é feito com os ingredientes do hoje, por isso trabalharei atenciosamente para daqui a pouco dizer: daqui há dois dias faz dez anos que parei de fumar.

Palavra é poder

Ainda estou sob o impacto emocional, excelente impacto por sinal, da experiência de ter dado aula para profissionais de segurança, cuidadores e conselheiros capixabas. Enfim, policiais, guardas municipais, delegados, delegadas, professores e representantes da comunidade de São Pedro, fizeram parte da 1ª turma Capixaba do Curso/Vivência e Capacitação chamado “Palavra de Polícias, Outras Armas”. A experiência iniciada no Distrito Federal a convite da OIT vem ganhando espaço interessante como sinal de um novo tempo. Tornou-se insustentável falar de segurança sem afinar sua política sobre os princípios dos Direitos Humanos. Recebida pelo queridíssimo João José, secretário de Direitos Humanos e Cidadania, conversamos longamente aqui em Vitória sobre juventude e infração, equívocos do nosso sistema educacional e principalmente a dificuldade que os sistemas ditos de reabilitação têm para reconduzir o indivíduo perdido de seu sonho ao caminho dele. Discutimos inclusive um outro artigo meu publicado aqui onde relatei a deliciosa experiência de fazer uma palestra sobre o tema para cuidadores, carcereiros, psicólogos, inspetores, professores e diretores da Fundação José Silveira, em Salvador. Também à convite da OIT muito me alegrou que esse treinamento que venho desenvolvendo junto com a minha equipe da Casa Poema pelo país tenha chegado logo aqui.

Quando me mudei para o Rio de Janeiro a coisa que mais me constrangia era a nossa má fama. O Espírito Santo era tão campeão de bilheteria no assunto violência, assíduo freqüentador das trágicas manchetes do noticiário nacional que se eu pudesse, pensava eu na época, resolvia isso lá dentro de casa, entre capixabas sem que ninguém soubesse. Ah,você é da terra que mataram aquela menina, a Araceli? Que sim, eu respondia quase sem graça para esconder a pontada que dava no coração. No entanto, passados os anos muita coisa melhorou, mas nós precisamos sair definitivamente da cabeça desse ranking. Sem políticas de inclusão, sem a arteducação, principal desenvolvedora das potencialidades humanas, sem educação e uma polícia que proteja o cidadão sem ser vilã da própria comunidade, não sairemos do lugar. Sou de Cariacíca, município cuja imagem foi por anos associada à criminalidade e a tudo de ruim, mas agora o lugar onde fica o meu Itaquari saiu do primeiro lugar, finalmente, da violência no Estado. E ainda por cima a Unidos da Boa Vista ainda me homenageia como enredo do próximo carnaval, que beleza! Isso fortalece uma comunidade. Mas quem vos fala “que beleza”, não é a “Elisa – vaidade” aqui. É a cidadã orgulhosa de representar um lugar tão sem glamour, tão desconsiderado no mapa burguês daqui e do mundo. Observe-se que, paralela à diminuição da criminalidade de um lugar, na proporção inversa, crescem as iniciativas de arte e educação do mesmo lugar. Escrevo tudo isso para dizer que quando me vi lá dentro de São Pedro diante daqueles de quem tanta gente boa tem medo, pude outra vez testemunhar o lindo processo do homem sensível atrás do policial. Aquele que sai de casa com seu colete, suas armas, seus sprays e sua coragem para matar ou morrer. Pois o papel dessa nossa iniciativa é atuar numa gama de opções que habitam a distância entre matar ou morrer. Às vezes um homem, um garoto, uma mulher desesperada está prestes a começar uma rebelião, tocar fogo num ônibus, matar a namorada refém, assassinar uma escola, e o desfecho da cena, tragédia ou glória, está nas mãos do policial. A palavra tem poder, dissolve nós, desarma,  imobiliza, provoca, acalma, fere, salva, dá xeque-mate. Conselheiros tutelares, orientadores, instrutores, cuidadores, de todo o tipo de excluídos, não desprezem a palavra, por favor. Foi muito lindo ver um delegado, uma delegada, um senhor da comunidade, um guarda, um policial, todo mundo ali falando poesia, exercendo sua sensibilidade e aprimorando sua competência e preparo para trabalhar no esquema de segurança de uma sociedade dentro da cultura da paz. Sei de uma história que uma senhora que andava numa rua escura, em Salvador, quando encontrou um rapaz que vinha em sua direção e perguntou: meu filho que horas são? Ao que o rapaz se desmontou a chorar: “Eu ia assaltar a senhora, mas a senhora me chamou de meu filho…. faz dez anos que eu não vejo a minha mãe,dona.” Viu como até sem querer a palavra pode desarmar? Parabéns Espírito Santo, se cuidando para melhor cuidar.

A Letra Que eu Canto

A Letra que eu Canto é o mais novo espetáculo musical e poético de Elisa Lucinda. Num formato inédito em sua carreira, Elisa se apresentará no carioquíssimo palco do Rival Petrobras,acompanhada do piano e acordeon do maesrtro João Carlos Coutinho e dos sopros de Marcelo Martins.

A atriz multimídia teve sua voz mais admirada através do sucesso de sua personagem Pérola, cantora do Nick Bar, ex-mulher de Teó, o saxofonista vivido por Tony Ramos na tramade Mulheres Apaixonadas , telenovela do horário nobre da Rede Globo. A intérprete nos levará ao vasto universo do cancioneiro brasileiro, pela palavras cantadas do também capixaba Sérgio Sampaio e outros compositores brasileiros, comoVitor Ramil, Zé Ramalho, Noel Rosa, JardsMacalé, Toninho Geraes, Cazuza, Arlindo Cruz, Chico Buarque eoutros bambas, num repertório surpreendente, cujos arranjos vão dar mais moldura à dramaturgia das poéticas canções. A letra que eu canto traz para o proscênio o que diz cada música na leitura e no olhar de quem está acostumada a descobrir mistérios narotina lírica do cotidiano. Iluminado por alguns poemas da autora, o show promete nos trazer a graça, o humor , a irreverência e a emoção da arte de encantar que Elisa tem.

Nas palavras de cantor e compositor Lobão, a cantora, poeta e atriz tem o dom de inaugurar as canções que canta e assim nos conduz à brilhante viagem de sua interpretação.

Serviço:
Teatro Rival Petrobras
Dias 21 e 22/10 – Sexta e Sábado às 19h30
Rua Álvaro Alvim, 33/37 – Cinelândia

Preço:
R$ 55,00(Inteira)
R$ 40,00(Os 100 primeiros pagantes)
R$ 27,50(Meia)

Classificação: 16 anos